Porto Alegre, quarta-feira, 17 de outubro de 2018.

Jornal do Comércio

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Inovação

Notícia da edição impressa de 18/10/2018. Alterada em 08/10 às 00h00min

Saúde na era da disrupção

Robô Cirúrgico Da Vinci já realizou mais de 400 procedimentos no Hospital de Clínicas, mais da metade na área de urologia

Robô Cirúrgico Da Vinci já realizou mais de 400 procedimentos no Hospital de Clínicas, mais da metade na área de urologia


LUIZA PRADO/JC
Há quem diga que já nasceu o ser humano que vai viver até os 150 anos. O dado concreto é que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já em 2036 a expectativa de vida do brasileiro alcançará 79 anos - quatro a mais do que hoje. Estamos vivendo mais. Os avanços em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias médicas são, em boa medida, responsáveis por essa prometida longevidade. Desde robôs complexos até aplicativos ao alcance de quem tem um smartphone, a verdade é que a tecnologia está transformando o jeito de fazer medicina. E mais: tudo isso não ocorre somente em um longínquo laboratório de um prestigiado instituto dos Estados Unidos ou da Europa. Aqui mesmo, em Porto Alegre, essa revolução está em pleno curso.
A pesquisa e a investigação científica têm sido os motores para alavancar essa revolução tecnológica em terras gaúchas. Um dos exemplos mais contundentes da inserção do Rio Grande do Sul no mundo da altíssima tecnologia médica completou cinco anos no último mês de agosto. Adquirido depois de uma decisão ousada do Conselho de Administração do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), o Robô Cirúrgico Da Vinci já realizou mais de 400 procedimentos, mais da metade na área de urologia. Foi o primeiro equipamento desse tipo fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo a atender a população. O Clínicas foi, também, o primeiro hospital universitário do País a dispor do equipamento de última geração para o ensino e o treinamento dos cirurgiões aprendizes.
"Somos um hospital-escola que gera muito conhecimento. E o robô poderia nos levar a um outro nível de pesquisa e ensino, colocando os médicos e cirurgiões formados aqui em linha com o que há de mais novo em cirurgia robótica no mundo. Por isso decidimos pela aquisição do equipamento", comenta o diretor-médico do HCPA, professor Milton Berger.
Utilizado, majoritariamente, para cirurgias urológicas, o robô oferece vantagens significativas em relação à cirurgia por laparoscopia comum. Visão tridimensional, magnificação da imagem e filtro de tremor da mão do cirurgião são fatores que aumentam a precisão do movimento e tornam a cirurgia ainda menos invasiva. Além da posição ergonômica para o cirurgião, o robô possui cabine dupla, com um posto para o médico e outro para o aluno que o acompanha. Para o paciente, os resultados cirúrgicos são praticamente iguais aos dos procedimentos feitos pela mão do médico. Já se percebeu, no entanto, que o processo de recuperação é mais rápido quando se opta pela cirurgia robótica, com menos tempo de incontinência e volta da potência sexual mais rapidamente.
"Ao longo desses anos, temos diversas pesquisas ligadas ao robô, para avaliar seus resultados e seus benefícios, e potencializar o seu uso. O objetivo principal é que ele nos forneça dados e informações para fundamentar decisões clínicas e também relativas ao sistema de saúde", ressalta o adjunto da Diretoria Médica com ênfase na Área Cirúrgica, professor Brasil Silva Neto.
O intenso trabalho dos pesquisadores em torno do equipamento já permite que Da Vinci seja usado também nas áreas de cirurgia geral, ginecologia, coloproctologia e do aparelho digestivo. Ainda neste ano, o aparelho será utilizado em alguns tipos de cirurgia torácica. Mais do que incorporar uma nova tecnologia ao portfólio do hospital, o objetivo é avaliar os reais benefícios dos equipamentos, dimensionando, assim, sua viabilidade no sistema de saúde. Variáveis como o custo do aparelho em relação aos benefícios que ele proporciona aos pacientes e ao próprio hospital, em termos de pesquisa, são levadas em conta no momento de analisar o desempenho e a funcionalidade das tecnologias.
"Somente através da pesquisa vamos poder dizer o real benefício da tecnologia. Vamos poder avaliar a relação entre o índice de cura e qualidade de vida dos pacientes, os ganhos para o sistema de saúde e os custos de desenvolvimento, aquisição e manutenção. Nesse caso, já sabemos que o robô representa ganhos reais, especialmente em casos como os de câncer de próstata. Mas ainda vamos aprender muito mais com ele", destaca Berger.

Invenções como aplicativo para chamar o médico em casa ganham espaço em nome do futuro

Um robô que faz cirurgias de alta complexidade sob os comandos de um cirurgião pode parecer a última novidade em termos de tecnologia médica, mas, acredite, já tem coisa bem mais nova por aí. Todos os anos, surgem novas aplicações da tecnologia disruptiva na área da saúde - e nem todas são complexas quanto o robô. Os aplicativos estão ganhando rapidamente os debates na área da saúde. Com eles, é possível chamar um médico em casa, controlar os medicamentos, acessar o histórico do paciente e até administrar consultórios e clínicas. Levantamento feito pela consultoria Accenture no Brasil mostra que 61% dos profissionais utilizam ferramentas de Tecnologia da Informação (TI), como aplicativos de smartphone, para acompanhar os pacientes e otimizar o tempo de consultas. E cerca de 38% utilizam as ferramentas também para administrar os negócios.

A coisa, porém, vai muitíssimo além disso. Há pouco mais de dois anos, pesquisadores norte-americanos desenvolveram uma técnica de edição genética capaz de modificar a estrutura do DNA. A técnica revolucionária pode prevenir doenças e desenvolver cura para males como HIV e outros vírus. Chamada de Crispr, a técnica foi inspirada em um mecanismo de defesa das bactérias e ainda está em fase de testes. Recentemente, pesquisadores chineses injetaram células modificadas por Crispr em um paciente que lutava contra um câncer de pulmão - sem resultados significativos. Já presente no Brasil, um outro robô promete revolucionar a rotina em farmácias e, principalmente, nas dispensação de medicamentos nos hospitais. O equipamento automatiza o armazenamento, a separação e a distribuição de remédios, controlando estoques e manejando datas de vencimento. Uma farmácia em São Paulo foi a primeira a instalar o robô na América Latina. Menos nova, mas igualmente revolucionária, é a tecnologia da impressão 3D na área médica. Alguns hospitais gaúchos já utilizam a técnica principalmente para simular procedimentos e cirurgias, e treinar os profissionais para procedimentos de alta complexidade, imprimindo órgãos e até modelando próteses.

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