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música

Notícia da edição impressa de 03/06/2020. Alterada em 02/06 às 19h31min

Negra Jaque se prepara para lançar seu próximo trabalho, 'QU4RTO'

Primeiro single do EP, 'Maria Madalena', será lançado nesta sexta-feira

Primeiro single do EP, 'Maria Madalena', será lançado nesta sexta-feira


RAUL KREBS/DIVULGAÇÃO/JC
Roberta Requia
Tudo começou nas batalhas de rap nas ruas e nos campeonatos de rimas. Em 2007, quando iniciou sua carreira, aos 19 anos, Jaqueline Trindade Pereira não sabia que, aos 32, estaria inspirando outras jovens mulheres negras a ganhar espaço na música. "A Negra Jaque de hoje é resultado da Jaqueline Pereira do passado e só foi possível com os erros e os acertos durante o processo", diz a cantora em entrevista ao Jornal do Comércio.
Tudo começou nas batalhas de rap nas ruas e nos campeonatos de rimas. Em 2007, quando iniciou sua carreira, aos 19 anos, Jaqueline Trindade Pereira não sabia que, aos 32, estaria inspirando outras jovens mulheres negras a ganhar espaço na música. "A Negra Jaque de hoje é resultado da Jaqueline Pereira do passado e só foi possível com os erros e os acertos durante o processo", diz a cantora em entrevista ao Jornal do Comércio.
O próximo trabalho da rapper, o EP QU4RTO, que deve ser lançado até agosto, está repleto da simbologias. Este é seu quarto trabalho de estúdio, mas a palavra não se resume a isso: além de ser a quarta filha da família, passou grande parte de sua vida em uma casa pequena, em que seu lar se resumia a um quarto. O número também tem ligação com uma condição social imposta. "Mulheres negras ocupam o quarto lugar na pirâmide social, econômica e de direitos, se pensarmos que em primeiro lugar estão os homens brancos, seguidos por mulheres brancas, homens negros e, somente então, as mulheres negras", comenta a cantora. "QU4RTO fala de coisas ocultas, de memórias afetivas, sobre o nosso espaço limitado e que somente nós podemos fazer a mudança dentro dele."
Desde o lançamento de seu primeiro trabalho em estúdio (EP SOU, 2013), muita coisa vem mudando no rap da cidade. Negra Jaque acredita que as batalhas de rimas e os slams fazem parte de sua transformação e de seu crescimento como artista. "Hoje, vejo muitas meninas criando e se empoderando, querendo ocupar esse lugar da arte, da poesia, da militância", diz.
Sete anos depois da primeira gravação profissional de Negra Jaque, QU4RTO marca o amadurecimento de sua carreira. Segundo ela, o EP também se destaca na construção da identidade visual, que, junto com as composições, ajuda a contar uma história que precisa ser ouvida: "Cada música deste trabalho é uma história que se complementa a todos os seus multiversos num tempo tão difícil de arte para o artista e para o público".
Conforme a rapper, o isolamento social trouxe lembranças e inspirações guardadas que deram forma e voz a esta nova etapa. "Este projeto sofre uma forte influência da obra de Carolina Maria de Jesus, cuja obra Quarto de despejo: diário de uma favelada já tem 60 anos. Estar em período de quarentena me trouxe toda essa simbologia que sempre esteve presente e apenas ganhou um novo significado", revela. As composições desenham memórias de sua vida e do momento atual, embaladas por diversos ritmos brasileiros e africanos, soul e jazz, além do rap como linha central.
Sobre as medidas emergenciais adotadas durante a pandemia, ela afirma que moradores de comunidades continuam sob o sistema de opressão que se mantém em funcionamento mesmo após a abolição da escravatura: "Somos e seremos sempre os primeiros atingidos em função de centenas de anos de um sistema organizado para beneficiar uma minoria. O 'fique em casa' é confortável para quem tem casa boa e geladeira cheia. Não é possível um servente de obra, uma faxineira ou um engraxate fazer home office. Não é à toa que esses trabalhadores sejam negros. Não tivemos planejamento social em 1888 e não estamos tendo em 2020".
Mais do que nunca, sua personalidade e escrita colocam o microfone diante das dificuldades sofridas pela população negra. Para Negra Jaque, o momento atual modificou e atingiu tanto o seu trabalho como o de muitos outros artistas. Foi preciso buscar soluções criativas. "Acho que, de tanto empurrarem a palavra resiliência até em receita de bolo, tivemos que aprender na prática como isso funciona", avalia.
Com QU4RTO, ganham força as palavras da mulher negra que se põe à frente da luta por seu local de fala. Para a artista, o momento em que sua música atinge o ouvinte, seja ele homem, mulher, negro ou branco, é quando o trabalho tem o impacto planejado. "Tudo parte deste momento, quando a identificação acontece, e pode ser tanto no sentido de ser uma outra mulher, negra, periférica, que vê no meu trabalho uma forma de gritar e protestar, mas também em outros casos pela empatia de conseguir, através das minhas linhas de rap, perceber o quanto somos desiguais", resume a cantora.
O primeiro single do EP, Maria Madalena, estará disponível na plataforma de música Spotify a partir desta sexta-feira (5). Juntos nessa nova etapa, embarcam o produtor cultural Cleverson Ferreira, que, no momento, gerencia a carreira da cantora, além de Bruno Braga, responsável pelo projeto gráfico, e Leonardo Braga na produção musical, em parceria com Maurício Gargel (audio mastering de nomes como Emicida, Arnaldo Antunes e Anitta).
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