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ÉTICA

- Publicada em 03h00min, 18/10/2019. Atualizada em 09h32min, 16/10/2020.

Alunos de medicina contam com código específico para o período de estudos

Estudantes são orientados sobre como enfrentar determinadas situações ao longo da formação, da vida profissional, das relações e no ambiente acadêmico

Estudantes são orientados sobre como enfrentar determinadas situações ao longo da formação, da vida profissional, das relações e no ambiente acadêmico


BRUNO TODESCHINI/DIVULGAÇÃO/JC
Há pouco mais de um ano, os estudantes de medicina passaram a contar com o Código de Ética do Estudante de Medicina (CEEM). Em agosto de 2018, o Conselho Federal de Medicina (CFM) lançou o material inédito no Brasil, com o objetivo de entregar um conjunto de princípios para delimitar as relações dentro e fora das salas de aula. Atualmente, mais de 320 escolas de medicina contam com o livro, que também está disponível para download no site do Conselho. O CEEM brasileiro foi inspirado em códigos semelhantes editados em outros países, como Inglaterra, Estados Unidos e Canadá. Antes disso, os Conselhos Regionais de Medicina elaboravam materiais com o mesmo objetivo. Entretanto, a abrangência era local.
Há pouco mais de um ano, os estudantes de medicina passaram a contar com o Código de Ética do Estudante de Medicina (CEEM). Em agosto de 2018, o Conselho Federal de Medicina (CFM) lançou o material inédito no Brasil, com o objetivo de entregar um conjunto de princípios para delimitar as relações dentro e fora das salas de aula. Atualmente, mais de 320 escolas de medicina contam com o livro, que também está disponível para download no site do Conselho. O CEEM brasileiro foi inspirado em códigos semelhantes editados em outros países, como Inglaterra, Estados Unidos e Canadá. Antes disso, os Conselhos Regionais de Medicina elaboravam materiais com o mesmo objetivo. Entretanto, a abrangência era local.
Para o presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers), Dr. Eduardo Trindade, o código orienta o aluno para enfrentar diversas situações ao longo da formação e da vida profissional, nas relações pessoais, no ambiente acadêmico e na sociedade. "Traz informações desde a organização estudantil, direitos e responsabilidades dos alunos, trotes responsáveis, respeito ao sigilo, condutas abusivas até o uso ético de cadáveres nas atividades de ensino", explica.
Quanto ao trabalho com os alunos de medicina do Rio Grande do Sul, o presidente conta que o Cremers tem feito ações de aproximação com as faculdades para orientar sobre o Código de Ética do profissional médico, as funções do Conselho e a documentação necessária para obter o registro profissional: "Periodicamente, promovemos o Cremers na Faculdade, que é um encontro com os alunos do último ano, no seu local de aprendizado, para conversar sobre essas questões. Agora, com a edição do CEEM, vamos organizar encontros também com os alunos dos anos iniciais, para abordar os princípios éticos", destaca.
O material elaborado pelo CFM contém 45 artigos organizados em seis diferentes eixos, os quais ressaltam atitudes, práticas e princípios morais e éticos. Não somente com a intenção de orientar os alunos, o código também foi elaborado para professores e responsáveis pelas instituições de ensino, encarregados da formação do profissional. Em entrevista para o portal do CFM, o coordenador da Comissão Nacional de Elaboração do Código de Ética do Estudante de Medicina e presidente do Conselho, Carlos Vital, explicou a importância do material. "A formação dos futuros médicos na graduação deve proporcionar aos estudantes o incentivo ao aperfeiçoamento da capacidade de lidar com problemas nos campos da moral e da ética em sinergia com as atividades relacionadas ao ensino e à prática profissional", declarou.
Segundo o presidente do CFM, a conveniência e necessidade de elaborar a publicação atendeu a uma demanda das próprias entidades de estudantes vinculadas ao ensino da medicina, que percebiam quanto era "oportuno elaborar uma carta de princípios universais, aplicáveis a todos os contextos, para estimular o desenvolvimento de uma consciência individual e coletiva propícia ao fortalecimento de uma postura honesta, responsável, competente e ética, resultando na formação de um futuro médico mais atento a esses princípios fundamentais da atividade profissional e da vida em sociedade".

Humanização do curso influencia na escolha da carreira

Desde a sétima série do Ensino Fundamental, Julia Zubaran de Oliveira, 24 anos, já considerava estudar Medicina. Hoje, no 12º semestre, prestes a terminar a graduação, a jovem revela que nem sempre teve total certeza sobre a escolha certa do curso. "Meus pais são professores de humanas, eu cresci mais nessa área, sempre amei humanas, artes e exatas. Então não vou fingir que existia um amor por Medicina, porque isso só surgiu durante a faculdade. Acho que foi uma escolha muito influenciada por opiniões externas e pelo medo de não ter estabilidade financeira. A Medicina continua sendo uma das poucas profissões em que dificilmente tu vai te formar e não ter emprego, e acho que isso é um dos grandes atrativos para muita gente", explica.
Agora, reforçando ser uma apaixonada pelo curso, ela explica que as experiências dos pacientes a tocam profundamente: "Acho lindo escutar as histórias das pessoas que estão ali com a gente, se colocando nessa posição vulnerável de se abrir com alguém que, muitas vezes, está recém conhecendo. É uma oportunidade única. Foi isso que me fez começar a amar a Medicina", confessa.
Para o futuro, Julia conta que deseja fazer especialização em Medicina de Família e Comunidade, e revela ainda, a pretensão de atender no Sistema Único de Saúde (SUS). A escolha da residência foi uma resposta à relação desenvolvida com os pacientes durante a faculdade. "A Medicina de Família trabalha muito com longitudinalidade, com acompanhar as pessoas ao longo do tempo, de conhecer não só a pessoa naquela sala de consultório, mas na sua casa, na comunidade, no seu contexto. A gente brinca que a Medicina de Família e Comunidade é especialista em gente, e,  para mim, é isso mesmo. Não consigo me imaginar fazendo outra coisa", salienta.
Sobre o desejo de atender pelo SUS, a aluna explica que cerca de 70% da população depende exclusivamente do sistema. Julia relata que, dentro da atenção primária, na qual atua o médico de família, é possível fazer muito sem precisar de tantos recursos tecnológicos. "É claro que o SUS tem várias limitações, e muitos profissionais usam isso como justificativa para defender o atendimento privado. Mas acho que o SUS deve ser enriquecido, não desmontado, e quero ter meu papel, por menor que seja, para contribuir para que ele continue existindo e ajudando as pessoas que não teriam acesso a cuidados com a saúde", ressalta Julia.
Para a estudante, a humanização do curso é o que há de mais bonito na Medicina. "A relação médico-paciente é fundamental para a atuação na Medicina, e não existe Medicina de verdade sem ela. Existe algo chamado 'método centrado na pessoa', que é uma metodologia de atendimento que reforça essa relação, trazendo o paciente como pessoa, e não como um órgão ou doença específica", explica. Segundo ela, tratar o paciente como uma pessoa, ao invés de enxergar apenas uma doença, é uma experiência muito mais rica. "Lidar com as expectativas e crenças da pessoa, com seus medos, com suas limitações. Acho importante falar nessa metodologia, porque é algo científico, com evidência comprovada de melhores desfechos em saúde. Todos profissionais deveriam usar desse método", complementa.
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