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Inflação

- Publicada em 28/09/2021 às 17h16min.

Reajustes de preços impactam no orçamento da maioria dos brasileiros

Sem recursos para comprar gás de cozinha, população carente troca o botijão pelo fogão a lenha

Sem recursos para comprar gás de cozinha, população carente troca o botijão pelo fogão a lenha


MARCELO G. RIBEIRO/JC
Adriana Lampert
A queda da renda das famílias e o aumento do desemprego gerados pela crise vinculada à pandemia de Covid-19 no País têm levado os brasileiros a enfrentarem com maior dificuldade a alta de preços de produtos e serviços essenciais. E a pressão inflacionária é maior nas classes de rendas mais baixas. 
A queda da renda das famílias e o aumento do desemprego gerados pela crise vinculada à pandemia de Covid-19 no País têm levado os brasileiros a enfrentarem com maior dificuldade a alta de preços de produtos e serviços essenciais. E a pressão inflacionária é maior nas classes de rendas mais baixas. 
"O poder de compra do salário-mínimo em relação à cesta básica é o pior dos últimos 15 anos", destaca a economista do Dieese/RS, Daniela Santi. Segundo ela, quem vive com até dois salários-mínimos "nem de longe" conseguem acompanhar a alta dos preços. "A perda do poder de compra é enorme e causou uma piora nas condições de vida da maior parte da população", alerta.
Com o orçamento cada vez mais apertado, as famílias mais pobres estão tendo que parar de consumir alguns itens não só da alimentação, mas também de uso doméstico, destaca a economista e pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Maria Andréia Parente Lameiras. Ela lembra que alta da inflação que começou em 2020 puxada pelos alimentos da cesta básica, no início da pandemia, hoje é impulsionada pela crise hídrica, que encarece a energia elétrica.
"Locais que oferecem serviços cujo custo de luz encareceu, como os salões de beleza e os supermercados, passaram a repassar esse aumento da conta para o consumidor", observa a economista do Ipea. Segundo  levantamento realizado pelo Instituto em agosto, enquanto a inflação das famílias de renda muito baixa e de renda baixa apontou altas de 0,91%, a das famílias de classe superior apresentou variação mais amena (0,78%). Desde janeiro, os núcleos de pessoas de renda baixa e média-baixa são os que apresentam as maiores taxas de inflação (5,9%). Já no acumulado em 12 meses, a inflação das famílias de renda muito baixa (10,6%) segue acima da registrada pela classe de renda alta (8%).
"A classe de renda mais baixa, que é muito afetada pela alta no valor da energia elétrica, também é impactada pelo preço do gás de cozinha, a ponto de muita gente estar utilizando fogão a lenha", observa Maria Andréia. A economista afirma que estas são as mesmas pessoas que já deixaram de consumir proteína, eliminando carnes vermelha ou branca e ovos do cardápio alimentar. "Além de trocar o botijão de gás pela lenha por falta de recursos, muita gente está precisando substituir o jantar por um lanche, que muitas vezes não tem o valor nutricional necessário", pontua.
Segundo o IBGE, o gás de cozinha encerrou 2020 com alta de 9,2%. Isso representa mais que o dobro da inflação de 4,5% pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrada no ano passado. Já os números do Dieese/RS apontam que o botijão de 13kg registrou alta de 26,9% de agosto de 2020 para agosto de 2021. Quando a conta chega na classe média, ainda há os gastos com aluguel, condomínio, mensalidade escolar, plano de saúde, e serviços de comunicação, que, inflacionados, também pesam no orçamento.
Este peso, que começou centrado nos alimentos, passou para a conta de luz e de combustível e hoje está espalhado em vários segmentos não foi acompanhado do reajuste de salários. "Ao contrário das mais pobres, no caso da classe média, as famílias não chegam a cortar itens essenciais, mas passam a consumir marcas, produtos e serviços mais baratos, cortando apenas o que for supérfluo", compara Maria Andréia. "Já a classe alta não chega a sentir o impacto da inflação."
Levantamento do Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas (Iepe) da Ufrgs, aponta que o Índice de Preços ao Consumidor - pesquisado semanal e mensalmente tendo como base as despesas de 565 famílias da Região Metropolitana de Porto Alegre apresentou no mês de agosto uma variação de 1,09%, influenciado expressivamente pelos produtos de alimentação. Nos últimos doze meses, o valor acumulado do índice é de 11,50%, enquanto que o acumulado no ano chega a 8,65%.
Ainda de acordo com o levantamento, em agosto de 2021 o reajuste da energia elétrica foi de 4,96%, respondendo por 13,86% da inflação, a previsão para setembro de 2021 é de que o reajuste na conta da luz seja superior ao verificado em agosto. Puxado pelo aumento da energia elétrica, o IPCA-15 ficou em 0,89% em agosto, segundo o IBGE. Esse resultado é o maior para o mês desde 2002, quando atingiu 1%. No ano, o indicador acumula alta de 5,81% e nos últimos 12 meses chega a 9,30%.

