Porto Alegre, quarta-feira, 17 de outubro de 2018.

Jornal do Comércio

COMENTAR | CORRIGIR

doenças LABORAIS

Notícia da edição impressa de 18/10/2018. Alterada em 08/10 às 00h00min

A dura batalha contra a dor

O que mais tem afastado o brasileiro do trabalho é a dorsalgia ou lombalgia

O que mais tem afastado o brasileiro do trabalho é a dorsalgia ou lombalgia


FREDY VIEIRA/ARQUIVO/JC
"Ai, que dor nas costas!" Atire o primeiro analgésico quem não ouviu - ou disse - essa frase, pelo menos, uma vez nesta semana, em seu ambiente de trabalho. Campeã no ranking de afastamentos do Ministério da Fazenda, a dorsalgia ou lombalgia, nomes técnicos da famigerada dor nas costas, nocauteou quase 84 mil brasileiros em 2017. E isso não é de hoje: há uma década, a doença é a campeã absoluta do levantamento que contabiliza os motivos pelos quais o INSS concede auxílio-doença. Apesar de ser a vencedora absoluta, a dorsalgia está ganhando um desafiante à altura nos últimos anos: o episódio depressivo, que está em 10ª posição no ranking de 2017, com 43,3 mil casos, e que cresce rapidamente.
Chamadas tecnicamente de Doenças Osteoarticulares Relacionadas ao Trabalho (Dort), a dorsalgia e suas primas (fraturas, tendinites e hérnias, para nomear algumas) são o pesadelo de empregadores e empregados, pois derrubam a produtividade e transformam a vida e a rotina do trabalhador em um verdadeiro pesadelo. No mesmo time estão as Lesões por Esforço Repetitivo (LER). Já as doenças de ordem mental, mais silenciosas, estão recebendo diagnóstico cada vez mais frequente. No mesmo ranking do Ministério da Fazenda, se for somado o número total de afastamentos por motivos psicológicos, com transtornos descritos como ansiedade ou depressão recorrente, os casos chegaram a quase 93 mil no ano passado - número que já supera a velha dor nas costas.
Mesmo com o crescimento espantoso dos episódios de ordem psicológica e psiquiátrica, o que mais afasta o brasileiro do trabalho é mesmo a dor - seja nas costas ou em outras partes do corpo relacionadas à atividade laboral. "Em meados dos anos 1980 e 1990, quando se começou a se falar sobre isso, acreditava-se que as doenças do trabalho eram relacionadas somente à ergonomia e ao esforço repetitivo. Hoje, já se sabe que isso é apenas uma parte do problema. Muitos fatores - como força excessiva, má postura e até as insatisfações do dia a dia - podem agravar quadros de dor e lesões", explica o médico Fábio
Ruschel, especialista em Medicina do Trabalho e membro do Ambulatório de Doenças Crônicas da Unidade Regional de Saúde do Trabalhador da Prefeitura de Gravataí.
O diagnóstico tardio e a automedicação também contribuem para o agravamento das Dort. Como as dores começam aos poucos, é praticamente irresistível para o trabalhador administrar analgésicos ou anti-inflamatórios por conta própria.
O que se inicia com um pequeno incômodo, vai evoluindo para dores mais fortes, dormência e formigamento. Normalmente, quando chega perto do pior estágio, que é a perda da força nos membros, o trabalhador procura ajuda, de acordo com Ruschel.
Aliada de quem está suscetível a sofrer com as doenças do trabalho, a ginástica laboral nas empresas tem perdido espaço em função da crise econômica. Resta, então, o cuidado com a ergonomia do ambiente, fator importante para prevenir e minimizar a ocorrência de dores e lesões. "As questões ergonômicas não são as únicas, mas são muito importantes para prevenir as Dort. Cadeiras com braços ajustados, mesas e bancadas em altura compatível e até o nível do computador diante dos olhos fazem a diferença depois de oito horas ou mais de trabalho", destaca Ruschel.

Disciplina para prevenir o pior

Saber a hora de parar, pelo menos por alguns minutos, pode ser a chave para manter a saúde do corpo no ambiente de trabalho. Na indústria, regida por uma legislação que prevê pausas durante a jornada, é mais fácil seguir essa regra. Nos setores de comércio, serviços e em órgãos públicos, no entanto, fica bem mais difícil controlar o momento de dar um tempo para mudar de posição.

"Um rodízio de atividades é fundamental para não sobrecarregar a musculatura e os tendões. Movimentos repetidos e muitas horas na mesma posição favorecem as posturas incorretas, que são o caminho mais rápido para dores e lesões", comenta a educadora física Cíntia Detsch Fonseca, membro do setor de Fisiatria do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e que possui mestrado em Saúde Coletiva pela Unisinos e doutorado em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).

Para Cíntia, o ideal é praticar ginástica laboral conduzida pelo profissional de Educação Física, com atividades orientadas para as particularidades de cada tipo de trabalho.

Caso não seja possível, o próprio trabalhador pode fazer brevíssimos movimentos de alongamento nas pausas que intercala ao longo de sua jornada diária.

A caminho do banheiro ou do cafezinho já se pode alongar músculos e articulações, aliviando as tensões e melhorando a disposição e o desempenho.

A regra de ouro, porém, está fora do ambiente de trabalho. A prática de exercícios físicos regularmente é apontada pelos especialistas como meio mais eficiente de evitar e até de melhorar dores e lesões.

Até mesmo para minimizar os distúrbios psicológicos relacionados ao trabalho, a atividade física regular se mostra eficiente, já que, além de relaxar, também contribui para a socialização.

"Quanto melhor for o condicionamento físico do indivíduo, menor será o risco de Dort. Uma rotina regular de exercícios também melhora a saúde de um modo geral, prevenindo doenças e dores. E isso já torna a pessoa mais resistente diante dos desafios que o trabalho apresenta", completa Cíntia.

COMENTAR | CORRIGIR
Comentários
Seja o primeiro a comentar esta notícia