Porto Alegre, quarta-feira, 17 de outubro de 2018.

Jornal do Comércio

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Longevidade

Notícia da edição impressa de 18/10/2018. Alterada em 08/10 às 00h00min

Medicina atenta ao câncer e às doenças degenerativas

69,3% dos idosos brasileiros sofrem de pelo menos uma doença crônica

69,3% dos idosos brasileiros sofrem de pelo menos uma doença crônica


MARCELO G. RIBEIRO/JC
Em 2009, o Prêmio Nobel de Medicina foi entregue à bióloga norte-americana Elizabeth Blackburn, de 68 anos. A distinção veio graças aos seus estudos pioneiros sobre os telômeros.
Elizabeth compara os telômeros, uma estrutura presente nas extremidades dos nossos cromossomos, às pontas de um cadarço de sapato. O cadarço é o cromossomo, uma parte da célula na qual estão contidas informações genéticas. Pois os telômeros são essas pontas responsáveis por proteger nossos genes e, consequentemente, permitir a reprodução apropriada das células.
Ou seja, telômeros mais longos são um indicador de longevidade, uma vez que seu encurtamento está ligado ao envelhecimento e à maior exposição a doenças. Com as descobertas de Elizabeth, entre elas, a identificação da enzima que protege a ponta do cromossomo, os estudos da medicina sobre longevidade deram um salto. No livro O segredo está nos telômeros, publicado pela bióloga em parceria com a psicóloga Elissa Epel, as autoras apresentam pesquisas que mostram como hábitos e maneiras de encarar a vida impactam na integridade dos telômeros.
"Depois de 2009, saiu uma enxurrada de trabalhos científicos comparando telômeros mais longos e mais curtos. O que prolonga os telômeros é um estilo de vida adequado: prática de exercícios físicos, vida espiritual ativa, vidas familiar e profissional organizadas. Por outro lado, o que encurta o telômeros é uma dieta com produtos industrializados, sedentarismo, estresse, depressão, insegurança", explica o médico cardiologista Fernando Lucchese.
Já em 2018, os ganhadores do Prêmio Nobel de Medicina foram o norte-americano James P. Allison e o japônes Tasuku Honjo, pelo desenvolvimento de uma terapia contra o câncer. O método faz com que as células do organismo voltem a atacar tumores. Para o professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Gilberto Schwartsmann, a atenção da medicina ao câncer e a outras questões relativas ao envelhecimento são resultado do crescimento dos índices de longevidade . "As pessoas estão vivendo mais, e, consequentemente, o padrão de doenças está se modificando", afirma.
Conforme o Estudo Longitudinal de Saúde dos Idosos Brasileiros, publicado no início de outubro pelo Ministério da Saúde, 69,3% dos idosos brasileiros, ou seja, sete em cada 10, sofrem de, pelo menos, uma doença crônica. Os principais casos são de hipertensão, dores na coluna, artrite, depressão e diabetes. Nesse cenário, as doenças cardiovasculares, embora mais controladas, ainda são a causa prevalente de mortes no Brasil. Enquanto isso, os óbitos por câncer cresceram 31% no Brasil em 15 anos, entre 2000 e 2015, segundo a Organização Mundial da Saúde.
"Quanto mais tempo uma população vive, mais casos de câncer ela vai ter. Mas houve uma revolução no tratamento do câncer. A grande maioria dos tumores teve aumentos importantes nos índices de cura. Entretanto, ainda temos dificuldade para tratar doenças crônicas degenerativas no Brasil", pondera Schwartsmann.
Nesse sentido, um dos objetivos do País, segundo o vice-presidente da secção gaúcha da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, João Senger, é reforçar a prevenção de doenças por meios dos programas de saúde da família, evitando, por exemplo, que os idosos sejam deslocados até um hospital.
Formar médicos e cuidadores também é um desafio da medicina frente ao envelhecimento da população. "Logo, vamos ter o mesmo número de idosos que temos de crianças. Políticas públicas precisam ser feitas, pois são mudanças que vamos ter que nos preparar", afirma.

Blue Zones mostram importância de manter o cuidado com a alimentação

Dieta dos moradores de regiões com maior índice de população em idade avançada tem 95% de vegetais
Dieta dos moradores das Zonas Azuis é 95% composta por vegetais integrais
ELISE BOZZETTO/DIVULGAÇÃO/CIDADES

As Blue Zones, ou Zonas Azuis, ficaram famosas depois de um estudo do jornalista e explorador Dan Buettner, da revista National Geographic. Em uma busca dos segredos de uma vida mais longa e saudável, Buettner viajou pelo mundo e identificou cinco locais onde o percentual de pessoas que passam dos 100 anos chega a ser três vezes superior à média mundial: Sardenha, na Itália; as ilhas de Okinawa, no Japão; Loma Linda, no estado da Califórnia, nos Estados Unidos; a península de Nicoya, na Costa Rica; e Icária, na Grécia.

Em seguida, a pesquisa de Buettner deu origem ao Blue Zones Project, um projeto formado por médicos, antropólogos, demógrafos e epidemiologistas que tratou de identificar hábitos, comportamentos e formas de interação social comuns às cinco regiões. A análise desvendou nove características das Zonas Azuis passíveis de reprodução em outras partes do mundo e capazes de contribuir em 12 anos extras de vida, independentemente da localização geográfica.

Entre os segredos dessas regiões estão a prática moderada e constante de atividades físicas, ter propósitos de vida, fazer parte de um círculo social ativo, ter um tempo diário para relaxar e refletir, praticar algum tipo de fé ou espiritualidade e valorizar a convivência familiar. Entretanto, alguns hábitos alimentares ganham destaque. A dieta dos moradores das Zonas Azuis é 95% composta por vegetais integrais, como frutas, cereais, leguminosas, oleaginosas e sementes. Além disso, com exceção de Loma Linda, na Califórnia, todas as demais regiões bebem vinho de forma moderada, ou seja, cerca de uma ou duas taças por dia.

"Pouco consumo de açúcar e sal é comum em todas as Zonas Azuis, assim como baixo consumo de comida industrializada", destaca o médico cardiologista Fernando Lucchese. De acordo com ele, o azeite de oliva é um alimento bastante presente nessas regiões. Por outro lado, a carne vermelha costuma ser substituída por aves e peixes na alimentação. O Blue Zones Project trabalha, hoje, para difundir essas ideias promotoras da longevidade em outras regiões do mundo.

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