Frete e fator climático interferem no custo dos produtos

Com alto impacto nos custos, motoristas e entregadores de aplicativos seguem trabalhando sem reajustar o valor das viagens
Com alto impacto nos custos, motoristas e entregadores de aplicativos seguem trabalhando sem reajustar o valor das viagens
PATRICIA COMUNELLO/ESPECIAL/JC
O atual aumento de preços disseminado entre os mais diversos setores da economia brasileira está vinculado principalmente à elevação do valor do combustível, uma vez que o frete de tudo que circula no País é repassado para o consumidor. "A alta constante dos preços dos combustíveis, reflexo da política de Preço de Paridade de Importação (PPI), adotada pela gestão da Petrobrás, continua a pressionar a inflação", destaca o economista Cloviomar Cararine, da subseção do Dieese da FUP. Segundo ele, as expectativas são de permanência ou alta dos preços nos próximos meses, refletindo impactos da PPI.
No acumulado do ano até agosto, o preço da gasolina avançou 31,09%, enquanto o do diesel acumula alta de 28,02%, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Isso interfere nos negócios antes de chegar às residências dos brasileiros em forma de produtos e serviços mais caros. De acordo com a 12ª edição da Pesquisa de Impacto da Pandemia nos Pequenos Negócios, realizada pelo Sebrae em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), A alta no preço das mercadorias e os sucessivos aumentos nos combustíveis têm sido os fatores que mais têm pressionado os custos das pequenas empresas.
O presidente do Sebrae, Carlos Melles, destaca que os gastos com insumos, mercadorias e combustíveis foram citados como os que mais impactam os negócios por 63% dos microempreendedores individuais (MEI) e por 61% das micro e pequenas empresas. "Se somar a esses números as despesas com gás e energia elétrica, eles sobem para 76% para os MEI e 77% para as MPE". Custos com aluguel foram citados por 13% dos MEI e por 15% das MPE.
Quando analisados por porte da empresa e setores, a alta dos preços das mercadorias e combustíveis exercem pesos diferentes. Apesar dos dois itens seguirem o mesmo grau de importância entre os microempreendedores individuais (MEI) e as micro e pequenas empresas, o preço dos insumos têm um impacto maior nas MPE (39%) do que entre os MEI (35%), e o preço dos combustíveis pesa mais nos microempreendedores individuais (28%) do que nas micro e pequenas (22%).
Esse resultado é reflexo de muitas atividades que existem mais em determinados portes e perfis, como por exemplo motoristas e entregadores de aplicativos, que são na maioria das vezes microempreendedores individuais, homens e que dependem do combustível para trabalhar. Mas, ao contrário da maioria dos produtos e serviços, esta conta ainda não está sendo repassada para os usuários. Conforme o IBGE, os preços das viagens realizadas por carros que trabalham através de aplicativos não aumentou. Pelo contrário: estão 14,34% menores no acumulado do ano se for considerado o cenário nacional, e 24,08% mais baratos em Porto Alegre.
Por outro lado, a Capital gaúcha viu crescer em 5,49% o preço das passagens dos ônibus urbanos e em 3,46% as dos ônibus intermunicipais. Atualmente custando R$ 4,70, a tarifa de ônibus de Porto Alegre é a mais cara entre as capitais do Brasil. Em nível nacional, a variação de preços desde janeiro deste ano foi de 1,25% para os veículos urbanos e 1,02% para os intermunicipais. 

