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artes cênicas

Notícia da edição impressa de 26/03/2020. Alterada em 25/03 às 19h40min

Antônio Carlos Falcão se utiliza do humor nas redes sociais para 'driblar' coronavírus

Sem poder se apresentar ao vivo, ator propõe até uma espécie de balada pelo WhatsApp

Sem poder se apresentar ao vivo, ator propõe até uma espécie de balada pelo WhatsApp


ACERVO PESSOAL/DIVULGAÇÃO/JC
Daniel Sanes
A criação artística requer silêncio, concentração e, em muitos casos, reclusão total. Mas e quando essa reclusão não é voluntária? Para o ator gaúcho Antônio Carlos Falcão, o isolamento, por si só, não é um problema. O que incomoda é o fato de ele ser compulsório, decorrente da pandemia de coronavírus.
A criação artística requer silêncio, concentração e, em muitos casos, reclusão total. Mas e quando essa reclusão não é voluntária? Para o ator gaúcho Antônio Carlos Falcão, o isolamento, por si só, não é um problema. O que incomoda é o fato de ele ser compulsório, decorrente da pandemia de coronavírus.
"Quando era criança, tinha uma multidão na minha volta, meus primos etc. Mas tinha dias que eu pedia pra minha vó mentir que eu estava com alguma coisa pra não ver ninguém e ficava sozinho, pois gostava de pirar, inventar histórias", lembra o artista, rindo. "Felizmente, sou uma pessoa que consegue ficar bem sozinha. Trabalho em casa, e acho que para quem cria e precisa de silêncio, o isolamento facilita. Mas estava conversando com a (atriz) Ilana Kaplan, e ela disse uma coisa interessante: 'ficar em casa é legal, mas ficar em casa com medo não é legal'", reflete.
A classe artística foi uma das grandes afetadas pela Covid-19, com o fechamento de teatros, cinemas e casas de espetáculos. Sem poder se apresentar ao vivo, muitos artistas têm seu ganha-pão consideravelmente reduzido. Para Falcão, que também é cantor e compositor, não é diferente. "Quem depende disso pra viver, não está trabalhando. Não tem show, não tem nada, é bem difícil mesmo. Eu, felizmente, tenho uma renda - bem pouca - de um aluguel. Da metade de 1980 pra 1990, trabalhei muito com publicidade e consegui comprar dois imóveis, e alugo um deles. É disso que sobrevivo", afirma.
O ator se considera um privilegiado por estar no conforto de sua residência. Afinal, muitas pessoas não têm essa opção. "Acho que nenhum de nós esperava passar por um momento tão grave. Sempre ficava imaginando um holocausto radioativo, daqui a muito tempo, não uma pandemia tão rápida, tão violenta. Mas, ao mesmo tempo, acho que nós, que temos uma casa, acesso a comida mais fácil, água potável, somos muito felizes. Estamos vivendo o 'luxo', existem muitas pessoas que estão vivendo realmente a crueza do momento, gente que está mesmo no front. Isso é muito impactante pra mim", avalia Falcão, bastante conhecido por sua performance interpretando a cantora Maria Bethânia. "Outra felicidade que tenho é de contar com os amigos em volta, que são extremamente generosos. Eu estou bem, mas, como tenho mais de 60 anos, eles não permitem que eu saia na rua, fazem tudo por mim. Isso é muito legal."
Dentro de seu apartamento, o artista usa o tempo livre para exercer uma atividade inerente à profissão: interagir com o público. Para isso, vem divulgando conteúdo, antigo ou inédito, nas redes sociais. "Postei um vídeo em que recitei a letra da música (Porão) de uma peça que eu escrevi baseada no livro A fera domada, do Celso Gutfreind, e está em projeto pra ser dirigida pelo Carlos Ramiro, se chama A verdadeira história do bicho papão. Me fantasiei, botei um capuz e uma luz em que não aparece nada, mas acho que as pessoas curtiram", diverte-se.
Entre textos a decorar e músicas a compor, Falcão tenta se manter ativo. Até mesmo nos momentos de maior ociosidade, pensa em arte ("Gosto de desenhar, no celular mesmo, em um aplicativo, até em fila de banco. O tempo passa rapidinho!", garante) e mantém o bom humor. "Acho que no próximo fim de semana vou fazer uma convocação pelo WhatsApp: vou criar um grupo e fazer uma 'Whats balada', ou 'balada Whats', pedir uma tele-entrega de cerveja... E cada um na sua tela, rebolando, que é bom!", avisa, às gargalhadas.

De quarentena com Falcão

livros - crédito reprodução
Dicas de leitura do ator incluem Leonardo Padura, Paulo Scott, Guimarães Rosa e Liv Ullmann
REPRODUÇÃO/DIVULGAÇÃO/JC
Pedimos para Antônio Carlos Falcão dar algumas dicas de leitura, filmes, séries – enfim, sugestões de obras culturais que possam tornar um pouco menos estressante esse período de reclusão. “Sobre filmes... Parasita, Bacurau, tô nessa onda. Na verdade, eu vejo de tudo, qualquer bobagem que tenha na Netflix. Gosto de documentários, e achei interessante um chamado Voyeur (Obra baseada no livro de mesmo nome do norte-americano Gay Talese, um dos maiores nomes do jornalismo literário), que conta a história de um cara que construiu um motel pra espiar as pessoas. “O confinamento é isso: para quem pode se dar ao luxo, uma oportunidade de voltar à leitura, ver filmes, ter esse conforto, esse alento”, diz. Confira algumas dicas de leitura.
Hereges, de Leonardo Padura – “Muito interessante, um romance que mistura história e suspense, estou adorando.”
Marrom e amarelo, de Paulo Scott – “Quando tu lês um livro que fala da tua cidade é muito legal tu te identificas mais ainda. E o assunto é cabal: racismo.”
Grande sertão: Veredas, de João Guimarães rosa “Estou lendo de novo, acho até vou escolher um trecho um dia pra postar, porque acho demais.”
Mutações, de Liv Ullmann – “Não podia esquecer esse! Ganhei do Jorge furtado durante a Feira do Livro!”