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literatura

- Publicada em 21h33min, 09/08/2020. Atualizada em 22h38min, 10/08/2020.

Jorge Amado completaria 108 anos nesta segunda-feira

Escritor, em registro da produção de Tocaia grande, morreu de insuficiência cardíaca em 2001

Escritor, em registro da produção de Tocaia grande, morreu de insuficiência cardíaca em 2001


GERALDO ATA/AGÊNCIA TARDE/AFP/JC
Roberta Requia
Nascido em uma fazenda de Cacau na cidade de Itabuna, Jorge Amado desenhou e expandiu a Bahia de Gabrielas, Pedros e Tietas para o Brasil e para o mundo. Nesta segunda-feira (10), completam-se 108 anos do nascimento do escritor, que morreu de insuficiência cardíaca em 2001. Cremado, suas cinzas foram enterradas nas raízes de uma mangueira no jardim de sua casa, onde morou até o fim da vida com a também escritora Zélia Gattai, o grande amor de sua vida.
Nascido em uma fazenda de Cacau na cidade de Itabuna, Jorge Amado desenhou e expandiu a Bahia de Gabrielas, Pedros e Tietas para o Brasil e para o mundo. Nesta segunda-feira (10), completam-se 108 anos do nascimento do escritor, que morreu de insuficiência cardíaca em 2001. Cremado, suas cinzas foram enterradas nas raízes de uma mangueira no jardim de sua casa, onde morou até o fim da vida com a também escritora Zélia Gattai, o grande amor de sua vida.
Os acontecimentos e as vivências de Amado se entrelaçam com sua vasta obra em duas vertentes: "Os dois períodos, em parte, são bastante distintos. Há dois marcos que os abrem: Cacau (1933), com a busca de um romance proletário, e Gabriela, Cravo e Canela (1958), um romance de tom folhetinesco, que afirma uma positividade da mestiça, que escapa aos controles da moral patriarcal e aos constrangimentos de classe", comenta o professor de Literatura do Instituto de Letras da Ufrgs, Antônio Sanseverino.
Com apenas 18 anos, morando no Rio de Janeiro, Jorge Amado começou a criar amizades com intelectuais e personalidades políticas como Gilberto Freyre, José Lins do Rego e Vinicius de Moraes. A convivência com o Movimento de 30 marcou profundamente sua personalidade, que já apresentava insatisfações com a desigualdade social da Bahia.
É através de Rachel de Queiroz, que viraria sua amiga de vida, que o escritor conheceu os ideais igualitários e políticos do comunismo. "Jorge Amado escreveu obras que desvelam a realidade dos pobres e dos trabalhadores na Bahia, como a trajetória de Antônio Balduíno, protagonista de Jubiabá (1935), que vai de malandro (avesso ao trabalho, posto que associado à escravidão) a trabalhador engajado na luta de classes. Pedro Bala, de Capitães de Areia, também faz parte desta trajetória", afirma Sanseverino. Em 1936, o escritor foi preso pela primeira vez, acusado de participar da Intentona Comunista.
Foi também em 1936 que publicou um de seus livros mais líricos. Sob a brisa do mar, elemento presente em suas obras, e as velas dos saveiros é que o romance Mar Morto narra a vida dos pescadores que encontram Iemanjá no fundo do mar. O livro inspirou o amigo e compositor Dorival Caymmi a compor a música É doce morrer no mar.
E foi durante uma viagem entre o Brasil, Estados Unidos e América Latina que Jorge Amado escreveu uma de suas maiores obras, que viria a ser censurada pelo Estado Novo e queimada em praça pública na Bahia. Capitães da Areia (1937) narrava a vida do jovem mestiço Pedro Bala e de outras dezenas de crianças órfãos que vivem do roubo e do afano em Salvador. "Na religião, na música, na dança, na literatura, em todas as áreas, a presença da matriz africana atravessa e constitui elemento primordial da formação de suas obras. Há o fato positivo exaltado aí, que serve de base para combater qualquer tipo de racismo ou de perseguição ao candomblé. A partir daí podemos nos voltar para entender personagens como Gabriela, Antonio Balduíno e Pedro Bala", conta Sanseverino.
Em 1943, na volta do exílio, Amado publicou o romance Terras do sem-fim, seu primeiro livro a ser vendido depois de seis anos de proibição da circulação de suas obras.
No final da década de 1950, após o segundo exílio, dessa vez na Europa, suas obras passam a fixar mais ainda o imaginário da Bahia mestiça, dando protagonismo ao humor, à sensualidade, à miscigenação e ao sincretismo religioso. Gabriela, Cravo e Canela, de 1958, marca essa transformação. "A diferença é que, na primeira fase, um horizonte possível era desenhado pela consciência de classe e pela transformação revolucionária, e na segunda fase, esse horizonte passa pelo resgate da cultura popular e da afirmação da mestiçagem para superar a violência de classe", relata Antônio Sanseverino.
Na leva posterior a Gabriela vieram Dona Flor e seus dois maridos (1966), Tenda dos Milagres (1969), Tereza Batista Cansada de Guerra (1972) e Tieta do Agreste (1977). Alguns dos títulos viraram filmes, minisséries e telenovelas, que levariam a Bahia e as personagens femininas de Jorge Amado para dentro da casa dos brasileiros, em horário nobre.
O autor traduziu, explorou e explanou a Bahia de todos os santos para o Brasil e para o mundo. Com o valor do trabalho braçal, a luta dos trabalhadores, o sincretismo das religiões e a força da mulher, Amado construiu uma Bahia literária que viria a ser conhecida por todos. Identificou e retratou personagens reais em suas obras, fosse tanto pela mão do jovem militante comunista, quanto pela mão do imortal membro da Academia Brasileira de Letras, que ganhou o Prêmio Luís de Camões sete anos antes de seu falecimento.
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