Setor de aluguéis muda base de cálculo para conter aumento dos preços

Schukster afirma que preços devem subir a partir de março
Schukster afirma que preços devem subir a partir de março
JONATHAN HECKLER/arquivo/JC
Afora a dificuldade para manter o padrão na alimentação, nos serviços básicos e no uso de transportes públicos, também há, entre a maioria dos brasileiros, a preocupação com o preço do aluguel e do condomínio. Conforme o IBGE, no País a variação dos reajustes para locação de imóveis residenciais entre janeiro e agosto está em 3,43% enquanto a dos preços dos condomínios ficou em 2,62%. Em Porto Alegre, o índice para aluguel é maior (4,03%), mas, em compensação, fica abaixo da média nacional quando se trata do reajuste dos condomínios (1,23%). 
Na Capital gaúcha, a variação no acumulado de 12 meses (de setembro de 2020 a agosto de 2021) para o preço das locações de imóveis residenciais é ainda maior: 8,92%, enquanto a do preço médio por metro quadrado para o mesmo produto está em 9,62%. Segundo o presidente do Secovi/RS, Moacyr Schukster, este patamar é baixo se for considerada a referência de 31,12% (em agosto) para o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), que "sempre foi o indexador de aluguéis". 
"Devido às oscilações do dólar, este índice aumentou muito e as locações atreladas ao IGP-M ficaram caras demais", comenta Schukster, explicando que o mercado optou por manter os valores de acordo com o IPCA. Ou seja: foi preciso mudar a base de cálculo para conter o aumento dos preços dos aluguéis em plena pandemia de Covid-19. 
"O setor de locações sofreu bastante com a elevada devolução de imóveis, especialmente na área comercial, no período de isolamento social, quando muitos negócios foram encerrados, e a maioria dos profissionais liberais começou a trabalhar em casa", observa o dirigente.
Ainda de acordo com Schukster, a variação no preço médio de metro quadrado dos imóveis comerciais no acumulado do ano foi de 10,77%. Ele pontua que, comparado à alta de preços de outros produtos e serviços, os reajustes dos aluguéis estão em patamares baixos - e destaca o esforço das imobiliárias para que as negociações entre proprietários e inquilinos fossem satisfatórias para ambos os lados. 
O dirigente alerta, no entanto, que por conta desta relativa "estagnação" dos preços, há um aumento represado, que deve ocorrer assim que a economia mostrar sinais de melhoras. "O IGP-M variou 66,46% nos últimos cinco anos, enquanto a evolução do preço médio do metro quadrado dos imóveis ofertados no período foi de 3% a 4%", compara o presidente do Secovi-RS.
Segundo Schukster, o período de pandemia foi "o império das negociações". "Mas isso está, aos poucos, se ajustando, e acredito que em breve o mercado deve normalizar", opina. Segundo o dirigente, por conta do atual cenário "este é o momento" certo para agir, no caso de quem está pensando em locar um imóvel. "A expectativa é de que em março de 2022 a pandemia já esteja sob controle, e a partir daí os preços devem aumentar", adverte. 
Ainda que o mercado esteja "contendo os valores", calculando os preços a partir do IPCA (ao invés do IGP-M), quem vive de aluguel sente no bolso a variação, por "menor" que seja. Para se ter uma ideia, segundo comparativo publicado na última pesquisa do Secovi/RS, a locação por metro quadrado de imóveis residenciais teve variações bastante consideráveis quando se colocam o mês de agosto de 2021 frente a agosto do ano passado. Entre os bairros que tiveram maior alta no preço dos aluguéis, estão os Vila Jardim (117,6%), Pedra Redonda (45,9%), Medianeira (30,3%), Três Figueiras (26,1%) e Vila Assunção (25,6%). 
Na carona destes aumentos, ainda há que se calcular o reajuste da taxa da água, de 5,57% na Capital gaúcha (frente a de 3,32% no restante do País).

