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cinema

- Publicada em 08h05min, 22/01/2021.

Longa gaúcho participa da Mostra de Cinema de Tiradentes

Irmã foi filmado na região central do Estado, em Maquiné, Novo Hamburgo e Porto Alegre

Irmã foi filmado na região central do Estado, em Maquiné, Novo Hamburgo e Porto Alegre


CARINE WALLAUER/DIVULGAÇÃO/JC
Caroline Zatt da Silva
De forma online, a 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes acontece deste sábado (23), até 30 de janeiro, com acesso gratuito aos filmes, pelo site do evento. O título gaúcho Irmã, primeiro longa de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes, que teve estreia mundial em Berlim em 2020, foi selecionado para a Mostra Olhos Livres do festival mineiro e pode ser conferido após inscrição sem custo no portal.
De forma online, a 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes acontece deste sábado (23), até 30 de janeiro, com acesso gratuito aos filmes, pelo site do evento. O título gaúcho Irmã, primeiro longa de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes, que teve estreia mundial em Berlim em 2020, foi selecionado para a Mostra Olhos Livres do festival mineiro e pode ser conferido após inscrição sem custo no portal.
Filmada na região central do Estado, Maquiné, Novo Hamburgo e Porto Alegre, a produção com temática feminista e apocalíptica mostra duas irmãs viajando ao Interior em busca do pai. "Começamos a imaginar: como seria uma mulher que nunca foi ensinada a ter medo? Do que ela seria capaz?", contam os diretores e roteiristas.
Luciana e Vinícius nasceram em Porto Alegre e estudaram cinema na Pucrs. São autores de curtas-metragens que foram exibidos em vários festivais pelo mundo, como Roterdã e Montevidéu.
O enredo parte com a adolescente Ana (Maria Galant) e a menina Julia (Anaís Grala Wegner) a bordo de um ônibus, saindo da Capital. Enquanto um asteroide está em vias de colidir com a Terra, as duas irmãs têm a missão de encontrar o pai, em uma pequena cidade cuja atração turística são os fósseis de animais pré-históricos.
Com o fim do mundo iminente, Ana e Julia começam a confundir a realidade externa com as suas sensações internas e, no caminho, encontram fantasias, superpoderes, fantasmas e dinossauros. O elenco também conta com Felipe Kannenberg, Marina Mendo, Nicholas Perlin e Otávio Diello.
Os diretores contam que descobriram a cidade de Mata, onde gravaram a maior parte do longa, fazendo a pesquisa para as gravações do curta Antes do lembrar. Lá, filmaram no Jardim Paleobotânico e no museu do município. "Na época, já tínhamos a ideia do roteiro do Irmã, e quando chegamos na cidade percebemos que seria perfeita."
Vinicius estudou História antes de ingressar no curso de Cinema, e sempre teve interesse em abordar paleontologia, arqueologia e ancestralidade em algum projeto cinematográfico: "Antes do lembrar foi o primeiro projeto em que isso foi possível. Já na construção da narrativa do Irmã, a ideia era trazer contraste entre o espaço onde essas duas irmãs chegam, carregado de passado e de um certo esquecimento, e a energia que elas carregam consigo, de mudança".
Conforme os autores, os registros paleontológicos de Mata serviam para mostrar "algo cristalizado no tempo, mas ao mesmo tempo algo que é transformado, que não é mais o que era antes". Na visão deles, de alguma forma, os fósseis são representações de permanência, mas também de mudança, transformação. "Em si, eles carregam o contraste que queríamos entre o pai conservador e as suas duas filhas progressistas. O filme é sobre esse encontro e sobre esse confronto também. E sobre o apocalipse, é claro, o fim de um mundo e a incerteza do que virá."
Os cineastas reconhecem que a obra traz questões pessoais dos próprios realizadores, mas também aborda um sentimento sobre o nosso País. "Já em 2016, era um momento de turbulência política e social. Vivíamos um momento pré-apocalíptico naquela época", afirmam.
Igualmente, era um período em que o feminismo no Brasil e na América Latina ganhava uma nova forma, com novas gerações de mulheres protestando pela igualdade e pela autonomia de seus corpos. "Neste filme, usamos tudo isso como base para construir nossas personagens."
O roteiro segue essas duas irmãs à procura do pai Carlos (Felipe Kannenberg), do qual a menor nem lembra mais o rosto, deixando para trás a mãe doente, Irene (Marina Mendo). "O filme é carregado com a sensação de uma grande e violenta mudança chegando. Para nossas personagens, a mudança é a perda da mãe e do pai voltando às suas vidas, tentando recuperar o poder sobre elas; quanto ao mundo, está chegando um asteroide e não sabemos o que vai acontecer quando ele chegar", explicam Luciana e Vinícius.
Eles relatam que queriam um clima de incerteza sobre o futuro na trama, porque era assim que se sentiam na época de escrita do projeto: "E é assim que você se sente várias vezes enquanto cresce e descobre como lidar com a vida adulta. Queríamos estar perto dessas duas irmãs, entrar em seu pequeno lugar privado e estar lá enquanto o mundo inteiro ao redor desmorona. Queríamos contar uma história sobre um possível recomeço e o fim de tudo, sobre permanência e mudança".
Com uma equipe bastante enxuta, a produção aconteceu no verão de 2017, com recursos próprios da produtora Pátio Vazio, bastante limitados. "Contamos com inúmeros apoios, como do próprio município de Mata e dos seus moradores. Mas, por mais desafiadoras que essas gravações tenham sido, nosso elenco e equipe estavam bastante engajados em realizar o longa, apaixonados pelo projeto, e foi dessa paixão que conseguimos criar esse filme que está tendo uma trajetória tão incrível no circuito de festivais", destacam os diretores sobre os profissionais envolvidos.

