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Consumo

Notícia da edição impressa de 16/07/2018. Alterada em 15/07 às 21h34min

Pesquisa aponta que pessimismo convive com desejo de empreender

Hábito de fazer compras usando o celular cresceu entre os porto-alegrenses

Hábito de fazer compras usando o celular cresceu entre os porto-alegrenses


ARTE THIAGO MACHADO SOBRE FOTO DE MARCO QUINTANA/JC
A longa crise econômica, cujas consequências ainda são sentidas por todos os setores, especialmente o varejo, também tem deixado suas marcas no estilo de ser e consumir dos porto-alegrenses. É o que mostra a 10ª edição da pesquisa "Os Porto-alegrenses e o Consumo", desenvolvida pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-Sul) com exclusividade para o Jornal do Comércio.
Duas das conclusões mais curiosas do estudo são, ao mesmo tempo, antagônicas e complementares. Enquanto 79% dos entrevistados acreditam que o futuro do País irá se manter igual ou piorar, 19% declararam ter intenção de investir em um negócio próprio nos próximos dois anos - ao primeiro olhar, 19% pode parecer um percentual acanhado, mas basta observar o número do ano passado, 6%, para se perceber a importância do crescimento deste indicador. Também caiu significativamente o índice de pessoas que declararam não ter condições de investir em nada: em 2017, correspondiam a 42% dos entrevistados; neste ano, são apenas 25%.
Do total de entrevistados, 44% estão dispostos a fazer investimentos conservadores, como poupança e imóveis. O percentual é pouco inferior ao do ano passado, quando 52% dos consumidores enxergavam os imóveis e a poupança como aplicações vantajosas. "Esses dados revelam que o porto-alegrense ainda está pessimista, mas tem um grande desejo de mudança. Os investimentos que faz ainda são conservadores, e o seu ânimo na melhora da economia é baixo, mas ele vê possibilidade de mudança nos próximos dois anos. O destaque é o caminho do empreendedorismo para concretizar essa mudança", comenta a professora e pesquisadora da ESPM-Sul, Liliane Rohde.
Outro aspecto que chamou a atenção na pesquisa foi o aumento importante no percentual das classes D e E, além de um discreto crescimento da representatividade da classe C nas ruas da Capital. Entre a classe C, por exemplo, o percentual era de 40% no ano passado, contra 44,5% em 2018. Já as classes D e E tiveram o aumento percentual mais destacado: em 2017, eram 1% dos entrevistados; agora, são 7%. "Podemos ler essas informações sobre classe social como um reflexo da situação econômica do País, que vem achatando as classes B e C, e aumentando o contingente nas faixas de renda mais baixas. O alto desemprego e a informalidade são fatores que interferem nesse índice", salienta Liliane. Na outra ponta, as classes A e B apareceram encolhidas nesse levantamento: a classe A passou de 10% para 8,5% dos entrevistados; já a B caiu de 49% para 40%. Ainda segundo a professora, esses percentuais também refletem o afastamento das pessoas de classe mais alta do comércio de rua. "Por questões de segurança, elas procuram os shoppings e até mesmo a internet para as compras", acrescenta.
Recolhidos durante o mês de maio a partir de 401 entrevistas, os dados refletem o perfil das pessoas abordadas em locais públicos de Porto Alegre, zonas de intensa concentração de comércio de rua, como o Centro, a avenida Assis Brasil, o bairro Tristeza, a Avenida da Azenha e a região do Parcão. A distribuição por sexo seguiu a proporção média da população da cidade, com 53% de mulheres e 47% de homens entrevistados. Um destaque no perfil de quem respondeu à pesquisa foi a idade média, que aumentou. Para se ter uma ideia, 53% têm entre 26 e 45 anos - na pesquisa do ano passado, 46% dos respondentes estavam nessa faixa etária. Entre os entrevistados, 63% têm filhos nesta edição do levantamento - em 2017, 56% eram pais ou mães.
Além das perguntas, a pesquisa também elaborou perfis dos consumidores a partir de afirmações relacionadas aos hábitos de vida e às preferências de cada um. É uma espécie de arquétipo de quatro tipos de consumidores, que revela, em parte, o perfil ideológico e de costumes da população de Porto Alegre.

