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Saúde

- Publicada em 15/10/2021 às 18h57min.

Imunização estimula retorno a consultórios médicos

Detiana fez check-up mês passado e agendou horário para a mãe

Detiana fez check-up mês passado e agendou horário para a mãe


/TIO GU FOTOGRAFIA/DIVULGAÇÃO/JC
Karen Viscardi, especial para o JC
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A servidora pública federal Detiana Pereira Custódio costumava fazer com frequência seus exames periódicos até 2020. "Sem nenhuma queixa ou sintoma, deixei para fazer o checkup no mês passado, depois de vacinada com as duas doses", detalha. O receio não era somente com o risco de se contaminar, mas de transmitir para a família. Casada, mãe de três meninos e morando com a mãe, decidiu se resguardar.
Após retornar ao médico para uma consulta presencial em setembro deste ano, fez os exames de rotina, com resultado um pouco acima do limite apenas para colesterol. Mais confiante a partir da imunização, agendou horário para a mãe, que se queixa de dor no joelho e estava postergando a ida ao traumatologista. "Este ano, estou mais tranquila. Estava com muito medo, agora mês passado voltei a fazer academia", conta.
Assim como muitos deixaram de buscar atendimento médico, outros, apesar do medo, tiveram necessidade de agendar consulta. As angústias, a solidão ou mesmo a negação fazem parte dos relatos dos pacientes que buscaram atendimento de saúde. A situação não é exclusiva de pessoas acometidas por Covid, e desafia os médicos a ouvirem além das queixas cotidianas dentro dos consultórios.
"Como médicos, temos de respeitar muito nosso paciente. Independente da especialidade, nosso papel também é escutar essas pessoas e oferecer algum conforto. Muitas das consultas no ano passado foram quase um desabafo", relata o oftalmologista Cristiano Leite. Enquanto algumas mostram certo pânico por causa do coronavírus, outras, ao contrário, tiram a máscara no consultório sem necessidade. Nos dois casos, o caminho é a conversa. "Estamos aqui também para ajudá-las a se protegerem, inclusive explicar que podem ficar de máscara", afirma Leite.
O desconhecido não atingiu somente pacientes. Médicos e equipes que atuam na área da saúde também sofreram com a doença. "Todos ficamos mais ansiosos no início, e não podíamos deixar que isso atrapalhasse nossa visão técnica. Até para tranquilizar alguns pacientes que chegavam com um nível de ansiedade maior", explica o cirurgião plástico Giuliano Borille, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica - Regional do Rio Grande do Sul.
A dermatologista Analupe Webber, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia do Rio Grande do Sul, relata que as pessoas se sentem mais seguras no consultório do que no hospital, mas algumas ainda têm receio de tirar a máscara para ser examinado. "Procuramos mostrar que adotamos todos os protocolos. Usamos Equipamento de proteção individual (EPI), deixamos as janelas abertas e cuidamos da limpeza do consultório. Como precisamos chegar muito perto do paciente para examinar, temos de nos proteger e protegê-lo", observa a médica.

Isolamento adiou tratamentos na pandemia; hospitais devem organizar mutirões

"O ano de 2020 foi muito complicado para médicos e pacientes. Os idosos eram grupo de maior risco de mortalidade. Com isso, muitos ficaram e outros continuam confinados. A situação tem impactos não só do ponto de vista físico, mas emocional, com crise de ansiedade", explica o geriatra Vitor Pelegrim, que é mestre em cardiologia e faz doutorado em endocrinologia, ambos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).

Nesta faixa de idade, grande parte dos que eram ativos em tempos normais, passaram a ser sedentários. Com mais dificuldade para se movimentar, muitos tiveram perda de massa muscular e de capacidade física. Hoje, o que se observa nos consultórios de geriatria é uma fase de reabilitação dos que ficaram parados e que voltaram a se exercitar e a comer melhor.

"As pessoas vão ter de se recuperar desse período de confinamento, que traz muitos prejuízos para os idosos do ponto de vista funcional. É importante, o quanto antes, retomarem as atividades. Somente agora vamos conseguir enxergar o quanto ficou de sequela e reabilitar para voltar aos patamares de antes", diz Pelegrim.

O impacto na saúde física e mental da população, não apenas para os idosos, ainda é uma incógnita e suas consequências só serão conhecidas com o tempo. Gabriela Donadel, professora de Língua Portuguesa da rede privada de Porto Alegre, e mãe do Calvin, buscou atendimento de emergência ao sentir desconforto nos batimentos cardíacos em agosto de 2020.

O médico informou Gabriela que o resultado indicava início de infarto. Após detectar alteração, foi solicitado um exame mais detalhado, que demoraria o dia inteiro. "Até hoje não fui fazer. Antes, por medo de me expor ao ambiente hospitalar. Hoje, por falta de tempo e um pouco de medo ainda. Fomos a clínicas médicas, mas evitei hospital o máximo que pude. Voltei à emergência por conta de um machucado no pé do Calvin, apenas. Quanto a questões médicas, estou com as consultas em dia, mas o Calvin só levo quando precisa. E ele se manteve bem, quase não ficou doente neste período", revela Gabriela.

O receio do ambiente hospitalar é comum e pode acarretar agravamento de outras doenças mais graves, como câncer, por exemplo. Somente com a retomada da normalidade, será possível descobrir quais enfermidades poderiam ter sido detectadas durante a pandemia e que tiveram seu diagnóstico postergado.

Para se ter uma ideia do que ficou para trás em termos de prevenção e diagnóstico, entre março de 2020 e junho de 2021, mais de 7 mil consultas oncológicas deixaram de ser realizadas por hospitais pelo Sistema Único de Saúde no Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre, foram disponibilizadas 3.667 consultas a menos do que o necessário. No interior, esse número foi de 3.457.

As subespecialidades de oncologia com maior diminuição de oferta nos últimos meses na Capital foram ginecologia, neurocirurgia, oncopediatria e urologia. A menor oferta levou a Secretaria da Saúde (SES) a estabelecer em setembro uma meta de zerar em até seis meses as filas de espera para primeira consulta oncológica em todo o Rio Grande do Sul. Para isso, os hospitais devem organizar mutirões.

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