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conjuntura

- Publicada em 15h40min, 04/02/2020.

Com crise da Argentina e Brumadinho, produção industrial cai 1,1% em 2019, após dois anos de alta

Somente a indústria extrativa mineral apresentou retração de 9,7%

Somente a indústria extrativa mineral apresentou retração de 9,7%


DNIT/DIVULGAÇÃO/JC
Depois de ensaiar uma recuperação por dois anos consecutivos, o desempenho da indústria brasileira voltou a apresentar retração em 2019. Dados divulgados nesta terça-feira (4) pelo IBGE apontaram que o setor terminou o ano passado com queda de 1,1%. Foi o pior ano desde 2016, quando o indicador desabou 6,4%.
Depois de ensaiar uma recuperação por dois anos consecutivos, o desempenho da indústria brasileira voltou a apresentar retração em 2019. Dados divulgados nesta terça-feira (4) pelo IBGE apontaram que o setor terminou o ano passado com queda de 1,1%. Foi o pior ano desde 2016, quando o indicador desabou 6,4%.
O resultado reflete o impacto na indústria da lenta recuperação econômica do país e o efeito da queda da barragem da Vale, em Brumadinho (MG), que matou mais de 250 pessoas. Somente a indústria extrativa mineral apresentou retração de 9,7%, a maior da série história da pesquisa do IBGE, iniciada em 2003.
A crise de parceiros importantes como a Argentina impactaram as exportações brasileiras, como o setor automotivo. A indústria de transformação, por exemplo, fechou o ano com alta de 0,2%, o menor desde 2016, quando desabou 6% em meio a recessão econômica.
A despeito de efeitos pontuais em 2019, analistas afirmam que o desempenho da indústria brasileira foi bem abaixo do que era esperado. Das 24 atividades pesquisadas pelo IBGE, 16 tiveram queda no ano, indicando um espalhamento da retração por diversos setores.
- Para além do efeito negativo do setor extrativo, por conta de Brumadinho, há uma combinação de perdas importantes em diversos outros segmentos da indústria, principalmente os identificados com bens intermediários - ressalta André Macedo, gerente da pesquisa do IBGE.
Durante todo o ano, o fraco desempenho da indústria brasileira já havia sido identificado durante os meses. Desde o quarto trimestre de 2018, o setor não consegue sair do vermelho. O ano passado terminou com a indústria operando no mesmo ritmo de produção de janeiro de 2019 e muito 18% abaixo do registado no auge, em maio de 2011.
Somente os resultados negativos de novembro e dezembro fizeram com que os três meses positivos registrados pelo indicador entre agosto e outubro fossem eliminados. Isso fez com que o setor industrial terminasse o ano com o pior desempenho da produção desde maio de 2018, quando foi impactado pela greve dos caminhoneiros.
Para Renata de Mello Franco, economista da FGV/Ibre, os números indicam um processo de retomada lenta da indústria brasileira, mesmo com a melhora dos índices de confiança.
Ela lembra que os bens de capital, um dos principais indicadores de investimentos na economia, terminou o ano com queda de 0,4%. Em dezembro, a queda foi de -5,9%, na comparação com 2018.
"Isso evidencia que estamos num processo de retomada lenta e gradual. O investimento ainda está reprimido e não observamos em 2019 uma melhora de bens de capital, o que é preocupante para 2020. Mostra que está difícil da indústria se recuperar sem estímulos, como uma reforma tributária", exemplifica.
Sem o dinamismo econômico dos últimos dois anos, a indústria também viu a queda do faturamento, na comparação com 2018. Segundo dados divulgados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), houve queda de 0,8% em tudo o que o setor conseguiu faturar. Houve queda nas horas trabalhadas, no emprego, na massa salarial real e no rendimento médio na indústria, onde tradicionalmente estão os melhores salários.
A chamada "utilização da capacidade instalada", que é nível de uso do parque fabril, ficou em 77,7% em dezembro, indicando uma possível limitação de novos investimentos no futuro.
"O fraco resultado de dezembro nos lembra que, apesar dos avanços observados em relação a 2018, a indústria enfrenta dificuldades para manter um ritmo mais forte e sem interrupções de retomada da atividade", destaca Marcelo Azevedo, economista da CNI. resultado de 2019 só não foi pior por conta da injeção de mais de R$ 40 bilhões na economia das contas do FGTS. A liberação de recursos impulsionou a compra de bens de linha branca, por exemplo, impulsionando os bens de consumo duráveis e não duráveis no positivo, com alta de 2% e 0,9%, respectivamente.
"O FGTS foi muito eficaz, foi um evento importante para uma melhora da indústria no segundo semestre. É bem provável que tivéssemos uma queda maior no ano (sem ele)", ressalta Ricardo Jacomassi, economista e sócio da TCP Partners. Em meio aos indicadores negativos, economistas ressaltam que há perspectiva de melhora da indústria brasileira em 2020. A retração de 0,7% em dezembro, na comparação com novembro, fez com que a queda no último trimestre do ano fosse menor que a esperada pelo mercado.
Outro indicador como o Índice de Difusão, que mostra a diferença dos setores em crescimento e não crescimento, diminuiu quase 4 pontos percentuais na comparação com dezembro de 2018.
"A difusão foi melhor, é bem provável que a indústria feche o ano com crescimento de 2.9%. Mas será uma recuperação muito maior pelo mercado doméstico do que pelo cenário externo num ano sem FGTS e com uma redução de uma taxa de desemprego", ressalta Jacomesi. No entanto, para Renata, do Ibre, é preciso que o cenário externo esteja mais favorável para que o país tenha uma retomada mais consistente da economia em 2020.
"O consumo interno é suficiente para indústria andar de lado, mas pra começar a crescer a taxas maiores, precisamos do mercado externo. E ainda temos o coronavírus, ainda não sabemos do impacto. Estamos com bases melhores para 2020, mas não do ponto de vista externo", lembra. Segundo estudo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a forte desaceleração do comércio internacional, em função das tensões entre EUA, China e Europa, e a crise econômica argentina, reduziram em 7,9% as exportações da indústria na comparação com 2018. Foi primeira retração desde 2016.
Agência O Globo
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