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A pesquisa na íntegra

Compras on-line são realidade entre os porto-alegrenses

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Desde a pesquisa do ano passado, o percentual de consumidores que compra pela internet regularmente se manteve semelhante - o que representa uma estabilização, ou seja, uma consolidação do percentual, sem crescimento ou queda significativos. Em 2017, 46% dos porto-alegrenses comprava produtos on-line às vezes. Em 2018, são 48%. Os que declararam comprar sempre pela rede caíram de 24% para 22%, o que, segundo a professora Liliane Rodhe, está dentro da margem de erro. Tanto em 2017 como em 2018, 30% declararam nunca adquirir nada pela internet.
Dentre os dispositivos de compra pela internet, o celular é o que mais cresce. De acordo com pesquisa da consultoria internacional PwC, o número de pessoas que compram on-line ao menos uma vez por mês saltou de 58% para 65% desde 2014. Segundo o mesmo levantamento, 41% dos brasileiros compraram produtos via smartphone. Por aqui, os números são um pouco diferentes. A pesquisa da ESPM-Sul aponta que 53% dos porto-alegrenses nunca fazem compras pelo celular. Os que declararam comprar às vezes ou sempre somam 47%. "Apesar do percentual de pessoas que nunca compraram pelo celular ser alto, observei com surpresa o grande número de usuários que já o fizeram. São 47% dos consumidores inseridos no universo das compras via mobile. Isso é um indicativo importante para as marcas", alerta a professora.
Dentre os serviços via aplicativo mais utilizados pelos usuários, outra revelação curiosa: 87% não possui banco somente on-line, 31% usam aplicativos para entretenimento e 55% utiliza os apps para transporte pessoal. "Mesmo quem não utiliza os serviços de banco ou faz compras pela internet, está conectado ao mundo virtual pelos aplicativos", salienta Liliane.

Manter e até aumentar nível de consumo é tendência

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Consumir mais ou, ao menos, manter as compras. Esse é o desejo do porto-alegrense, de acordo com o levantamento da ESPM-Sul. A pesquisa mostra que 51% dos entrevistados deseja manter o nível de consumo - no ano passado, esse indicador apontou 61%. O mais interessante, no entanto, é um dado tímido, mas que revela otimismo. "Temos 10% dos consumidores que querem aumentar as suas compras a partir de agora. Em 2017, tivemos apenas 4%, o que nos dá um percentual que supera a margem de erro de cinco pontos. Isso revela uma possível recuperação, ainda que lenta, e também a demanda reprimida no consumo", explica a Liliane Rodhe.
Os dados sobre as compras realizadas confirmam esse indicador. No setor de vestuário, por exemplo, a pesquisa revelou que 28% declararam comprar roupa mensalmente ou a cada dois meses - em 2017, esse percentual era de 23%. A metade dos entrevistados costuma comprar eletrodomésticos pelo menos uma vez por ano em 2018, contra 37% no levantamento anterior. Os automóveis apresentaram o pior desempenho, com 54% dos respondentes declarando que não os compra. "Esse é um reflexo do aumento das classes D e E, que não têm acesso a bens de consumo como o carro", destaca Liliane.
Até mesmo atividades de lazer como jantar fora foram medidas pela pesquisa, com revelações conflitantes. Quem frequenta restaurantes à noite pelo menos uma vez por semana passou de 26% para 29%. Por outro lado, quem afirmou não jantar fora subiu de 6% para 14% - outro reflexo do aumento da presença das classes mais baixas no universo do consumo em Porto Alegre.

