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literatura

Notícia da edição impressa de 20/04/2020. Alterada em 19/04 às 20h07min

Os 90 anos da poeta Hilda Hilst, uma obscena senhora

Ousada e intensa, autora completaria nove décadas nesta terça-feira (21)

Ousada e intensa, autora completaria nove décadas nesta terça-feira (21)


ACERVO DO INSTITUTO HILDA HILST/DIVULGAÇÃO/JC
Roberta Requia
"Você bagunça o coreto total, choca completamente a paróquia, empreende a derrubada de toda uma estrutura histórica de mal-entendidos literários." Essas foram palavras usadas por Caio Fernando Abreu para descrever a amiga Hilda Hilst. Ao longo de sua vida como escritora, ela foi romancista, dramaturga, mas, essencialmente, poeta.
"Você bagunça o coreto total, choca completamente a paróquia, empreende a derrubada de toda uma estrutura histórica de mal-entendidos literários." Essas foram palavras usadas por Caio Fernando Abreu para descrever a amiga Hilda Hilst. Ao longo de sua vida como escritora, ela foi romancista, dramaturga, mas, essencialmente, poeta.
Hilda de Almeida Prado Hilst nasceu em 1930 em Jaú, São Paulo, e estaria completando 90 anos neste dia 21 de abril, caso estivesse viva. Convicta das suas razões, deixava claro que seu trabalho era para aqueles que estavam dispostos a pensar. "Não escrevo novelinhas para os bondes. Para isto já bastam os jornais", disse em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo em 1975.
Excêntrica, ousada e intensa, escrevia com fervor sobre a vida e sobre questionamentos que acercam o ser humano: amor, Deus, a existência e a morte. Para Luisa Destri, jornalista, professora na USP e coautora da biografia Eu e não outra: a intensa vida de Hilda Hilst (Tordesilhas, 2018), o apego de Hilda a suas próprias concepções e ideais é uma das características mais fortes de suas obras. "O que mais me chama a atenção talvez seja a radicalidade com que ela respeitou a si mesma, fazendo de tudo para levar adiante o que acreditava ser a sua vocação. Mesmo quando dizia estar fazendo concessões, armava estratégias para não abdicar de seus princípios", afirma.
Sobre o reconhecimento na literatura brasileira, Luisa acredita que não exista um consenso definitivo: "Embora seja muito estudada, há pouco diálogo entre os pesquisadores, e os esforços de compreensão ficam muito pulverizados. Na poesia, esse consenso está ainda mais distante, já que sua importância é mais reconhecida na prosa".

