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Proteína Animal

Notícia da edição impressa de 24/08/2018. Alterada em 23/08 às 00h00min

Embargos e queda no consumo desafiam a pecuária gaúcha

Apesar dos entraves ao produto brasileiro, a boa notícia é que a exportação de carne pelo Rio Grande do Sul voltou a ganhar terreno, com alta de 47,6% de janeiro a julho

Apesar dos entraves ao produto brasileiro, a boa notícia é que a exportação de carne pelo Rio Grande do Sul voltou a ganhar terreno, com alta de 47,6% de janeiro a julho


/FABIO MEDEIROS/DIVULGAÇÃO/JC
Guilherme Daroit
Altamente dependente do mercado interno brasileiro, a pecuária gaúcha vive, novamente, um período de crise. Não bastasse a ainda problemática questão do emprego e renda no País - atualmente com 13 milhões de desempregados, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) -, embargos à proteína brasileira em diversos países, em especial a barreira russa à carne suína, fazem inundar o mercado nacional e jogam para baixo os preços pagos aos criadores.
No caso específico dos bovinos, é notória a queda. Segundo a Emater-RS, na semana passada o preço médio pago aos produtores gaúchos pelo quilo do boi para abate não passava de R$ 4,85, queda de praticamente 10% sobre os R$ 5,38 pagos há exatamente um ano. "No momento, estamos em crise, como tudo nesse País, com os preços andando de lado, piores do que há dois anos", comenta o presidente da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Gedeão Pereira.
Mesmo com embargos à carne bovina brasileira, de países como Rússia e Estados Unidos, a boa notícia é que, em 2018, a venda da proteína ao exterior tem recuperado terreno. Segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic) compilados pela Federação das Indústrias do Estado (Fiergs), de janeiro a julho a exportação de carne bovina in natura rendeu US$ 58 milhões ao Rio Grande do Sul, aumento de 47,6% sobre o mesmo período de 2017. Isso, porém, não afeta o achatamento dos preços pagos ao produtor, segundo o presidente da Farsul.
O principal motivo é a pouca representatividade das exportações no total da venda. "A exportação ainda é pequena. Faz diferença sim, dá um fôlego às indústrias que podem exportar, mas não é significativo", comenta o presidente do Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados no Estado (Sicadergs), Ronei Lauxen. O dirigente argumenta ainda que a própria rentabilidade dos frigoríficos sofre neste ano, não apenas pelos preços de venda em queda, mas também pelo aumento dos custos, em especial com o frete.
Além disso, o principal subproduto do abate, o couro, que poderia minimizar o problema, apenas o potencializa. "Nos afeta muito a desvalorização do couro em nível mundial", afirma Lauxen. Os frigoríficos estariam operando com preços a um terço do que recebiam há quatro anos, segundo o dirigente, afetando ainda mais a rentabilidade da indústria que, com isso, repassa a situação também aos produtores.
Sem a recuperação do poder de compra dos brasileiros, então, é difícil imaginar uma melhora substancial na cadeia bovina, desafiada pela deterioração do quadro de empregos do País desde o início da crise econômica, em 2014. O longo período de dificuldades faria com que a manutenção da indústria, mais do que preocupante, já estaria "beirando a mágica", de acordo com Lauxen.
Para o Rio Grande do Sul em específico, entretanto, um alento segue sendo a maior qualidade do plantel em relação aos rebanhos de outras regiões do País, por conta da criação, aqui, de raças britânicas. "Com toda a crise, a nossa carne ainda vale mais. O consumidor percebe a diferença de qualidade, e tem se apostado nisso", comenta o presidente da Farsul.
Uma das principais raças britânicas, a Angus, por exemplo, afirma ter aumentado 15% em volume das vendas de carne dentro de seu programa de certificação no primeiro semestre, historicamente pior do que o segundo.
Segundo o presidente da Associação Brasileira de Angus (ABA), José Roberto Pires Weber, isso acontece mesmo mantendo o nível de abates em torno de 500 mil animais/ano. "Passamos a focar não mais apenas na carne gourmet, para churrasco, mas também em outros cortes que antes eram desprezados", comenta Weber. Isso tem facilitado a negociação com os frigoríficos mesmo em meio à crise, que pagam prêmios de cerca de 10% sobre o valor para os criadores que participam do programa de certificação.
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