Lojas de rua ganham preferência para compras

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Busca por preços mais convidativos e presença das classes mais baixas no universo da pesquisa são as duas possíveis causas para a preferência do porto-alegrense pelo comércio de rua em detrimento dos shopping centers. Em praticamente todas as opções de compra, os entrevistados apontaram as lojas de rua como a sua escolha. Somente no item alimentação os hiper e supermercados dispararam, com 89% da preferência dos consumidores. Um dado complementar a essa realidade é a queda na visita aos shopping centers, também apontada no levantamento: 31% frequentam toda semana ou quinzenalmente; 23% vão ao shopping apenas uma vez por mês e 11% simplesmente não vão.

Quem são os consumidores de Porto Alegre

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Traçar os perfis de quem está nas ruas, comprando os produtos e serviços que o comércio da capital gaúcha oferece. Esse foi o objetivo da etapa final da pesquisa, que delineou quatro arquétipos para definir quem é, afinal, o consumidor que faz girar a economia de Porto Alegre.
Para esse desafio, os pesquisadores confrontaram os entrevistados com 17 afirmações sobre variadas questões, para que dissessem se concordam ou não com elas.
Os resultados apontaram quatro grupos distintos, com crenças, objetivos, rotinas e comportamentos diferentes. “De um modo geral, podemos dizer que nosso consumidor é moralmente conservador, que olha para o futuro do País com bastante ceticismo, mas que acredita em algumas mudanças e avanços”, salienta a coordenadora da pesquisa, professora Liliane Rohde.

Leia também:

Os quatro perfis de consumidores

Serviços blindados contra a crise

Pouco dinheiro, pode ser. Descuidado, nunca. É esse o recado que o consumidor porto-alegrense passa quando a pesquisa toca no setor de serviços. Os salões de beleza e barbearias parecem blindados contra os solavancos da economia, já que 36% dos entrevistados informaram visitar esses estabelecimentos mensalmente. Há quem vá toda a semana dar um retoque no visual, 10% do total, e também os que vão eventualmente, 19%. Claro que tem gente que não vai nunca, mas esses são poucos: apenas 15%. "Isso demonstra a força do mercado da beleza, que, mesmo com a crise, não deixou de figurar entre as preferências do consumidor. Esses percentuais revelam que as classes D e E também frequentam esses locais", ressalta a professora Liliane Rohde.

Já outros serviços não tiveram o desempenho tão positivo. Um exemplo de negócio que não decola são as lavanderias, em que 76% dos entrevistados afirmaram não pôr os pés. Apenas 13% vão eventualmente. O desempenho das academias também decepciona, já que 73% dos consumidores afirmam não frequentar. "Esse percentual pode ser reflexo da maior presença das classes C, D e E no corpo da pesquisa", alerta Liliane.

Quem também surpreendeu foram as lotéricas, frequentadas, pelo menos uma vez por mês, por 68% dos entrevistados. Pagar as contas e fazer uma fé são os atrativos desses postos imunes ao desânimo da economia.

Investimentos em poupança revelam conservadorismo

Reservar recursos para investimento ou simplesmente para um fundo de segurança, em momento complicado da economia, tomou o rumo do conservadorismo. É o que mostra o levantamento da ESPM, segundo o qual 37% dos entrevistados investem seus recursos na poupança. Em 2017, esse percentual era de 28%. Fundos de investimentos e ações na bolsa, que representavam 3% e 2%, passaram a figurar em apenas 1% das opções cada, de acordo com a pesquisa. Mesmo assim, o dado que mais chama a atenção nessa parte da pesquisa é o percentual de consumidores que se declara sem intenção de investir em nada: era de 50% em 2017, e, agora, é de 53%.

Comércio farmacêutico resiste

O comércio farmacêutico, que registrou crescimento de mais de 12% no ano passado, em 2018, também deve ter aumento acima da média da economia. O bom desempenho se confirma nos hábitos de consumo dos porto-alegrenses. Segundo o levantamento da ESPM-Sul, 57% da população compra remédios pelo menos uma vez por mês. Somente 10% afirmaram não comprar remédios, e 33% disseram adquirir os produtos eventualmente.

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