Manter as contas em dia se tornou um desafio para a classe média

Para quem paga plano de saúde, e também precisa equilibrar os gastos para manter em dia a mensalidade escolar dos filhos, investir em material de construção para a manutenção da casa, e manter ativo os serviços de comunicação, o desafio é grande. A não ser que se trate de uma família de renda alta, todos estes custos estão ajudando a pressionar a balança orçamentária de boa parte dos brasileiros.
Em agosto, o Índice Nacional da Construção Civil (Sinapi), divulgado pelo IBGE foi de 0,99%, a menor variação desde agosto de 2020. No entanto, no acumulado dos últimos 12 meses, a taxa é de 22,74%, o que leva o mesmo índice para o maior da série histórica. Já o acumulado de janeiro a agosto de 2021 ficou em 14,61%.
Segundo o gerente do Sinapi, Augusto Oliveira, "a  alta de preços de materiais de construção acontece em todos os estados da Região Sul, e o custo nacional da construção por metro quadrado, que em julho havia fechado em R$ 1.448,78, passou para R$ 1.463,11 em agosto. "Deste total, R$ 866,89 são valores relativos a materiais e R$ 596,22 destinados a mão de obra."
"No acumulado do ano, o pessoal sentiu a alta nos valores do material de construção para pequenos reparos dentro de casa", confirma a pesquisadora do Ipea, Maria Andréia Parente Lameiras. "O Ipca teve alta de 6,2% no setor de construção, mas alguns itens encareceram mais, a exemplo dos pisos (16,5%) e do material hidráulico (18%)", detalha a economista.
Para Oliveira é preciso admitir que "o principal destaque em agosto é que esta é a menor taxa dos últimos 12 meses, chegando muito próxima a agosto de 2020 (0,89%)". De acordo com o Sinapi, a parcela dos materiais apresentou variação de 1,62%. Mas os números levantados pelo IBGE mostram que a variação de preços para reparos em casa teve alta de 6,22% no acumulado do ano. Em Porto Alegre, este índice foi um pouco menor: 5,40%
"Os bens de uma maneira em geral estão mais caros", pondera a economista do Ipea. Ela comenta que, ao contrário de itens impulsionados pela elevação do preço da energia elétrica, os serviços de comunicação encareceram de outra forma. "Neste caso, foi a lei da oferta e procura. A demanda cresceu muito, com as pessoas em isolamento, buscando alternativas de lazer dentro de casa." Não à toa, os serviços de streaming tiveram variação de 11,52% entre janeiro e agosto. 
Maria Andréia lembra ainda que também o advento do home office exigiu uma melhora nos planos de internet, o que gerou aumento da demanda nas operadoras. Na Capital gaúcha, esses serviços tiveram alta de 1,51% no acumulado do ano. Já os custos da mensalidade escolar de quem tem crianças pequenas inflaram em 4,09% no País e 2,28% em Porto Alegre, no caso das creches; 6,15% e 6,71% respectivamente, no caso dos serviços de pré-escola; e mais de 5% e acima de 4% (Brasil e Capital gaúcha) nos ensinos Fundamental e Médio. 
No caso dos serviços médicos e dentários pagos de forma particular, a alta no acumulado do ano foi de 2,92% no Brasil e de 2,70% em Porto Alegre. Já os planos de saúde variaram os preços entre janeiro e agosto com uma inflação de 2,56% em território nacional e 3,20% na Capital do Rio Grande do Sul.
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