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Varejo

- Publicada em 19h00min, 24/03/2021. Atualizada em 16h37min, 25/03/2021.

Mesmo com flexibilização, empresas optam por portas fechadas em Porto Alegre

Livraria Taverna adotou sistema de take away e delivery

Livraria Taverna adotou sistema de take away e delivery


MARCELO G. RIBEIRO/JC
Adriana Lampert
Em meio à maioria de comerciantes que estava contando os dias para poder reabrir as portas no varejo de Porto Alegre, um grupo reduzido de empresários optou por ir na contramão das flexibilizações e apostar nas vendas pelos sistemas de take-away e delivery. Mesmo com receitas reduzidas e resultados menos robustos, proprietários de uma série de negócios que encontraram viabilidade na busca e entrega dos produtos e serviços argumentam que "não é o momento" para incentivar a circulação de pessoas na rua.
Em meio à maioria de comerciantes que estava contando os dias para poder reabrir as portas no varejo de Porto Alegre, um grupo reduzido de empresários optou por ir na contramão das flexibilizações e apostar nas vendas pelos sistemas de take-away e delivery. Mesmo com receitas reduzidas e resultados menos robustos, proprietários de uma série de negócios que encontraram viabilidade na busca e entrega dos produtos e serviços argumentam que "não é o momento" para incentivar a circulação de pessoas na rua.
"A Região Sul é, neste momento, o epicentro da pandemia no País. Neste cenário de contaminação alta, com pessoas circulando sem saber que estão com o vírus, achamos mais prudente evitar o acesso do público", destaca o sócio proprietário da Livraria Taverna, Éderson Lopes. Ele explica que atualmente os livros estão sendo manipulados somente pela equipe da loja, "com toda a segurança", e chegam na casa do cliente embrulhados em um papel, dentro de uma sacola. "Eu acredito que a economia não existe sem as pessoas, e que a vida deve vir em primeiro lugar." 
A empresa postou a decisão nas redes sociais: "As medidas de isolamento recomendadas por autoridades da Saúde são extremamente importantes para contermos a propagação do Covid-19. Não abriremos as portas, apesar da liberação das atividades comerciais porque a taxa de ocupação dos leitos de UTI em Porto Alegre está, girando em torno de 126% na rede privada e 104% na rede pública", justificam os proprietários em uma postagem na página da Livraria Taverna no Facebook.
A postagem conquistou o apoio e simpatia de seguidores. "Parabéns pelo posicionamento responsável", "Admirável. Valorização da vida", e "Bravo! Frequentarei ainda mais, assim que for seguro, é claro", são apenas alguns dos diversos retornos positivos da postagem. "Temos um público fiel e mantemos uma boa comunicação com estas pessoas", observa Lopes. "Não nos parece seguro normalizar a vida via decreto quando se tem tanta gente sucumbindo na fila dos hospitais. Pela segurança de todos, continuaremos atendendo de portas fechadas, recebendo pedidos de tele-entrega e take-away."
Trabalhando neste mesmo sistema, a sócia-proprietária da Chocólatras Cidade Baixa, Letícia Heinzelmann, opina que até mesmo o take-away deveria ser evitado. "Estamos em um momento em que o movimento nas ruas, mesmo com bandeira preta, está normal. Então algumas pessoas chegam na loja para pegar o produto e saem caminhando, comendo ou bebendo. Não é seguro, pois para isso precisam tirar a máscara", adverte. Desde o início da pandemia, a gestão da Chocólatras da Cidade Baixa aderiu "com muita convicção" às restrições dos decretos municipais, afirma Letícia. 
"Quando iniciaram as flexibilizações, eu achei precipitado colocar mesas para atendimento e seguimos trabalhando com take-away e delivery", conta a sócia da empresa. Ela pondera que em novembro, quando a situação nos hospitais dava sinais de estabilidade, e quando a circulação de pessoas já estava intensa nas ruas, o sistema mudou. "Todos os cafés estavam abertos e servindo, essa situação começou a nos pressionar, porque os clientes não queriam mais comprar em take-away. Foi aí que começamos a colocar algumas mesas na rua, por ser mais arejada."
