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Porto Alegre, terça-feira, 03 de dezembro de 2019.

Jornal do Comércio

Economia

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comércio exterior

Edição impressa de 03/12/2019. Alterada em 03/12 às 03h00min

Donald Trump aumenta tarifas sobre aço brasileiro

Exportação Brasil acho-EUA

Exportação Brasil acho-EUA


VISUALHUNT/DIVULGAÇÃO/JC

O anúncio de que os EUA vão retomar as tarifas sobre o aço e o alumínio que chegam do Brasil e da Argentina pegou de surpresa o governo brasileiro, enquanto analistas e integrantes da Casa Branca avaliam que o flerte entre Jair Bolsonaro e a China foi um agravante para a medida divulgada ontem por Donald Trump.

Segundo membros do Itamaraty, não houve nenhum sinal, nos últimos dias, de preocupação por parte dos EUA sobre a situação do aço e alumínio importados do Brasil, nem mesmo durante a passagem do ministro Paulo Guedes (Economia) por Washington, na semana passada.

O presidente norte-americano disse, ontem, equivocadamente, que Brasil e Argentina desvalorizam propositalmente suas moedas para tirar vantagem da alta cotação do dólar - o Banco Central brasileiro, porém, interveio na semana passada para tentar reduzir a desvalorização do real.

Desde a manhã desta segunda-feira, integrantes do governo brasileiro foram escalados para contatar a Casa Branca e o Congresso americano, e tentar entender as razões que estimularam a decisão de Trump. Além disso, pretendem explicar o funcionamento da política de câmbio e da indústria de aço no Brasil, na tentativa de fazer os EUA reverem a medida.

A avaliação entre diplomatas brasileiros é que o anúncio de Trump é um novo - e forte - ingrediente que prejudica a imagem de boa relação que o Brasil tenta estabelecer com os EUA desde a eleição de Bolsonaro.

Guedes esteve em reunião com empresários e o secretário de Comércio dos EUA, Wilbur Ross, em Nova Iorque, na semana passada, e, de acordo com participantes dos encontros, o aço não foi um tema relevante nas conversas.

Em meio à guerra comercial que estabelece com a China e às vésperas da eleição em que tenta ser reconduzido ao comando da Casa Branca, Trump decidiu reforçar, mais uma vez, sua política econômica protecionista.

Setores exportadores do Brasil e da Argentina têm sido beneficiados com a alta do dólar e substituído americanos na venda de produtos para os chineses. Os argentinos, por exemplo, anunciaram, recentemente, que passarão a exportar farelo de soja para Pequim após duas décadas de negociação.

Bolsonaro esteve, no mês passado, com o líder chinês, Xi Jinping, em Brasília, para a reunião da cúpula do Brics, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Na ocasião, o presidente brasileiro afirmou que a potência asiática, "cada vez mais, faz parte do futuro do Brasil" e que pretendia diversificar as relações comerciais com o país.

Os EUA também têm pressionado o Brasil contra a entrada da empresa chinesa Huawei no mercado de 5G. Ainda em novembro, Bolsonaro se reuniu com o presidente-executivo da Huawei no Brasil, Wei Yao, e disse que a gigante havia mostrado interesse no país - o leilão de 5G deve ser realizado no segundo semestre de 2020.

Indústria e governo veem decisão com 'perplexidade'

Para Mourão, ato é característico da tensão geopolítica atual

Para Mourão, ato é característico da tensão geopolítica atual


/Antonio Cruz/Agência Brasil/JC

O Instituto Aço Brasil, em comunicado, disse que recebeu "com perplexidade a decisão anunciada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, de restaurar as tarifas de importação de aço e alumínio provenientes do Brasil e da Argentina, sob o argumento de que esses países têm liderado uma desvalorização maciça de suas moedas, e que isso não é bom para os agricultores dos EUA.

Segundo o Aço Brasil, "o câmbio no País é livre, não havendo, por parte do governo, qualquer iniciativa no sentido de desvalorizar artificialmente o real, e a decisão de taxar o aço brasileiro como forma de 'compensar' o agricultor americano é uma retaliação ao Brasil, que não condiz com as relações de parceria entre os dois países".

Questionado sobre tema durante uma entrevista de rádio, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que "tem quase certeza" de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vai atendê-lo e voltará atrás na decisão de retomar tarifas sobre o aço e o alumínio brasileiros.

Bolsonaro disse, ainda, que essa decisão de Trump é "munição" para seus opositores no Brasil, mas repetiu que vai conversar com o ministro da Economia, Paulo Guedes, e com Trump sobre o assunto.

Já o vice-presidente brasileiro, Hamilton Mourão, rebateu Trump e disse que o gesto do norte-americano é característico da tensão geopolítica que o mundo vive. "Isso (o ato de Trump) é uma característica da tensão geopolítica que estamos vivendo, que gera protecionismo e é anticíclica em relação à globalização", acrescentou.

Em nota, o Itamaraty destacou que "o governo trabalhará para defender o interesse comercial brasileiro e assegurar a fluidez do comércio com os EUA, com vistas a ampliar o intercâmbio comercial e aprofundar o relacionamento bilateral, em benefício de ambos os países".

Brasil cedeu em diversos pontos aos norte-americanos neste ano

Apenas neste ano, o Brasil já cedeu em diversas frentes diplomáticas em relação aos EUA, sem receber quase nada em troca. Não conseguiu derrubar o veto à importação de carne in natura nos EUA e viu postergado o pleito de entrada do país na OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Em março de 2018, Trump estabeleceu tarifas de 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio importados aos EUA. À época, o governo brasileiro disse que as tarifas estabelecidas eram injustificadas, mas que permanecia aberto para encontrar uma solução.

Um dos principais argumentos do Planalto era que mais da metade do aço importado pelos americanos é do tipo semiacabado, ou seja, serve de insumo para a indústria dos EUA, e que os brasileiros também compram carvão de West Virgínia, uma região pobre que depende desse comércio.

Dessa forma, o Brasil conseguiu entrar em uma lista de países que ficaram isentos com o aço, dentro de uma cota que não tem sido ultrapassada. Esses argumentos voltarão a ser utilizados pelo governo brasileiro na conversa com os americanos no novo capítulo inaugurado nesta semana.

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