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Artes cênicas

Notícia da edição impressa de 05/05/2020. Alterada em 04/05 às 19h50min

Camilo de Lélis avalia o impacto da quarentena no setor teatral

Diretor diz estar preocupado com os colegas que estão passando dificuldades

Diretor diz estar preocupado com os colegas que estão passando dificuldades


MARCO QUINTANA/JC
Roberta Requia
Uma das áreas artísticas mais afetadas por conta da quarentena causada pela Covid-19, a das artes cênicas, sofre diretamente com os efeitos do isolamento. "Nossa arte depende da aproximação, é uma arte do presente. É uma das mais atingidas, porque nós trabalhamos em contato com o público", afirma o diretor teatral Camilo de Lélis. Aos 65 anos e com um currículo que inclui diversas premiações, ele tem aproveitado o tempo em casa para aprimorar produções que foram adiadas e trabalhar na reforma de figurinos e materiais.
Uma das áreas artísticas mais afetadas por conta da quarentena causada pela Covid-19, a das artes cênicas, sofre diretamente com os efeitos do isolamento. "Nossa arte depende da aproximação, é uma arte do presente. É uma das mais atingidas, porque nós trabalhamos em contato com o público", afirma o diretor teatral Camilo de Lélis. Aos 65 anos e com um currículo que inclui diversas premiações, ele tem aproveitado o tempo em casa para aprimorar produções que foram adiadas e trabalhar na reforma de figurinos e materiais.
Com 40 anos de teatro, Camilo dirigiu sua primeira peça aos 26 anos de idade. Coincidentemente, há 26 anos ele é o diretor responsável pela encenação da Paixão de Cristo que ocorre anualmente no Morro da Cruz. O evento deste ano precisou ser cancelado por conta da pandemia. Camilo já trabalha na preparação para o espetáculo de 2021, que será a 61ª edição.
"Estamos aproveitando esse momento para pensar e planejar, para colocar um 'plus a mais' nos próximos anos. É um evento muito importante, vai muita gente, de 15 mil a 30 mil pessoas, dependendo do clima. São 30 mil pessoas que vão prestigiar esse evento, que sobem a montanha, é muito bonito. Envolve o povo, a cultura local, outras religiões afro-brasileiras, tem o sincretismo, coisas que são muito importantes", destaca.
A expectativa é de um suporte maior da prefeitura para o evento. "Não tínhamos verba investida na edição deste ano. Nós estamos em uma situação política complicada, não temos apoio da atual gestão da prefeitura para esses eventos. Fazemos com muito sacrifício, só que diminuindo a qualidade. Então fica a expectativa de receber um apoio melhor nos próximos anos. Que tenham carinho por nós, artistas, e por esses eventos, não só como a produção de um grupo de teatro, mas como um evento da cidade."
Além da Paixão de Cristo, outros dois trabalhos precisaram ser adiados pelo diretor. Um deles é o musical Teofania - Rapsódia dos insensatos, que trata de forma cômica uma situação distópica no Hospital Psiquiátrico São Pedro, caso a instituição fosse privatizada. A outra produção é A saga de Giuseppe Garibaldi, peça que aconteceria em setembro em Capivari do Sul. O espetáculo ao ar livre narra o heroico capítulo da Guerra dos Farrapos em que Garibaldi e suas tropas transportaram os barcos do exército farroupilha pelos pampas, com troncos de madeiras embaixo e puxados por carreatas de bois. Além da encenação, haverá cenas filmadas da chegada das tropas na cidade de Laguna, em Santa Catarina, registrando o famoso romance entre Anita e Giuseppe. "Vamos trabalhar com cinema paralelamente ao teatro. Vai ter telões imensos com projeções de cenas que vamos filmar, as cenas da Anita serão feitas especialmente para essa peça, então, quanto mais tempo para trabalharmos, melhor."
Sobre os impactos da quarentena no setor, Camilo demonstra preocupação com os colegas da classe artística. Aposentado, conta que muitos profissionais da área já estão passando por dificuldades e ainda não receberam nenhum apoio dos setores públicos responsáveis pela cultura. "Muitos colegas têm feito apresentações on-line, mas há desmerecimento; por mais que seja um trabalho bonito, altruísta, não vemos apoio financeiro vindo de lugar nenhum. Falo de colegas que estão em situações piores do que eu, que não têm fonte nenhuma de renda e estão nessa expectativa. Nossa área está sofrendo muito essas consequências. Por isso apelamos pela sensibilidade dos poderes públicos, que é com quem vamos contar."
Enquanto aguarda o fim da quarentena em seu apartamento no Centro Histórico da Capital, Camilo estima um retorno aos palcos para meados de setembro. Além de aproveitar o tempo em casa para organizar trabalhos, recomenda a leitura de O oráculo da noite - A história e a ciência do sonho, de Sidarta Ribeiro. No livro, o autor, como neurocientista, avalia a importância do sonho, relembrando sua função das culturas indígenas e antigas, como a greco-romana. "Estamos precisando sonhar. O sonho tem essa possibilidade", diz, aguardando até que a arte do encontro possa voltar a trazer alegria e emoção para os palcos.
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