Quarentena na Casa do Sol

Aos 36 anos, cansada da capital paulista, ela se mudou para a Casa do Sol, local que foi seu lar até os últimos dias de vida
Aos 36 anos, cansada da capital paulista, ela se mudou para a Casa do Sol, local que foi seu lar até os últimos dias de vida
Sala de Memória Casa do Sol/Acervo Instituto Hilda Hilst/Fotógrafo desconhecido
Em 1966, Hilda Hilst criou uma de suas maiores obras, um legado que permanece pulsante: a Casa do Sol. Em uma fazenda de café herdada da mãe, em Campinas, ela construiu a casa na qual morou até seus últimos dias de vida em 2004.
Tombado como patrimônio cultural, o local foi um refúgio para a criação artística e literária. Lá, recebia amigos e qualquer pessoa que precisasse do espaço para se dedicar ao trabalho criativo. A Casa serviu de lar para artistas como Caio Fernando Abreu e Jurandy Valença, além das constantes visitas de Lygia Fagundes Telles.
Momentaneamente fechada por conta da quarentena causada pela Covid-19, a Casa do Sol, hoje, recebe visitantes e possui um programa de residência, também paralisado, para aqueles que, assim como nos tempos em que Hilda lá viveu, necessitem de um local para criar. Quem os recepciona, sempre às 16h com um chá ou café, é a moradora mais antiga do local: a artista plástica Olga Bilenky. "A falta de pessoas na casa faz toda a diferença nesta minha quarentena. Eu tinha 26 anos quando cheguei aqui", ressalta. Foi por conta do casamento com José Moura Fuentes, escritor e amigo de Hilda, que Olga passou a residir na Casa do Sol.
Desde a morte do esposo, em 2009, reside praticamente sozinha no lugar. Aos 69 anos, permanece como uma guardiã do legado hilstiano. "Esta época (de isolamento social) me lembra um luto. Me lembra a época em que o Moura Fuentes morreu. Estávamos juntos a vida inteira. A perda dele foi um profundo luto, e foi exatamente um período em que eu fiquei sozinha na casa", explica.
A amizade do casal com Hilda gerou mais do que as memórias em vida. Foi na Casa do Sol, em 1983, que o casal concebeu o filho Daniel, nomeado pela escritora em vida como herdeiro dos direitos autorais de sua obra.
Aos 36 anos, Daniel Fuentes é o presidente do Instituto Hilda Hilst. "Se tivesse herdado um cartório, por exemplo, podia estar com muito mais dinheiro, porém muito menos feliz", brinca.
“Da primeira vez que ela falou em me fazer herdeiro dos direitos foi quando eu era adolescente. A Hilda nunca falou isso comigo, mas falou com o meu pai. E ele garantiu que eu levasse isso a sério. Digamos que eu sempre fui formado pra saber que isso não era qualquer coisa. Que isso era importante.” Formado em Cinema e Ciências Sociais, hoje Daniel nomeia-se gestor cultural: “Eu gosto de trabalhar com isso e pra mim é um prazer imenso. Acabou de fato virando a minha carreira”.
Responsável pela preservação do legado hilstiano, revela que 90% da renda do instituto está comprometida neste ano por conta da quarentena: "Eram (recursos) de circulação de exposições, lançamento de livros, o relançamento de Obscena Senhora D, a festa dos 90 anos, um universo de coisas com aglomeração. Todo o nosso plano de ação até o final do ano baseado em grandes eventos", lamenta.
A Casa do Sol também passaria por uma reforma neste ano. Por se tratar de uma construção de aproximadamente 50 anos, o local exige reparos. "Na época de chuva é mais complicado por causa do telhado. Nossa felicidade era saber que a gente não passaria por uma nova temporada de chuva sem o restauro. A manutenção da casa está claramente ameaçada.”
Uma das novidades deste ano, e alternativa para arrecadar receitas e continuar promovendo a memória da escritora, é a Curadoria Hilst, iniciativa que precisou ser adiantada por conta da quarentena. O canal no YouTube e uma plataforma em parceria com o site CidadeOn, da EPTV, trazem conteúdos relacionados à obra da autora, interpretações de poemas, entrevistas e debates sobre produção literária, gestão cultural e assuntos relacionados à criação. “No programa Tentáculos, por exemplo, discutimos gestão cultural com foco nesse presente absurdo em que estamos vivendo. Estamos trabalhando 10 vezes mais e ganhando 10 vezes menos.”
Para Daniel, o investimento na construção de parcerias é um meio para a manutenção dos movimentos culturais independentes e da preservação da memória do Instituto.
Estava planejada para terça-feira (21), uma grande comemoração aos 90 anos de Hilda. A festa seria realizada na Casa do Sol, onde seus moradores guardam o costume de celebrar o aniversário de sua patrona.
Segundo Olga e Daniel, mãe e filho pilares do Instituto Hilda Hilst e da preservação do legado da autora, a comemoração será levada para a internet através do Curadoria Hilst. Conforme Olga, “todo mundo que existe aqui ainda comemora o aniversário. Ela tinha uma relação maravilhosa com as pessoas, com a festa, com a alegria e com a vida.” Mesmo em épocas de isolamento social, a vida na Casa do Sol continua sendo um estímulo ao trabalho criativo e à celebração.
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