Porto Alegre, quarta-feira, 17 de outubro de 2018.

Jornal do Comércio

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ENTREVISTA

Notícia da edição impressa de 18/10/2018. Alterada em 08/10 às 00h00min

'Temos que ter pesquisa aqui e não somente importar conhecimento de fora'

 Geneticista é defensora da pesquisa como forma de oferecer melhor assistência à população

Geneticista é defensora da pesquisa como forma de oferecer melhor assistência à população


LUIZA PRADO/JC
De uma pequena sala, escondida entre o labirinto de corredores e consultórios de uma das alas do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), a médica geneticista Patrícia Prolla divide seu tempo entre os estudos na área de genética humana e oncológica, que são sua verdadeira paixão, e a coordenação do Grupo de Pesquisa e Pós-Graduação do Hospital. Entre viagens e congressos, ela coordena o planejamento e a prospecção da área de pesquisa da instituição, que tem na investigação científica um dos seus pilares. Consciente dos problemas que a ciência enfrenta no País, e ao mesmo tempo entusiasmada com as possibilidades da tecnologia em saúde, Patrícia é defensora da pesquisa como forma de oferecer melhor assistência à população. Entre um compromisso e outro, ela recebeu a reportagem para uma breve entrevista. 
Jornal do Comércio - Qual a importância do investimento em pesquisa para a área médica?
Patrícia Ashton Prolla - A pesquisa tem dois pilares fundamentais. Um deles é descoberta de novos medicamentos, novas técnicas, novos tratamentos para os mais diversos males. Além de descobrir novos rumos para a medicina, a pesquisa também revela caminhos para equacionar os recursos disponíveis e as necessidades da população, especialmente em um país como o Brasil. Aqui no Clínicas temos muitas iniciativas nesse sentido, de usar a pesquisa para revelar não somente novas drogas e tratamentos, mas para encontrar um meio de fazer essa inovação chegar à população de modo mais universal. Esse é um ponto. E o outro é o quanto a pesquisa qualifica o ensino e a preparação dos profissionais da saúde que formamos. Estudantes de medicina, enfermagem e das demais áreas afins são incentivados a engajarem-se em projetos para aprimorar seu conhecimento e a sua preparação para a vida profissional dentro da saúde.
JC - Como a senhora avalia o momento atual da pesquisa no Brasil?
Patrícia - Vivemos um período bastante complicado. Para fazer pesquisa de ponta, é preciso recursos que nem sempre temos. Com o que conseguimos disponibilizar para isso no País, não alcançamos o elevado nível das pesquisas no exterior. Porém, as pesquisas em saúde e medicina feitas no Brasil são muito mais acessíveis à população, com uma agilidade muito maior. Por isso temos que ter pesquisa aqui e não somente importar conhecimento de fora.
JC - Quais os principais gargalos?
Patrícia - Uma das realidades mais difíceis de contornar é o que chamamos de "drenagem de cérebros" para outros países. Como temos pouco dinheiro, é difícil reter os grandes pesquisadores por muito tempo. A carreira de pesquisador e acadêmico aqui no Brasil é muito menos atrativa do que em outros países, que oferecem salários muito tentadores. Assim perdemos talentos. Também é difícil engajar a comunidade na dinâmica de pesquisas em saúde, não temos essa cultura.
JC - Mesmo assim, o Rio Grande do Sul ainda é uma das referências na pesquisa em saúde.
Patrícia - Sim, ainda estamos em uma espécie de vanguarda. Aqui no Hospital de Clínicas, por exemplo, temos uma massa crítica grande, temos fomento, pois a pesquisa é um dos negócios do hospital. Nossos pilares são ensino, pesquisa e assistência à população. Os recursos que utilizamos para a pesquisa não vêm do SUS (Sistema Único de Saúde), pelo contrário. É dinheiro oriundo dos órgãos financiadores do ensino, como Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Muitas vezes, como faz parte da metodologia dos projetos, a comunidade é atendida com os recursos destinados à pesquisa, resguardando as verbas do SUS. Além disso, temos 52 funcionários que atuam exclusivamente nos inúmeros projetos de pesquisa que desenvolvemos, nas mais variadas áreas da saúde. Então, sim, ainda somos referência. Mas o investimento em produção de conhecimento deve ser constante, ou perderemos essa posição.
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