Porto Alegre, segunda-feira, 27 de agosto de 2018.
Dia do Psicólogo e do Corretor de Imóveis.

Jornal do Comércio

COMENTAR | CORRIGIR

Empreendedorismo

Notícia da edição impressa de 27/08/2018. Alterada em 26/08 às 00h00min

Mulheres dão nova cara ao mundo rural do Estado

Evento reuniu grupos de empreendedoras do agronegócio para debate na Casa JC na Expointer

Evento reuniu grupos de empreendedoras do agronegócio para debate na Casa JC na Expointer


MATHEUS PICCINI/ESPECIAL/JC
Ana Esteves
A lida com o gado na mangueira e as campereadas a cavalo são uma rotina para a administradora de empresas Fernanda Gehling, que deixou para trás a vida na cidade grande, onde trabalhava em empresas como Renner e Gerdau, para retornar ao campo e gerenciar propriedade da família, em Camaquã. Ela foi uma das palestrantes do bate-papo Mulheres do Agronegócio, histórias inspiradoras, realizado neste sábado, na Casa JC, que reuniu cinco mulheres cujo trabalho está focado no meio rural.
"Já trabalhei com moda, tecnologia da informação, recursos humanos e resolvi deixar tudo isso e ir para a fazenda, administrar a propriedade junto com meu pai: eu na área da pecuária e ele na lavoura", diz Fernanda. Ela representa a quarta geração de uma família de produtores rurais de Camaquã e a decisão de voltar ao campo se deveu à preocupação com a sucessão na propriedade. "Um dos grandes desafios é justamente mão de obra no campo e tenho trabalhado muito nisso. Fiz um guia de RH e uma revista interna para melhorar a comunicação entre os funcionários. Fazemos constantes reuniões de planejamento". Além disso, ela trabalha pesado na mangueira: "já castrei potro, terneiro, vacinei e sempre trabalho de igual para igual com os homens, o que ajuda a reduzir o preconceito". Desde 2016, Fernanda realiza um trabalho junto às escolas rurais, com palestras que motivam as crianças a estudarem sem perderem o foco no campo. Focamos na valorização do campo, pois as crianças estão com os pés no campo, mas a cabeça na cidade. Eles veem o agro como restrição e não como opção e queremos mudar isso".
Ao contrário de Fernanda, a bióloga e produtora rural Elizabeth Cirne-Lima concilia a vida na cidade, onde é coordenadora do laboratório de Embriologia e Diferenciação Celular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), com a lida no campo, administrando a Fazenda São Bento. "Sou meio camaleoa, parte do meu tempo fico fechada em um laboratório, com luz artificial, ambiente controlado que eu adoro, mas chega uma hora que eu preciso ir para o campo", diz. Elizabeth, que também é presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Devon (ABCD) e vice-presidente da Federação Brasileira dos Criadores de Animais de Raça (Febrac), diz que as meninas da nova geração do agro enfrentam bem menos dificuldades do que as mulheres da geração dela. "Vivemos numa época de com maior respeito maior e valorização das pessoas, independente de gênero." 
A produtora será uma das palestrantes do 3º Congresso Mulheres do Agronegócio, que acontece em outubro, em São Paulo. No evento, Elizabeth discutirá a participação da mulher no agro em 2030. "Parece que falta muito, mas está logo ali e temos que estar preparadas para um cenário em que o avanço tecnológico é muito veloz, tendendo a reduzir o número de empregos. É preciso estudar e se preparar, cada vez mais."

Formação de mão de obra está entre os principais desafios para as empreendedoras do campo

Camila de Lara destacou que recurso mais precioso são os colaboradores
Camila de Lara destacou que recurso mais precioso são os colaboradores
/MATHEUS PICCINI/ESPECIAL/JC

A capacitação é o foco do trabalho da advogada e produtora rural, Camila de Lara, que há três anos decidiu administrar a propriedade da família, localizada em Cachoeira do Sul. Segundo ela, o grande desafio é a formação de mão de obra. "Nosso recurso mais precioso são as pessoas e temos trabalho no incentivo dos colaboradores com treinamentos que envolvem desde medicina e segurança do trabalho, até operação de máquinas agrícolas, uso correto de equipamentos de segurança individual e também de computadores."

Além disso, são feitas reuniões para conversar com os funcionários para que possam trazer as considerações deles sobre as condições de trabalho. São realizadas rodas de conversa, de quatro em quatro meses, para que eles falem como está o relacionamento com os colegas, as acomodações, a comida, a relação com chefia. "Já estamos obtendo retorno, pois os funcionários se sentem parte do processo produtivo e se sentem mais valorizados."

Para a relações públicas e produtora rural Camila Telles um dos grandes desafios do trabalho no campo é justamente o de se comunicar, seja entre produtores e funcionários ou entre produtores e consumidores. "Muitas pessoas não sabem como o agro funciona e cabe a nós mostrar." Depois de algum tempo trabalhando em veículo de comunicação, Camila decidiu mudar de vida e voltar para a propriedade da família, em Cruz Alta, a qual hoje administra junto com a mãe. Ela criou a Hortaria, uma empresa que vende verduras e hortaliças hidropônicas e orgânicas, através de um aplicativo, e as entrega na casa dos consumidores. "Estamos implantando um sistema em que o consumidor vai à propriedade e colhe seus alimentos, como forma de eles conhecerem melhor a vida no campo para que o valorize cada vez mais."

Essa aproximação da vida do campo com a cidade também tem norteado o trabalho da publicitária Clarice Chwartzmann que lançou o projeto A Churrasqueira que oferece cursos de churrasco para mulheres. A ideia vai além de simplesmente fazer um churrasco, pois ela busca a questão da ancestralidade com o campo, da relação com o fogo, de uma coisa que as pessoas da cidade abandonaram, de uma "volta poética aos pátios das casas", diz. Hoje, ela contabiliza mais de duas mil alunas, que foram "tiradas do fogão e apresentadas para a churrasqueira".

COMENTAR | CORRIGIR
Comentários
Seja o primeiro a comentar esta notícia