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Porto Alegre, segunda-feira, 20 de maio de 2019.

Jornal do Comércio

Economia

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Transportes

Edição impressa de 20/05/2019. Alterada em 20/05 às 11h14min

Greve dos caminhoneiros trouxe mais problemas

Para garantir o abastecimento de combustíveis nos postos do País, Exército precisou escoltar caminhões

Para garantir o abastecimento de combustíveis nos postos do País, Exército precisou escoltar caminhões


/EVARISTO SA/AFP/JC
Guilherme Daroit
Já faz um ano, mas alguns reflexos da greve dos caminhoneiros, que parou o País por 10 dias em maio de 2018, ainda seguem vivos no Brasil. O movimento, que paralisou a indústria, desabasteceu os postos de combustível e gerou corrida das pessoas aos supermercados, freou o crescimento, derrubou a bolsa de valores e gestou medidas, como a tabela de fretes, que, segundo economistas e entidades, não resolveram o problema e ainda trouxeram novas dificuldades à já combalida economia brasileira.
Era 21 de maio de 2018, e a segunda-feira amanheceu diferente no Brasil. Assim como já tinham feito em 2013 e em 2015, naquele dia, os caminhoneiros autônomos bloquearam estradas em diversos estados, protestando contra a alta nos seus custos. Diferentemente das outras vezes, porém, o movimento só fez aumentar nos dias seguintes. Indústrias interromperam a produção por falta de insumos, as refinarias foram bloqueadas por manifestantes, e, por mais de uma semana, houve desabastecimento de diversos produtos por todo o Brasil. A situação só começaria a voltar à normalidade em 30 de maio, após acenos do governo federal.
Mesmo que boa parte das perdas tenha sido recuperada nos meses posteriores, analistas de mercado, de bancos como o Itaú e o UBS, estimam que a paralisação tenha tirado de 0,1 p.p. a 0,3 p.p. do crescimento do PIB do Brasil em 2018, que iniciou o ano passado previsto em 2,7% e, no fim, se limitou a 1,1%.
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Um dos principais afetados pelo movimento foi o setor industrial, que viu despencar em 10,9% a produção naquele mês de maio. As fábricas vinham em recuperação desde o fim de 2016, acumulando crescimento médio de 0,9% ao trimestre até março do ano passado. "Aí vem um período de instabilidade no segundo e no terceiro trimestres, e, depois, até o primeiro trimestre de 2019, a produção cai em média 1,1% por trimestre", conta o economista-chefe da Federação da Indústria do Estado (Fiergs), André Nunes de Nunes, lembrando que, para piorar, a greve veio junto com outros fatores, como as eleições e a crise na Argentina. A tendência, desde lá, ainda não se inverteu.
A confiança dos empresários também desabou. Na sondagem da Fiergs, na qual o índice acima de 50 indica confiança e, abaixo, desconfiança, a expectativa sobre a economia brasileira caiu de 54,9, em abril, para 35,1 em junho.
O trauma com a paralisação e o aumento nos riscos, inclusive de novas greves, afetou também a bolsa de valores. O Ibovespa, que abriu a fatídica semana na casa dos 83 mil pontos, chegaria ao fim da greve no nível dos 76 mil pontos, e bateria nos 70 mil em meados de junho. "Paralisando tudo, as empresas vão ter menor lucro, e o investidor sai do risco, ainda mais que o título do governo dava bom prêmio. Até retomar, demora", rememora o vice-presidente da regional Sul da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec), José Júnior de Oliveira.
Um novo ciclo de alta só viria com a consolidação do período eleitoral, na lua de mel do mercado com o presidente Jair Bolsonaro, que duraria até março de 2019 e levaria a bolsa a quase 100 mil pontos. Desde então, entretanto, a bolsa brasileira voltou a cair - na sexta-feira, fechou aos 89.992 pontos. "Temos participação muito alta de estrangeiros na bolsa, quase metade do total, que olham o cenário tumultuado e veem um risco muito alto. Para investir aqui, o prêmio tem que ser muito bom", segue Oliveira. Um dos riscos, argumenta, é o medo constante de novas paralisações. A greve, no fim, acabou sendo um sintoma de uma série de erros no País, segundo o analista.

Para analistas, tabela não é solução para transportes

Abastecimento de alimentos também foi prejudicado pela paralisação

Abastecimento de alimentos também foi prejudicado pela paralisação


/EVARISTO SA/AFP/JC
Em meio ao caos do desabastecimento durante a greve, o governo federal adotou uma série de medidas da pauta dos caminhoneiros, que, de fato, encerraram os bloqueios, mas continuam impactando o cotidiano das empresas. Foram desde a redução no preço do diesel à criação da tabela de fretes, cuja constitucionalidade segue em discussão no Supremo Tribunal Federal (STF) e gerando críticas de especialistas e entidades representativas.
"Embora seja um expediente histórico dos nossos governos, tabelamento de preços nunca funcionou em lugar algum", argumenta o economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Antônio da Luz. O problema dos fretes, argumenta o economista, é decorrência de fatores como o monopólio da Petrobras nos combustíveis e na alta tributação depois da saída da refinaria, que elevam o preço do diesel, além da infraestrutura rodoviária ruim e o excesso de crédito para compra de caminhões na primeira metade da década. "Agora, além de termos de conviver com os quatro problemas, temos mais um (a tabela) que gera ineficiência e a destruição de valor adicionado", argumenta Luz.
Para transportar uma tonelada de grãos de Passo Fundo ao porto do Rio Grande, por exemplo, o preço praticado em junho de 2017, um ano antes da greve, era de R$ 70,00. Em meados de junho de 2018, já com a tabela em vigor, o preço era 50% maior, R$ 105,00. O último dado, de 10 de maio de 2019, porém, indica um retorno aos patamares anteriores, na casa dos R$ 75,00, sugerindo, portanto, o não cumprimento da tabela.
Presidente da Federação das Empresas de Logística e Transporte de Cargas do Estado (Fetransul), Afrânio Kieling, critica o modelo adotado na tabela, calculando os valores por eixos e distância, desconsiderando valor, tipo e peso da mercadoria. "É um desencontro do que o setor pratica aqui (Estado), no Brasil e no mundo", comenta, lembrando que a medida gerou desconforto entre embarcadores, empresas e caminhoneiros autônomos.
A entidade trabalha, junto a entidades dos autônomos, para construir uma proposta mais alinhada à realidade, que consiga garantir, também, condições de trabalho aos autônomos. "O grande problema é que o mercado está em baixa, sofre recessão, o que torna tudo muito complicado", segue Kieling, defendendo que a interferência não é saudável. "Livre mercado é melhor sempre, mas existe a lei e temos que respeitar", continua.

