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Literatura

Notícia da edição impressa de 13/05/2020. Alterada em 12/05 às 19h07min

Livro de Amilcar Bettega entra para a lista de leituras do vestibular da Ufrgs

Autor fala sobre o impacto do surrealista 'Deixe o quarto como está', lançado recentemente na Itália

Autor fala sobre o impacto do surrealista 'Deixe o quarto como está', lançado recentemente na Itália


/MARIA ANA KRACK/DIVULGAÇÃO/JC
Roberta Requia
Anualmente, a Ufrgs divulga a lista de leituras obrigatórias para seu vestibular. Ao todo, 12 obras indicadas serão avaliadas nas questões da prova de literatura. Uma das adições deste ano é o livro de contos Deixe o quarto como está - Ou estudos para a composição do cansaço, do escritor gaúcho Amilcar Bettega. Publicado em 2002 pela Companhia das Letras, o título está esgotado, mas ganhará reedição nas próximas semanas.
Anualmente, a Ufrgs divulga a lista de leituras obrigatórias para seu vestibular. Ao todo, 12 obras indicadas serão avaliadas nas questões da prova de literatura. Uma das adições deste ano é o livro de contos Deixe o quarto como está - Ou estudos para a composição do cansaço, do escritor gaúcho Amilcar Bettega. Publicado em 2002 pela Companhia das Letras, o título está esgotado, mas ganhará reedição nas próximas semanas.
Aos 56 anos e morando em Porto Alegre, o escritor compõe a seleção ao lado de nomes como Machado de Assis, Graciliano Ramos e Lygia Fagundes Telles. "Se, quando comecei a escrever, alguém tivesse me dito que dali a alguns anos meu livro estaria ao lado de um do Machado - e de outros igualmente grandes - numa lista de leitura obrigatória para o vestibular, acho que não teria acreditado", diz o autor. Para ele, a escolha é gratificante e uma forma de reconhecimento. Seu livro será lido por milhares de jovens vestibulandos, que precisarão lidar com o universo surreal de sua obra.
"É um pequeno passo para escapar da efemeridade que tocaia todas as obras de autores contemporâneos. Se pegarmos o universo inteiro de livros lançados a cada ano, a cada década, são pouquíssimos os que vão ficando, que vão sendo lidos pelas gerações futuras. Até quando Deixe o quarto..., que já tem quase 20 anos, será lido? Não sei. Mas sem dúvida isto lhe dá uma sobrevida", reflete.
A obra é composta por 14 contos que, segundo Bettega, se desfazem de qualquer compromisso com a realidade. Ele relata que, a partir desse desprendimento, a escrita dos contos foi se tornando libertadora. "À medida que fui escrevendo, isso foi se transformando em um grande exercício de liberdade. Acho que poderia, naquele momento, continuar escrevendo contos daquele tipo e fazer mais um ou dois livros, até mais, com a mesma pegada. Mas era a ideia para um livro, aquele livro. Quando terminei, já não me interessava", explica. Questionado sobre inspirações literárias que o ajudaram na sua composição, ele acrescenta que "cada texto que a gente escreve é uma espécie de compilação das nossas leituras, daquelas mais apaixonadas".
Um homem que vive com um crocodilo agarrado em suas costas. Outro divide o lar com um rosto que se movimenta sozinho, dentro de uma casa que altera sua própria estrutura. Nas histórias, os personagens se deparam com situações irreais e fantasiosas, misturadas com acontecimentos cotidianos. "Acho que o efeito maior de inquietação que a leitura dos contos pode causar vem daí: situações absurdas narradas dentro de uma absoluta e tranquila normalidade", afirma. Bettega, que, no ano passado, lançou Prosa pequena, considera que os componentes surreais de suas histórias e a linguagem simples e contida são as linhas que costuram os contos. "Um livro, para mim, mesmo um de contos ou de textos que podem ser lidos de forma independente, são um todo orgânico. Do conjunto é preciso emanar certa unidade. Nesse caso, penso que ela é alcançada pela temática (essas situações absurdas, sem nenhum compromisso com nenhum tipo de realismo) e também pela linguagem: simples, contida, buscando sempre a precisão."
Em um dos contos, A cura, um vírus mortal toma conta de uma cidade. Logo, os doentes e o hospital são separados do restante da sociedade. Os corpos que deixam de ser incinerados e vão se acumulando, entre outros acontecimentos, lembram, de certa forma, a pandemia de Covid-19. Deixe o quarto como está foi lançado na Itália no final de janeiro, e o autor esteve presente na ocasião. Retornou ao Brasil no dia em que o primeiro caso de contaminação foi confirmado no país europeu. Bettega conta que várias resenhas sobre o livro lá fazem referência ao conto: "Há uma certa ironia à fé que aquela população tem na espera de que a 'cura' seja descoberta. A nossa realidade do coronavírus é diferente: alguns obtusos desdenham a ciência. Mas a diferença maior, me parece, é que o conto enfatiza uma separação entre um 'território' degradado e a cidade protegida, entre os atingidos pelo vírus e os outros. Acho que também cabe aqui uma leitura pela chave social".
Conforme Bettega, o papel do escritor neste período continua sendo criar espaços de reflexão dentro da vida real, e o tipo de entendimento que a literatura proporciona não se dá exatamente pelas vias racionais. "Um livro pensa, a literatura pensa. Se não for assim, algo está errado. E o tipo de pensamento que a literatura provoca só ela pode provocar. Não tem nada a ver com o raciocínio lógico, com as cadeias de causa e efeito, com as teses, com as verdades absolutas e, em certo sentido, nem mesmo com a inteligência tal qual ela é entendida muitas vezes: prática, funcional e utilitarista."
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