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MÉDICO-PACIENTE

- Publicada em 15h31min, 17/10/2019. Atualizada em 17h42min, 15/10/2020.

Amizade que ultrapassou as consultas e cirurgias

Trindade e Barichello convivem há 37 anos; empatia começou dentro de um bloco cirúrgico

Trindade e Barichello convivem há 37 anos; empatia começou dentro de um bloco cirúrgico


MARCO QUINTANA/JC
Eduarda Endler
Quando imaginamos o encontro entre médico e paciente, geralmente nos remetemos a uma sala clara, com muitos livros, um profissional sério e um doente amedrontado ou desconfiado diante das probabilidades de sua condição de saúde. Diferentemente desse estereótipo, o empresário José Luiz Barichello, 68 anos, costuma encontrar-se com seu médico, Dr. Manoel Trindade, em um ambiente de muitas risadas, piadas, brincadeiras e abraços sinceros. Amigos há 37 anos, a relação dos dois começou dentro de um bloco cirúrgico. Mas, na ocasião, a paciente era a sogra de Barichello.
Quando imaginamos o encontro entre médico e paciente, geralmente nos remetemos a uma sala clara, com muitos livros, um profissional sério e um doente amedrontado ou desconfiado diante das probabilidades de sua condição de saúde. Diferentemente desse estereótipo, o empresário José Luiz Barichello, 68 anos, costuma encontrar-se com seu médico, Dr. Manoel Trindade, em um ambiente de muitas risadas, piadas, brincadeiras e abraços sinceros. Amigos há 37 anos, a relação dos dois começou dentro de um bloco cirúrgico. Mas, na ocasião, a paciente era a sogra de Barichello.
Corajoso, Zé, como é chamado pelo médico, entrou na sala de cirurgia e observou o procedimento que estava sendo feito na sogra ali mesmo, literalmente do lado da paciente. E aguentou firme, segundo lembra Trindade, em meio a risadas. Barichello brinca que estava curioso com o que aconteceria ali e, por isso, pediu para assistir a cirurgia da sogra, que tinha colecistite e cálculos no canal do fígado. "Eu visitava a sogra dele no quarto, depois da cirurgia, e começou a surgir uma empatia", lembra o médico.
Mesmo diante de uma cirurgia complexa, o procedimento obteve sucesso total. Com a evolução do caso e o acompanhamento da paciente pelo genro, surgiu a amizade entre eles. Alguns anos depois, foi a vez do sogro ser operado por Trindade. Em seguida, sua esposa, a filha e a cunhada. E, por fim, o amigo tornou-se o paciente. Hipertenso e com diabetes, Barichello precisou passar por uma cirurgia metabólica - mesmo procedimento da cirurgia bariátrica, porém visando ao controle da doença, enquanto a bariátrica tem como objetivo a perda de peso.
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Até o momento, o médico já operou seis pessoas da família do amigo e, agora, atende também a mãe de Barichello, de quem tornou-se íntimo. Em dezembro, as famílias se encontram para comemorar o Ano-Novo. Por coincidência, os Trindade e os Barichello veraneiam na mesma praia, em Torres. Quando a amizade começou, os filhos dos amigos tinham a mesma idade. "Nossos filhos se criaram juntos, e, hoje, não somos apenas amigos, somos uma família. Ele não é apenas um amigo, é uma pessoa de casa. Compartilhamos a vida, e tudo isso foi causado por um atendimento médico, por um contato de muitos anos atrás", conta o paciente.
Orgulhoso da amizade, Barichello observa com atenção enquanto o médico conta sobre sua rotina e os feitos. E ainda ajuda, lembrando de momentos que Trindade esqueceu de mencionar. "Tu também operou pessoas de outros países: África, Índia etc." Sem graça, o médico conta que uma das características que o fez ser um profissional bem-sucedido foi o fato de sempre gostar de lidar com os pacientes. "O médico tem que ser um amigo, e o paciente tem que encontrar no médico todo aquele apoio e afeto que precisa no momento tão delicado da vida", comenta.
Barichello, concordando com o amigo, salienta: "Ele gosta da profissão"!

Professor prega qualidade do contato e incentiva alunos a coibir impessoalidade

Professor desde 1978, o médico Manoel Trindade tem contato com estudantes da faculdade e da pós-graduação. Sua primeira experiência foi como titular da disciplina de anatomia na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), por 10 anos. Em 1980, ingressou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) como professor da cadeira de cirurgia. Depois disso, a carreira do médico e acadêmico foi avançando. E, agora, comemora seus dois anos como professor titular do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da Ufrgs. Além disso, comanda uma equipe especializada em cirurgia do aparelho digestivo no Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
Nas salas de aula e nos hospitais, Trindade percebe mudanças na atividade profissional e revela que tem percebido que a medicina está perdendo a qualidade do contato entre médico e paciente. Segundo ele, essa relação está cada vez mais diferente e se tornando "quase impessoal". Ao analisar essa condição do dia a dia da prática médica, ele lamenta que a relação esteja condicionada ao ato de pedir o exame, fazer o diagnóstico e apontar o tratamento. "Se perdeu, a medicina é muito mais do que a doença e o tratamento, a pessoa é muito mais que isso. Nossos pacientes são um conjunto", reforça.
Dentro das salas de aula, ele tem buscado humanizar os alunos. "A gente procura, em meio a toda a tecnologia, incutir nos alunos que o desiderato maior do médico é o paciente", comenta.
O professor salienta ainda que a humanização da medicina acontece a partir do momento em que o médico gosta do paciente. Ressalta também que não se deve pensar a medicina apenas como uma profissão. Segundo ele, o paciente tem que ser visto como um todo: se tem família, se é casado, se tem filhos, quem ele é. É preciso entender todo o contexto, pois somente assim o profissional que presta o atendimento será um bom médico. "Se quer ser médico, tem que gostar de gente. A partir daí, já é meio caminho andado", complementa.
Aluna de Trindade na disciplina de Cirurgia na Ufrgs, a estudante do sétimo semestre Natali da Rocha de Araújo, 24 anos, conta que o professor estimula em sala de aula a relação humanizada com os pacientes. "A gente nota que ele tem uma proximidade com os pacientes para além da cirurgia. E, como professor, tem essa relação também com os alunos, tentando conhecer, ver qual carreira desejam seguir", conta.
A estudante relata alguns casos de atendimento nos quais é visível a desconfiança e o desconforto do paciente. "A medida em que a conversa avança e o paciente se sente ouvido e acolhido, suas feições mudam totalmente. No final dos atendimentos, o paciente que estava desconfiado e desamparado já está dando um sorriso e agradecendo".
Para ela, o resultado faz com que se sinta responsável e importante, mesmo que de forma pequena, para aquele paciente. "É isso que busco na profissão. E tento alcançar isso através de uma relação mais próxima e humanizada com o paciente", explica.
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