Festivais, trabalho com elenco infantil e novo projeto

Vinícius Lopes e Luciana Mazeto filmaram segundo longa, Despedida, também com atriz mirim de Irmã
Vinícius Lopes e Luciana Mazeto filmaram segundo longa, Despedida, também com atriz mirim de Irmã
PÁTIO VAZIO/DIVULGAÇÃO/JC
A dupla de realizadores audiovisuais gaúchos Luciana Mazeto e Vinícius Lopes têm boa expectativa sobre a exibição de seu primeiro longa na 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes: "É um festival do qual sempre quisemos participar, e os filmes que costumam ser exibidos no festival sempre nos interessaram. Fazer parte da programação é uma continuidade ótima para a carreira de festivais do Irmã".
Eles contam que Berlim foi o único festival que estivemos presentes nessa trajetória, visto que os outros festivais foram online ou não era possível comparecer pela pandemia. "Uma estreia em Berlim já é especial de qualquer forma, ainda mais sendo nosso primeiro longa, mas essa estreia se tornou mais importante porque foi o único momento que estivemos com o público."
Além da seleção para a mostra Generation 14plus, da 70ª Berlinale, o título também participou da Mostra Brasil e da Competição Novos Diretores na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ambos em 2020. O filme terá distribuição comercial no Brasil, através da Elo Company, e também na França, confirmada até o momento. Porém, ainda não há previsão de datas de estreia.
Impressiona na tela a desenvoltura da atriz mirim Anaís Grala Wegner, como a irmã mais nova. Os cineastas explicam que esse não foi seu primeiro trabalho com elenco infantil: "Mas os desafios de gravação eram certamente maiores, por se tratar de um longa-metragem com pouquíssimos recursos, então a escolha da atriz que iria interpretar a Julia era um ponto crucial".
Foram feitos apenas dois testes, com duas atrizes mirins talentosas. Segundo eles, a escolha de Anaís foi muito intuitiva e natural: "Ela tinha uma energia perfeita para a nossa personagem. Nós tivemos três semanas de ensaios com as duas protagonistas e com nosso preparador de elenco, João Pedro Madureira, e nesse período ele nos ajudou a construir, junto com a Anaís e a Maria Galant, uma relação muito íntima entre as duas. Esse período foi essencial e tornou as gravações muito orgânicas em relação às atuações, com um resultado bastante denso".
A positiva surpresa para os diretores com o nível de comprometimento da pequena atriz com o projeto rendeu uma dobradinha. Em seu segundo longa, Despedida, não pensaram duas vezes antes de escalar Anaís novamente para o papel da protagonista. O filme, que está em fase de finalização, é caracterizado como uma fábula pelos autores, e também lida novamente com questões geracionais e familiares: "Mas, desta vez, é através da perspectiva infantil que a história é contada. Muito em breve teremos mais novidades sobre esse projeto".
Maria Galant (da série A Bênção do Canal Brasil), por sua vez, vem numa crescente na produção audiovisual do Estado. Luciana e Vinícius contam sobre o convite a ela: "Quando estávamos iniciando os preparativos para o filme, o nome da Maria foi citado por várias pessoas. Ela já tinha participado de alguns projetos e o longa Mulher do pai estava iniciando sua carreira de festivais, mas a gente não tinha assistido ainda. Foi numa longa mesa de bar que, por acaso, a Luciana viu a Maria pela primeira vez, e simplesmente não conseguiu tirar os olhos dela. Mesmo de longe, já parecia a escolha perfeita. Por sorte, a Maria gostou do projeto e topou participar".
Na opinião dos cineastas, ela é uma atriz incrível, que trouxe uma profundidade enorme para a protagonista Ana, com uma entrega espantosa e uma força e delicadeza muito particulares. "A personagem da Maria tinha que indicar que algo não estava bem ali desde o início, e carregar isso ao longo da narrativa, até que pouco a pouco passamos a entender o que está se passando com a personagem. Não era uma tarefa fácil", comentam sobre a sorte de contar com um elenco maravilhoso em Irmã.
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