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literatura

- Publicada em 20h29min, 21/10/2020.

Liana Timm lança coletânea de poemas com maratona digital literária

Multiartista e inquieta, ela fala sobre seus cantos e confissões de poeta

Multiartista e inquieta, ela fala sobre seus cantos e confissões de poeta


ACERVO PESSOAL/DIVULGAÇÃO/JC
Caroline Zatt da Silva
“Eu canto/ porque o instante existe/ e a vida nunca está completa/ aliás/ a vida não se completa/ ela foge na passagem/ desse tempo fugidio/ eu canto/ nos registros das palavras/ nem alegres nem tristes/ eu canto/ nessa sincera confissão de poeta.” Liana Timm escreveu esses versos em 2016, para homenagear Cecília Meireles, no poema intutulado Poeta.
“Eu canto/ porque o instante existe/ e a vida nunca está completa/ aliás/ a vida não se completa/ ela foge na passagem/ desse tempo fugidio/ eu canto/ nos registros das palavras/ nem alegres nem tristes/ eu canto/ nessa sincera confissão de poeta.” Liana Timm escreveu esses versos em 2016, para homenagear Cecília Meireles, no poema intutulado Poeta.
Ela os citou para abordar a polêmica antiga, discutida há muitos anos entre as mulheres, sobre o termo poetisa ser usado pejorativamente. “Esta questão extrapola a gramática. Uma imagem de poesia inferior e melosa foi construída em torno do uso social da palavra poetisa. A palavra poeta, no meu ponto de vista, é mais aberta, servindo a gêneros diversos. Entretanto, tudo é uma questão de costume tanto para o bem como para o mal. Mas, no caso, refiro substantivos sem gênero como artista e poeta, podendo me colocar neste ou naquele ponto de vista quando quiser. Há um termo que poderá vir a ser uma alternativa para este, que é o dilema de alguns: poetista. Um substantivo também sem gênero fixo”, opina.
Multiartista, Liana é escritora, cantora, arquiteta, designer e artista visual. Nesta quinta-feira (22), ela lança seu 18º livro, O íntimo das horas (Território das Artes, 96 páginas, R$ 45,00), em uma maratona digital literária. A partir das 8h, no Facebook e no Instagram da autora (@lianatimm) e da editora (@territoriodasartes), poesias selecionadas desta nova publicação serão recitadas, de hora em hora, até a meia-noite, pela autora e convidados, como Alexandre Brito, Cátia Simon, Dani Langer, Dione Detanico, Helena Terra, Janaina Pelizzon, Lenira Fleck, Márcia Ivana de Lima Silva e Maria Alice Bragança.
“Convidei amigos escritores para transformar o lançamento num acontecimento, já que sessão de autógrafos não iria ter”, comenta. “O maior objetivo é divulgar a poesia, mostrando que ela pode fazer parte, sem entraves, do dia a dia das pessoas. E também chamar a atenção para a diferença entre leitura silenciosa e oral. A importância da entonação, do ritmo, da ênfase no dizer poético oral é fundamental para a poesia.”
A coletânea de poemas já lançados em títulos anteriores da autora foi organizada por Dione Detanico. De sete livros selecionados, ela pinçou cerca de 10 poemas de cada para compor um caleidoscópio do universo da multiartista. “Dione, especialista em Literatura Brasileira e Portuguesa, revisora, escritora e licenciada em língua francesa, além de tudo grande intérprete com uma aguçada sensibilidade, foi fundamental. Há 20 anos, nossa amizade cresce numa harmonia enriquecedora. A escolha de poemas para compor uma antologia não é fácil, mas ela soube desempenhar a tarefa brilhantemente”, conta a poeta.
Liana reconhece que tudo que é presencial é melhor: “Mas a nossa realidade pede abertura para modificações e transformações. As lives são uma realidade hoje em dia, apesar de gerar uma poluição nas redes sociais, às vezes um pouco cansativa. Agora, gosto de escolher o que ver na hora e no lugar que quiser. Isso acontece em algumas situações, como quando estou desenhando. Tenho o hábito de colocar o celular em encontros como os do Café Filosófico, Roda Viva e outros programas semelhantes para assistir sobre assuntos do meu interesse. Shows musicais e documentários têm me acompanhado também no meu processo de desenho. Não sou muito saudosista. Olho sempre para a frente deixando o que ficou para trás”.
