Porto Alegre, segunda-feira, 16 de março de 2020.

Jornal do Comércio

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Literatura

Notícia da edição impressa de 16/03/2020. Alterada em 15/03 às 20h49min

Escritor João Silvério Trevisan fala sobre seu romance mais recente

'A idade do ouro do Brasil' provoca reflexões sobre a política nacional

'A idade do ouro do Brasil' provoca reflexões sobre a política nacional


RENATO PARADA/DIVULGAÇÃO/JC
Daniel Sanes
"Por favor, parem com essa mitologia de messias!", pede o escritor João Silvério Trevisan. A frase, assim, isolada, pode soar em tom de súplica, mas é dita de forma enfática, quase imperativa pelo escritor de 75 anos, cujo currículo inclui três prêmios Jabuti. "Não existe um salvador, não existe nenhum tipo de messias. Nós passamos por quase quatro gestões de esquerda à espera do messias (Lula) e da messias (Dilma Rousseff) e aí aparece um outro (Jair Bolsonaro) para desmistificar aquilo que estávamos esperando: messias não existe. Se existe, é sempre vocacionado para a ditadura, para ser um pequeno ou grande ditador. O meu projeto político com o romance é esse: parem com essa mitologia de messias."
"Por favor, parem com essa mitologia de messias!", pede o escritor João Silvério Trevisan. A frase, assim, isolada, pode soar em tom de súplica, mas é dita de forma enfática, quase imperativa pelo escritor de 75 anos, cujo currículo inclui três prêmios Jabuti. "Não existe um salvador, não existe nenhum tipo de messias. Nós passamos por quase quatro gestões de esquerda à espera do messias (Lula) e da messias (Dilma Rousseff) e aí aparece um outro (Jair Bolsonaro) para desmistificar aquilo que estávamos esperando: messias não existe. Se existe, é sempre vocacionado para a ditadura, para ser um pequeno ou grande ditador. O meu projeto político com o romance é esse: parem com essa mitologia de messias."
O supracitado romance é A idade de ouro do Brasil (Alfaguara, 216 páginas), cujo lançamento em Porto Alegre ocorreria nesta segunda-feira (16), na Livraria Baleia (Cel. Fernando Machado, 85). Porém, após o alerta diante dos casos de coronavírus no País e na cidade, o espaço decidiu adiar as atividades agendadas para os próximos dias.
Assim, a publicação terá sessão de autógrafos em 23 de abril, e a oficina literária que o autor ministraria amanhã e na quarta-feira passou para 24 e 25 de abril - sendo que as inscrições já realizadas seguem valendo para as novas datas, mas poderá ser solicitado o estorno.
Lançado em 2019, o livro é baseado em um roteiro que ele escreveu em 1987, mas que nunca foi filmado. A obra saiu da gaveta quando, em uma leitura com amigos, todos ficaram impressionados com o fato de como a história permanecia atual. A trama se passa em 2009, com Lula no auge do poder, o Brasil entre os países em desenvolvimento e vivendo a euforia do pré-sal.
Em uma mansão no interior de São Paulo, políticos e empresários se reúnem para criar um novo partido, almejando ter acesso fácil aos cofres do Estado. Dois imprevistos acabam causando uma reviravolta na história: a visita de um ex-capitão do Exército e a inusitada presença de uma trupe de travestis sob o comando de Vera Bee - professor universitário que à noite se monta e fornece cocaína à clientela.
Trevisan lembra que tinha concluído a adaptação do roteiro em 2016. "Estava mais ou menos pronto quando Pai, pai (seu romance anterior, de 2017, previsto para ser o início de uma trilogia) se atravancou na frente e passei a me dedicar a ele. Mas aí veio a eleição presidencial de 2018, com resultado catastrófico, e disse: 'não, não posso continuar a trilogia'. Já tinha um segundo título praticamente pronto, mas preferi adiar e fazer uma atualização n'A idade de ouro do Brasil. Trabalhei intensamente essa figura nefasta que se tornou presidente. Ele não cabia no meu romance, mas eu queria colocar, achava fundamental fazer uma referência", relata o autor.
Se a obra tem tanta verossimilhança com a realidade, é algo que impressiona, mas está longe de ser celebrado. Afinal, Trevisan jamais esperava que determinadas situações pudessem se concretizar - e, quando surgia tal cogitação, era sempre de forma a ridicularizá-las.
"A idade de ouro do Brasil é um romance que pretende pensar como é que chegamos onde chegamos. Quis introduzir o personagem do capitão, mas ele não tinha condições de se manter no romance, porque não havia nenhuma previsão da existência possível desse personagem nesse local, espaço, momento histórico", explica. "É um romance mais do que melancólico, é quase amargo, pra não dizer pessimista, no sentido de que a idade de ouro no Brasil é uma coisa extremamente irônica. Em vários períodos poderíamos ter chegado a ela e deixarmos de ser aquele eterno país do futuro... Eu pensei em narrar a história no governo Lula pra mostrar como tudo que ocorre atualmente já se fazia presente nos subterrâneos naquele período."
Para Trevisan, um ex-seminarista que se assumiu homossexual no auge da ditadura militar e escreveu Devassos no paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade (1986), obra fundamental sobre a temática LGBT, falar sobre o momento político nacional é incômodo, mas inevitável: "Ler os jornais pela manhã me provoca vômito, na primeira instância, e, na segunda, dá uma vontade insustentável de rir. Não é possível que estejamos participando desta grande palhaçada".
"Pela minha posição de escritor, de sentir o espírito do tempo, me vejo na obrigação de tentar interpretar isso. Os profetas bíblicos eram jogados aos leões não porque estavam interpretando o futuro, mas porque levantavam o dedo para as feridas do presente. É um projeto de vida doloroso, mas é a única maneira que consigo compreender a literatura: correndo riscos", argumenta.
Em relação a como o público pode reagir à obra, em um contexto de polarização política, Trevisan acredita ter atingido seu objetivo. "As pessoas estão sentindo exatamente aquilo que queria propor: uma reflexão sobre um país à deriva, uma ilha à procura de si mesma", pontua. "Os ratos saíram dos porões e estamos finalmente conscientes de que a bolha na qual vivíamos nas redes sociais estourou e agora conhecemos o Brasil de fato. É fácil? Nem um pouco. Mas é importantíssimo para repensar o País e descobrir como vamos construir essa idade de ouro, se é que um dia ela existirá."