Empresas passaram a buscar frotas próprias para evitar o tabelamento

A greve gerou movimento no mercado, diz economista-chefe da Fiergs, André Nunes de Nunes

A greve gerou movimento no mercado, diz economista-chefe da Fiergs, André Nunes de Nunes


MARIANA CARLESSO/JC
Uma das formas encontradas pelas empresas para fugir do tabelamento e, também, se resguardar de possíveis novas greves foi a montagem de frotas próprias. Uma pesquisa da Fiergs e da Confederação Nacional da Indústria (CNI) conduzida em agosto de 2018 mostrava que seis em cada 10 indústrias pretendiam tomar alguma ação, e, destas, 27% iam adquirir frota própria.
Outras 21,6% queriam migrar o transporte de autônomos para empresas de logística, e a maioria, 37%, tentaria repassar a responsabilidade do frete para os compradores. "A greve gerou movimento no mercado", diz o economista-chefe da Fiergs, André Nunes de Nunes. Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) mostram que o licenciamento de caminhões novos saltou de 50,1 mil, em 2017, para 76 mil em 2018, alta de 51,5% que já vinha ocorrendo mesmo antes da greve.
A crítica maior à situação é de que, com isso, recursos das indústrias que poderiam ser investidos na produção acabaram direcionados ao transporte. Além disso, com mais caminhões próprios de fábricas e produtores, caiu ainda mais o número de ordens de frete para os autônomos, que deflagraram a greve no ano passado. "O produtor rural se prejudicou muito, a sociedade brasileira também, agora, ninguém se prejudicou mais do que o próprio caminhoneiro autônomo", analisa o economista-chefe da Farsul, Antônio da Luz.

Dez das maiores companhias do País perderam R$ 1 bilhão

Dez companhias do Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, somam R$ 1,187 bilhão de perdas com a paralisação dos caminhoneiros em 2018. Os prejuízos aparecem no chamado Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização).
Das 63 empresas que compõem o índice, 68% destacam efeitos da mobilização em seus balanços. A maioria conseguiu compensar as perdas de maio com bons resultados dos meses seguintes.
O segundo trimestre, entretanto, foi pior que o mesmo período de 2017. As mais afetadas são distribuidoras e produtoras de combustíveis. Raízen Combustíveis, da Cosan, Ipiranga, da Ultrapar, e BR Distribuidora, da Petrobras, perderam R$ 200 milhões cada uma com a queda no preço do diesel decorrente da paralisação.
Em seguida vêm os frigoríficos, que interromperam o fluxo de abate. A Seara, da JBS, foi afetada em R$ 113 milhões. A Marfrig relatou um impacto estimado de R$ 80 milhões a R$ 100 milhões no segundo trimestre. Já a BRF relata R$ 85 milhões de perdas no mesmo período.
"No setor de serviços, a perda é irrecuperável. No caso de transportes, isso fica bem claro. Aquela cadeira de avião que ficou desocupada em um voo é um prejuízo que não se recupera", diz José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator.
Gonçalves lembra que na produção o dano é menor. O minério pode ficar dias sem ser transportado. Mas todos sofrem com estoques. "O estoque arrebenta muita gente porque o capital de giro fica descasado: você vende menos do que o esperado e ainda tem contas para pagar. Quando você tem uma variação no estoque que não está na sua conta, o efeito financeiro pode ser muito grande", diz.
Com bloqueio nas estradas e a falta de combustíveis, CCR e Ecorodovias perderam fluxo de pedágios e registraram perdas de R$ 26 milhões e R$ 15 milhões, respectivamente.
A indústria primária viu os estoques e o preço de custo aumentarem. O movimento dos caminhoneiros foi uma das razões de a petroquímica Braskem registrar uma redução de 20% no Ebitda.
Distribuidoras de energia sofreram com a queda de consumo pela paralisação da indústria. A Equatorial Energia, controladora das distribuidoras Ceal, Cemar, Celpa e Cepisa, relatou queda de 4,8% no consumo das indústrias no comparativo do segundo trimestre de 2018 e 2017.
O varejo também sofreu reveses. As companhias, contudo, supriram a queda nas vendas com o bom desempenho do segundo semestre.
A Natura, por exemplo, viu sua margem bruta cair 2% no período em comparação a 2017 em razão do aumento de custo de produção com a paralisação, promoções e efeitos cambiais. A produção de sabonetes da companhia também retrocedeu no período.
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