Ela explica que a imagem da capa do novo trabalho é um dos desenhos feitos na pandemia, com bico de pena e lápis de cor. “Gostei dele por trazer um clima de bordadura, de coisa saída do baú da memória e ao mesmo de vibração colorida e motivação pela vida.” Sobre o título da publicação, informa que O íntimo das horas dá nome a um dos poemas da obra Extravios incandescentes (2014), que, por ironia, não está neste livro: “Acho que toda poesia é feita no íntimo das horas, naquele momento em que, recolhida a si mesma, a gente deixa que a palavra tome seu rumo e adquira a sua maior potência de revelação”.
Para a artista, foi muito difícil passar esses quase oito meses sem eventos culturais. “Mas como estou constantemente na companhia dos livros e das obras de arte, o mais natural aconteceu. Bolei a campanha #alimentocorpoealma e convidei três empresas a levar cultura para alimentar a ‘alma’ do corpo. Além disso, quis alargar a ação cultural para pessoas que talvez gostassem de ler um bom livro, mas não tivessem condições para tanto. E foi muito gratificante ver as publicações da Território das Artes circulando em outros espaços sociais que não os habituais. Mesmo a distância, pude participar de iniciativas que realizaram interações interpessoais. Porque eventos ao vivo se mostraram totalmente inconvenientes”, avalia.
Quando realizava o projeto bossaJAZZ&cia, a polivalente Liana reunia artes visuais, poesia e música. “Ambientava com um cenário e costurava o roteiro com poesia e curiosidades sobre o que era apresentado. Quero voltar a fazer estes shows, que eram no meu atelier ou em algum espaço de música”, ela responde sobre o primeiro desejo ao fim da pandemia, mas é prudente: “Vamos ter paciência e esperar que tudo se normalize dentro dos limites possíveis para voltar a conviver com os amigos”.
No poema Espaço íntimo, de O íntimo das horas (2020), ela escreve: “A arte não facilita. Exige o que muitas vezes não estamos prontos a entregar”. A poeta esclarece se referir às questões subjetivas: "Toda criação estimula o inconsciente surgindo daí questões desconhecidas. Muitas vezes, ao terminar um poema ou uma obra de arte, fico incrédula com o que estou lendo ou vendo. Parece feito por outra pessoa. Tanto em uma quanto em outra situação o importante é criar um distanciamento emocional do resultado".
Para isso, segundo Liana, é preciso deixar a obra descansar um tempo, e retomá-la e fazer ajustes, se necessários. "Durante o processo do fazer não cabe se perguntar sobre o êxito da obra no público. Se assim fosse teríamos uma produção artística feita a partir de condicionantes, o que limitaria a liberdade criativa", completa.
A autora não é apenas uma artista multimídia. Sobre o desafio de apropriação de diversas linguagens, além dos meros suportes, ela enxerga um ponto de intersecção: "Com cada linguagem artística, estabelecemos formas diferentes de relacionamento e apropriação. Mas há algo comum a todas: a necessidade de silêncio e a solidão para o fazer criativo". 
Conforme a multiartista, a geração de ideias necessita recolhimento e concentração: "E isso não muda muito de linguagem para linguagem. Tanto nas artes visuais, na literatura, na música, na arquitetura e no design, criar é um ato introspectivo".
Nesse ponto, afirma ela, a quarentena tem sido “positiva”, pois eliminou a dispersão. "Bem no início, quando a minha rotina precisou ser modificada, por ser imprescindível o isolamento, concentrei meus esforços nas linguagens que dependiam só de mim. As artes visuais e a literatura tomaram a dianteira e fiz delas as minhas companheiras dia e noite. Reencontrei o desenho e o pratiquei quase todas as horas do dia, resultando numa coleção de mais de 50 deles", relata.
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