Com a classificação de bandeira preta em todo o Estado, mas uso das regras de restrição de bandeira vermelha, Letícia diz que não se sente segura. "A população não está saindo só para o essencial, vejo as pessoas passeando nas ruas, driblando a regra, andando com a máscara na mão, e não vejo fiscalização." A empresária destaca que originalmente bandeira preta significa que a pandemia está em um estágio de altíssimo risco, onde "não tem condições tirar a máscara para a alimentação". "E a situação não mudou, estamos acompanhando o mapa de distanciamento, o Estado segue na bandeira preta - é um fato. Acho que nem na bandeira vermelha seria adequado estar abrindo restaurante para consumo no local, por questão de segurança de todos, tanto dos clientes como das equipes de trabalho."
"Quero deixar claro que não sou a favor de fechamento do comércio, acredito que cada um tem que ter o direito de decidir, mas como meu negócio me possibilita trabalhar de portas fechadas e meus clientes me apoiam, eu preferi manter esta posição", diz a proprietária da adega Vinho e Arte, Maria Amélia Duarte Flores. "Nossa base de negócios é turismo e eventos, e a loja dependia demais de aglomeração e circulação de pessoas. Tivemos perdas enormes e gradativas (em 2020), além do hotel ter ficado quase seis meses fechado", recorda a empresária. Ela conta que foi preciso se reestruturar, e a alternativa foi atender as pessoas sob agendamento. "Como entregamos experiência, ambiente e degustação, o cliente fica ali à vontade, e compra muito mais do que se fosse somente em delivery", explica.
Com o Rio Grande do Sul chegando à classificação de bandeira preta, há três semanas, a Vinho e Arte passou a trabalhar de forma mais moderada, destaca Maria Amélia. "Nossos receios aumentaram nas últimas semanas, vendo o crescente número de casos (de pessoas contaminadas com o novo coronavírus) no nosso entorno - incluindo amigos, familiares, e clientes. Desde a semana do dia 15 de março, a empresa passou a trabalhar somente com o delivery. 
Queda nas receitas 'é inevitável', dizem empresários
Na Livraria Taverna a rotina da equipe de três funcionários segue praticamente igual porém com horários reduzidos. "Como estamos trabalhando na loja com as portas fechadas, decidimos não abrir aos sábados", detalha Lopes. O acesso à loja está fechado ao público há três semanas, desde o primeiro decreto de bandeira preta do governo do Estado. "No ano passado ficamos trabalhando assim de março a novembro. Mas sei que só conseguimos fazer isso porque tínhamos um trabalho com venda online e contávamos com o apoio dos clientes", pondera.
Ainda assim, a empresa Taverna teve queda de receita de quase 70% desde o início do ano. "Não tem só a ver com fechar a porta, mas com a situação econômica que estamos vivendo, as pessoas estão perdendo poder de compra", avalia o sócio-proprietário. Ele comenta que em 2020, mesmo trabalhando com portas fechadas a queda no faturamento menor, girando em torno de 20%."
A sócia-proprietária da Chocólatras Cidade Baixa, Letícia Heinzelmann admite que "é difícil vender um volume de vendas sustentável pelos sistemas de delivery ou take-away". "No entanto, acredito que o que a gente deveria estar reivindicando é um apoio do governo, semelhante ao que ocorreu em 2020, e talvez até um auxílio emergencial para pequenos empresários. A solução não é abrir o comércio, mas buscar meios de viver com segurança", destaca. Neste sentido, cobrar pela vacina em massa, também deveria ser o foco dos proprietários de empresas do varejo, opina Letícia. "A vacinação de toda a população é a única saída para reduzir as internações, e possibilitar o retorno do convívio em sociedade."
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