Porto Alegre, quarta-feira, 17 de outubro de 2018.

Jornal do Comércio

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Longevidade

Notícia da edição impressa de 18/10/2018. Alterada em 08/10 às 00h00min

Bem-estar requer socialização e atividades de estímulo ao cérebro

Atividades da Universidade Aberta da Terceira Idade comprovam que ser ativo é essencial para a qualidade de vida dos idosos

Atividades da Universidade Aberta da Terceira Idade comprovam que ser ativo é essencial para a qualidade de vida dos idosos


MARCO QUINTANA/JC
Aquela imagem do avô e da avó vestidos de pijamas, sentados no sofá, assistindo televisão passivamente e rodeados de cuidados acabou. Ser ativo é condição essencial para o desenvolvimento da qualidade de vida da população idosa. Idade não é mais impeditivo para correr, surfar, trabalhar e, principalmente, ter uma vida social. O Brasil, entretanto, ainda carece de políticas públicas voltadas à socialização da terceira idade.
"A rede social é uma proteção para o idoso: sair de casa, ter convívio social, poder ter trocas com as pessoas, discutir assuntos interessantes. Essa socialização mantém as pessoas ativas e fortalece o fator cognitivo", explica a coordenadora da Universidade Aberta para Pessoas Idosas (Unapi), professora Adriane Teixeira. Segundo ela, independentemente da idade, é importante trabalhar sobre a chamada "reserva cognitiva". "Estudos mostram que, se eu tiver educação continuada - por exemplo, quanto mais eu ler - mais qualidade de vida vou ter", completa.
A Unapi funciona, justamente, baseada nessas premissas. O projeto de extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) oferece projetos em áreas como teatro, canto, música, cultura brasileira e leitura, com duração de um ano. Além disso, acontecem, periodicamente, palestras e oficinas de desenho criativo, reflexologia, informática, entre outras. A essência de todas as atividades é colocar o idoso como parte ativa do processo. Eles decidem temáticas, propõem atividades e constroem conhecimento. Os grupos já publicaram livros e criaram e apresentaram peças de teatro.
Cerca de 155 pessoas participam de oficinas e palestras. O perfil é amplo, conta com idosos pós-graduados ou apenas com Ensino Fundamental completo, indivíduos de diversas faixas de renda e históricos de vida. A única preponderância é de gênero. São apenas cinco homens em um universo de 150 mulheres, sendo que a mais velha já completou 98 anos.
A professora de português e francês Isa Brenner, hoje aposentada, participa da Unapi há 10 anos. Ela foi responsável por criar um grupo de leitura. "Aqui, apresentamos, discutimos e debatemos. O aspecto mais importante é mexermos com a cabeça, não ficarmos passivos. Isso nos povoa de assuntos, e passamos a ser requisitados fora do grupo, por nossos filhos, nossos netos", conta.
Participante do grupo de teatro, a psicopedagoga aposentada Jussara Brum de Brito Sousa ressalta a importância da convivência com pessoas de diversas faixas etárias, do exercício físico que pratica há 23 anos e dos cuidados com a alimentação para manter a qualidade de vida. "Descobri que a minha razão de viver tem que ser eu mesma." No fim do mês, ela e as companheiras apresentam uma peça com a temática memórias, na qual são convidadas a repensar suas trajetórias de vida . A apresentação, aberta ao público acontece, no Centro Cultural da Ufrgs, no dia 29 de outubro.
Histórias como a de Jussara e Isa são exemplos do que o vice-presidente da secção gaúcha da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, João Senger, chama de "Revolução da Longevidade". "Trata-se de uma nova maneira de encarar o envelhecer. As pessoas com 60 anos fazem, hoje, coisas que as de 40 anos faziam há 50 anos atrás. Tem gente de 60 anos surfando, correndo maratona. É uma fase cada vez mais duradoura, em que as pessoas querem ser ativas e participar da sociedade", completa Senger.

Envelhecimento ativo é foco de projeto desenvolvido no Estado

Programa Maturidade Ativa envolve cerca de 7 mil gaúchos de mais de 60 cidades
Programa Maturidade Ativa trabalha com 77 grupos e envolve cerca de 7 mil idosos, em mais de 60 cidades gaúchas
BBC FOTOGRAFIA/DIVULGAÇÃO/JC

A Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza o envelhecimento ativo como uma oportunidade de saúde integral, participação e segurança, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida das pessoas na medida em que envelhecem. É baseado nesse conceito que o Serviço Social do Comércio (Sesc) desenvolve o Programa Maturidade Ativa. Atualmente, a iniciativa trabalha com 77 grupos, envolvendo cerca de 7 mil idosos, em mais de 60 cidades do Rio Grande do Sul.

Conforme a coordenadora do programa, Michele Bittencourt Silveira, é importante destacar a perspectiva do protagonismo do idoso nas atividades. "As ações desenvolvidas em nossos grupos têm como objetivo estimular o fortalecimento dos vínculos sociais e das trocas geracionais com vivências mais participativas e significativas, formando, assim, empreendedores sociais", afirma Michele.

Nesse sentido, os participantes são incentivados a desempenharem um papel central nas suas famílias e nas comunidades onde estão inseridos.

Entre as atividades desenvolvidas estão reuniões de continuidade, palestras e bate-papos educativos, passeios turísticos e eventos desportivos e de lazer, como torneios, caminhadas, mostras de dança e bailes temáticos.

As oficinas, por sua vez, buscam desenvolver potencialidades em assuntos ou áreas específicas: trabalhos manuais, contação de histórias, música, literatura, alongamento, culinária, entre outras.

Por fim, os idosos são envolvidos em campanhas sociais, quando, a partir do levantamento de necessidades locais, apoiam determinadas entidades arrecadando produtos e prestando serviços.

Com a acelerada transição demográfica e o consequente aumento da proporção de pessoas acima de 60 anos na população brasileira, o idoso deve ganhar uma nova importância na sociedade, segundo Michele.

Programas como o Sesc Maturidade Ativa, encaram o idoso como protagonista nesse processo ao estimular a construção de novos papéis sociais por meio de ações educativas.

"Com isso, o entendimento sobre a velhice perpassa o marcador da idade cronológica e remete à ideia de curso de vida trazendo um novo significado para o envelhecer", explica a coordenadora.

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