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FESTIVAL DE GRAMADO

- Publicada em 11h14min, 27/09/2020. Atualizada em 14h43min, 27/09/2020.

Edição histórica de Gramado destaca andanças pelos territórios da América Latina

Filmado no deserto de sal da Bolívia, venceu 'King Kong en Asunción', de Camilo Cavalcante

Filmado no deserto de sal da Bolívia, venceu 'King Kong en Asunción', de Camilo Cavalcante


EDISON VARA/PRESSPHOTO/DIVULGAÇÃO/JC
Caroline Zatt da Silva
Marcando posição histórica pela realização multiplataforma (exibições pelo Canal Brasil e transmissões pela internet), em função da pandemia de Covid-19, a 48ª edição do Festival de Cinema de Gramado, em sua premiação, consagrou narrativas que abordaram andanças pelos territórios latino-americanos. Em 2020, os espectadores puderam acompanhar de casa essas tramas em trânsito, destacadas na maioria dos 51 filmes concorrentes, entre longas e curtas.
Marcando posição histórica pela realização multiplataforma (exibições pelo Canal Brasil e transmissões pela internet), em função da pandemia de Covid-19, a 48ª edição do Festival de Cinema de Gramado, em sua premiação, consagrou narrativas que abordaram andanças pelos territórios latino-americanos. Em 2020, os espectadores puderam acompanhar de casa essas tramas em trânsito, destacadas na maioria dos 51 filmes concorrentes, entre longas e curtas.
Na noite deste sábado (26), a cerimônia foi apresentada diretamente do Palácio dos Festivais, na serra gaúcha. As equipes concorrentes acompanharam pela TV e conectados com a organização, alguns participando por telão. Apesar de não ter arrecadado o maior número de prêmios na mostra brasileira (Um animal amarelo levou cinco Kikitos - Roteiro, Atriz, Crítica, Direção de Arte e Menção Honrosa), o longa pernambucano King Kong en Asunción, de Camilo Cavalcante, foi eleito o Melhor Filme, além de ter Andrade Júnior como Melhor Ator, ser reconhecido em Trilha e também pelo Júri Popular.
O intérprete do protagonista da obra infelizmente não chegou a vê-la concluída, porque faleceu em maio de 2019. A família de Andrade Júnior acompanhou o anúncio e afirmou que este foi o trabalho de sua vida: "Ele se dedicou muito a este filme".
“Acho que cinema e arte não são corrida de cavalo, que tem o melhor ou o pior. Todos os filmes que foram apresentados têm o seu valor. Sem a arte, não sobrevivemos ao peso da vida. Seguimos com a vontade de construir um País e uma América Latina mais igual, mais justa e mais afetuosa... Este filme convida a olhar para dentro, e não para fora, para ideais que não são nossos. Estamos vivendo um momento surreal, de violência e de falta de tolerância do ser humano. A fala de Ruy Guerra foi perfeita", comentou o diretor Camilo Cavalcante. Ele finalizou dizendo que o cinema é uma grande família: "Vida longa ao Festival de Gramado!".
O pernambucano se refere ao pronunciamento do veterano cineasta luso-brasileiro que, aos 89 anos, foi aclamado pela premiação com melhor direção, por Aos pedaços. Ruy Guerra agradeceu a coragem dos jurados em premiarem um filme "que foge a cânones, a regras gramaticas cinematográficas" e foi além: "Não posso deixar de falar da escuridão em que estamos vivendo. Um governo que dizima as populações indígenas e quilombolas. Um governo racista, que promove uma avalanche de destruição. Obrigada ao Festival por abrir essa janela por onde respiramos um pouco de ar puro. Os artistas são um tipo de animal que resiste a tudo".
Guerra também destacou, entre seus concorrentes, o longa Um animal amarelo, que considerou criativo, e disse que iria acompanhar o que seu realizador, Felipe Bragança, faria daqui para frente. O Júri da Crítica parece ter concordado com o consagrado mestre, pois exaltou em sua justificativa para premiar o título "sua ousadia formal, que resulta em uma instigante mistura de fábula e rapsódia sobre ruínas do passado, do presente e de heranças coloniais indigestas". O diretor Bragança também levou o prêmio de roteiro, e dedicou ao pai, que foi a primeira pessoa que o desafiou a escrever.
O Kikito de Melhor Atriz entre os brasileiros foi para a portuguesa Isabel Zuaa, pela atuação em Um animal amarelo. Ela já havia vencido esta categoria na Mostra Gaúcha de Curtas do festival, no meio da semana, por Deserto estrangeiro, de Davi Pretto. 
Entre os estrangeiros, o longa que recebeu mais Kikitos (El gran viaje al país pequeño, de Mariana Viñoles, com a única diretora mulher e o único documentário entre os seis selecionados, recebeu Melhor Direção, Prêmio Especial do Júri, Prêmio da Crítica e Júri Popular) também não foi eleito o Melhor Filme. Os críticos do júri ressaltaram a escolha da produção uruguaia "pela maneira com que explora o tempo documental e subverte as expectativas em torno da jornada de seus personagens, fazendo um registro crítico de questões contemporâneas".
O colombiano La Frontera, de David David, além da categoria principal, venceu Roteiro e Atriz. “Estou contente e nervoso. Agradeço ao festival por essa alegria. É um ponto de esperança pelo que vem, precisamos encontrar maneiras de que tudo isso não deixe sequelas muito profundas”, comentou o diretor, que apresentou seu primeiro filme.
Também rodado nas fronteiras do continente, Portuñol, de Thais Fernandes (única mulher entre os cinco concorrentes), foi eleito Melhor Longa Gaúcho. "Muito feliz por este reconhecimento, e quero parabenizar os colegas, agradecer a todas as pessoas que fizeram parte deste filme. Queríamos mostrar uma fronteira que muita gente não conhece, a mistura de cultura, mostrar a importância de conviver com as diferenças. É uma narrativa que fala da importância de conviver com as diferenças", disse Thais.
Nos curtas nacionais, o grande vencedor foi O barco e o rio, de Bernardo Ale Abinader, com os Kikitos de Melhor Filme, Direção, Fotografia, Direção de Arte e Júri Popular. O diretor destacou que há 20 anos um filme do Amazonas não participava da mostra em Gramado. "Espero que esse prêmio favoreça o cinema amazonense, que as pessoas assistam mais as nossas histórias, feitas pelos amazonenses, que sirva de inspiração para que essas narrativas possam reverberar."
Já o pernambucano Inabitável, da dupla Matheus Farias e Enock Carvalho, recebeu o Prêmio Canal Brasil (R$ 15 mil e direito a exibição na programação da emissora), Melhor Atriz (Luciana Souza) e Roteiro, além da distinção da Crítica, "pela forma delicada como corporifica a protagonista ausente, trazendo elementos fantásticos para descrever um estado de invisibilidade e dar sentido a uma vivência da transgeneridade". Luciana - que interpretou Isa em Bacurau e tem em sua trajetória papéis como dona Joana de Ó pai, ó - também participou pelo telão e, agradecendo à sua ancestralidade e família, de mulheres negras e nordestinas, considerou esse protagonismo como uma reparação histórica.

