Porto Alegre, quarta-feira, 17 de outubro de 2018.

Jornal do Comércio

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FERTILIDADE

Notícia da edição impressa de 18/10/2018. Alterada em 08/10 às 00h00min

Um dom que não pode esperar

Noah foi gerado por fertilização in vitro; pais tentarem engravidar naturalmente por mais de sete anos

Noah foi gerado por fertilização in vitro; pais tentarem engravidar naturalmente por mais de sete anos


MARCO QUINTANA/JC
Esperto e cheio de personalidade, o pequeno Noah corre em direção ao chafariz da praça. E, no minuto seguinte, dispara rumo ao jardim de areia muito preta. E, em um piscar de olhos, já está invadindo o ensaio fotográfico de outra família. O pai, Rogério Valle, tenta acompanhar o pique do guri, de um ano e meio, enquanto a mãe, Vanessa Rosa, conversa com a reportagem. Correr atrás do menino é apenas uma das recompensas por um longo e doloroso processo em busca do sonho da paternidade.
Grávida pela primeira vez aos 27 anos, Vanessa enfrentou quatro abortos naturais em sete anos. Buscou médicos, fez exames, tentou métodos como a indução da ovulação, tudo em vão. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), um em cada cinco casais brasileiros vive o drama que Vanessa e Valle enfrentaram. Em 2010, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) já demonstrava o tamanho do problema, apontando que 8 milhões de casais brasileiros tinham algum tipo de infertilidade.
"Nos sentimos derrotados. A cada aborto, a frustração e o luto nos faziam mergulhar em uma enorme tristeza. Depois do último, decidi que não iria mais sofrer tentando manter uma gravidez naturalmente. Fomos em busca da reprodução assistida", revela Vanessa.
Dados da Rede Latino-Americana de Reprodução Assistida (Redlara) revelam que são feitos cerca de 450 ciclos de tratamento para infertilidade (fertilização in vitro e inseminação intrauterina) todo mês no Brasil. Estimativas da OMS revelam que os casais brasileiros com vida sexual ativa e sem uso de anticoncepcionais têm 20% de chance de engravidar naturalmente a cada mês. A infertilidade conjugal, porém, atinge de 15% a 20% dos casais em idade reprodutiva.
A notícia parece alarmante e desanimadora, especialmente para quem sonha em ter filhos, mas casais como Vanessa e Valle são a prova de que os avanços na área de reprodução humana são aliados poderosos. "A infertilidade, de um modo geral, tem solução. Existem muitas alternativas para ajudar os casais que não conseguem a gravidez naturalmente. É claro que essas alternativas dependem de uma série de fatores, mas esse problema já não é uma sentença de infelicidade. Existe esperança", afirma a ginecologista especialista em reprodução humana e professora da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), Mariangela Badalotti.
Na clínica de fertilidade, Vanessa descobriu uma pequena alteração cromossômica e uma tendência à trombofilia, o que, provavelmente, teria provocado os abortos anteriores - e provocaria outros, em caso de futuras gestações. Aos 37 anos, os especialistas consideraram arriscado tentar mais uma gravidez natural, mesmo tendo descoberto a provável origem da infertilidade. A fertilização in vitro foi o caminho escolhido. "Vendemos o carro para custear o tratamento e decidimos nos dar mais essa chance", relembra Valle.
Depois de uma primeira implantação de embriões mal sucedida, a segunda trouxe a notícia tão esperada. Vanessa, gravidíssima, chorava compulsivamente ao telefone, enquanto a médica lhe informava a contagem hormonal que comprovava a gestação e passava as instruções para os primeiros dias. "Noah é um bebê arco-íris, que é como se chamam os bebês que nascem depois de uma longa e sofrida luta dos pais. Se pudesse dar um conselho às mulheres que estão passando pelo que passei, diria para buscarem os recursos da medicina e a espiritualidade. Se houver um bebê arco-íris no caminho delas, ele vai chegar, mais cedo ou mais tarde", diz a mãe, enquanto seu pequeno corre e dá gargalhadas por entre as flores da praça.

ABC da Fertilidade

  • Inseminação intrauterina (artificial)
Técnica considerada de baixa complexidade, consiste na implantação do sêmen na cavidade uterina. É recomendada para alguns casos de ovulação irregular e também para homens que têm baixa contagem de esperma.
  • Fertilização in vitro
É o tratamento mais comum nas clínicas, com taxa de sucesso considerada alta em casos complexos de infertilidade. Consiste na retirada de óvulos da mulher e fecundação em laboratório. O embrião se desenvolve em ambiente controlado e, posteriormente, é implantado no útero. É o tratamento indicado para quem tem endometriose avançada, com repercussão nas trompas, lesões tubárias ou ausência de trompas, baixa contagem de óvulos ou problemas severos de infertilidade masculina.
  • Congelamento de óvulos
Também chamada de criopreservação, a técnica é cada vez mais procurada pelas mulheres que desejam adiar a maternidade. Com ela, os óvulos são preservados para serem utilizados depois, em procedimento de fertilização in vitro. A técnica também preserva a fertilidade de pacientes oncológicas que se submetem a pesados tratamentos de quimioterapia. Já existe ampla oferta para o congelamento de óvulos em Porto Alegre.
  • Doação compartilhada ou voluntária de óvulos
Muitas mulheres não conseguem sucesso com a fertilização in vitro em função do envelhecimento e morte de seus próprios óvulos - problema que aumenta com o avanço da idade. Para esses casos, a única solução é a doação de óvulos, técnica eticamente aceita no Brasil, apesar de não estar prevista na legislação. Consiste na retirada de óvulos de uma doadora, que serão fecundados em laboratório e implantados no útero da mulher que deseja engravidar. No Brasil, não há banco de óvulos, as doadoras voluntárias são escassas e a técnica ainda é pouco divulgada.
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