Vencedores da 48ª edição do Festival de Cinema de Gramado

História amazonense O barco e o rio foi consagrada entre os curtas nacionais
História amazonense O barco e o rio foi consagrada entre os curtas nacionais
EDISON VARA/PRESSPHOTO/DIVULGAÇÃO/JC
Longa-metragem brasileiro
(Melhor Filme recebe o Kikito + prêmio de R$ 25 mil; demais categorias, Kikito + R$ 2 mil)
Melhor Filme: King Kong en Asunción
Melhor Direção: Ruy Guerra, por Aos pedaços
Melhor Atriz: Isabél Zuaa, por Um animal amarelo
Melhor Ator: Andrade Júnior, por King Kong en Asunción
Melhor Roteiro: Felipe Bragança, por Um animal amarelo
Melhor Fotografia: Pablo Baião, por Aos pedaços
Melhor Montagem: Eduardo Gripa, por Me chama que eu vou
Melhor Trilha Musical: Salloma Salomão, por Todos os mortos, e Shaman Herrera, por King Kong en Asunción
Melhor Direção de Arte: Dina Salem Levy, por Um animal amarelo
Melhor Atriz Coadjuvante: Alaíde Costa, por Todos os mortos
Melhor Ator Coadjuvante: Thomás Aquino, por Todos os mortos
Melhor Desenho de Som - Bernardo Uzeda, por Aos pedaços
Prêmio Especial do Júri: Elisa Lucinda, por Por que você não chora?
Menção Honrosa do Júri: Higor Campagnaro, por Um animal amarelo
Júri da Crítica: Um animal amarelo, de Felipe Bragança
Júri Popular: King Kong en Asunción, de Camilo Cavalcante
Longa-metragem estrangeiro
(Melhor Filme recebe o Kikito + prêmio de R$ 12 mil; demais categorias, Kikito + R$ 1,5 mil)
Melhor Filme: La Frontera
Melhor Direção: Mariana Viñoles, por El gran viage al país pequeño
Melhor Atriz: Daylin Vega Moreno (Diana) e Sheila Monterola (Chalis), por La Frontera
Melhor Ator: Anibal Ortiz, por Matar a un muerto
Melhor Roteiro: David David, por La Frontera
Melhor Fotografia: Nicolas Trovato, por El silencio del cazador
Prêmio Especial do Júri: El gran viaje al país pequeño
Júri da Crítica: El gran viaje al país pequeño, de Mariana Viñoles
Júri Popular: El gran viaje al país pequeño, de Mariana Viñoles
Longa-metragem gaúcho
(recebe o Kikito + prêmio de R$ 5 mil)
Melhor Filme: Portuñol, de Thais Fernandes
Curta-metragem brasileiro
(Melhor Filme recebe o Kikito + prêmio de R$ 6,5 mil; demais categorias, Kikito + R$ 1 mil)
Melhor Filme: O barco e o rio
Melhor Direção: Bernardo Ale Abinader, por O barco e o rio
Melhor Atriz: Luciana Souza, por Inabitável
Melhor Ator: Daniel Veiga, por Você tem olhos tristes
Melhor Roteiro: Inabitável, de Matheus Farias e Enock Carvalho
Melhor Fotografia: O barco e o rio, para Valentina Ricardo
Melhor Montagem: Você tem olhos tristes, para Ana Júlia Travia
Melhor Trilha Musical: Atordoado, eu permaneço atento, para Hakaima Sadamitsu e M. Takara
Melhor Direção de Arte: O barco e o rio, para Francisco Ricardo Lima Caetano
Melhor Desenho de Som: Receita de caranguejo, para Isadora Torres e Vinicius Prado Martins
Prêmio especial do júri: atriz Preta Ferreira, por Receita de caranguejo
Júri da Crítica: Inabitável, de Matheus Farias e Enock Carvalho
Júri Popular: O barco e o rio, de Bernardo Ale Abinader
Concurso Interativo Conexões Gramado Film Market
(Prêmio TECNA – PUC + R$ 5 mil em serviços de infraestrutura e licenciamento para TV por assinatura nos canais Box Brasil e na plataforma Box Brasil Play)
Série: Lupita pelo mundo
Documentário: Sementes: Mulheres pretas no poder
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