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Porto Alegre, quinta-feira, 21 de novembro de 2019.
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Jornal do Comércio

Cultura

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artes cênicas

Edição impressa de 21/11/2019. Alterada em 22/11 às 09h31min

Espetáculo promove diálogo da cultura popular com a dança urbana

Canoas Coletivo de Dança estreia 'Sambaracotu' nesta sexta-feira, no Instituto Ling

Canoas Coletivo de Dança estreia 'Sambaracotu' nesta sexta-feira, no Instituto Ling


MACIEL GOELZER/DIVULGAÇÃO/JC
Caroline Zatt da Silva
Com o Canoas Coletivo de Dança no palco, estreia nesta sexta-feira (22) o espetáculo Sambaracotu, no Instituto Ling (João Caetano, 440). A direção da montagem que mescla os ritmos samba e maracatu em seu título é de Carlota Albuquerque, Álvaro RosaCosta e Simone Rasslan. As sessões ocorrem nas sextas-feiras, às 20h, e sábados, às 18h, até 7 de dezembro. Ingressos a R$ 40,00.
Com o Canoas Coletivo de Dança no palco, estreia nesta sexta-feira (22) o espetáculo Sambaracotu, no Instituto Ling (João Caetano, 440). A direção da montagem que mescla os ritmos samba e maracatu em seu título é de Carlota Albuquerque, Álvaro RosaCosta e Simone Rasslan. As sessões ocorrem nas sextas-feiras, às 20h, e sábados, às 18h, até 7 de dezembro. Ingressos a R$ 40,00.
Tendo oito bailarinos no elenco, Sambaracotu procura estabelecer um elo entre dança urbana e diversidade sonora nacional. A dramaturgia surgiu da pesquisa na cultura popular, música, literatura e dança urbana. A diretora Carlota, coreógrafa há 45 anos, buscou uma nova linguagem para este trabalho. "A literatura está na pesquisa etnográfica, na poesia e na fundamentação filosófica que alicerça todo o espetáculo. Talvez não esteja tão visível na montagem, não apareça tão sólida, tão óbvia, mas ela produz e provoca os corpos que ali se movimentam, produz o simbólico em cada cena", relata.
O músico, ator e professor Álvaro RosaCosta esclarece que foram utilizados registros de Mário de Andrade em Ensaio sobre a Música Brasileira (1928) e Missão de Pesquisas Folclóricas (1937) e O negro e o garimpo em Minas Gerais (1943), de Aires da Mata Machado Filho. Ele conta que seu processo de pesquisa partiu da provocação de Carlota sobre a origem do samba: "Voltei ao início do século passado. A referência que se tem é da cultura vencedora, branca, da burguesia, de quem tinha grana e ensinou de onde ele veio. Muitos dizem que o primeiro samba registrado foi Pelo telefone (1916) e, na realidade, outros compositores reclamam a autoria. Tem muita história que não é contada, tem que ir cavocando".
Além da trilha sonora gravada, há também uma interferência de sons ao vivo, por meio das performances dos bailarinos, com caixas, boias, rodas e outros objetos. Sobre a grande presença de elementos cênicos em formatos redondos, Carlota projeta a produção de simbologias múltiplas, abrindo possibilidades: "A forma circular pode nos levar a pensar na forma da Terra, do mundo em meio a tantas discussões sobre terraplanismos. Mas também pode simplesmente ser a forma de uma câmara de ar de pneu: objeto que faz rodar, que movimenta, ou um ambiente de opressão, uma redoma fechada, um material feito de borracha, tóxico. Não sabemos o que o espectador pode sentir ou pensar, esperamos que possa provocar tantas leituras quanto forem possíveis. Não há um único significado que traga paz".
Para os diretores, é preciso reaprender a olhar as linguagens de forma integrada: "Em algumas culturas não há separação entre música e dança, inexistindo palavras diferentes para nomear cada uma delas". Carlota destaca, sobre o desafio da proposta: "É urgente pensar o corpo sonoro integrado ao corpo em movimento. Uma das definições mais antigas de 'música' é a que foi atribuída a Santo Agostinho: 'música é movimento'. Em Sambaracotu, a música é corpo, e portanto, dramaturgia".
A intenção do coletivo é que o espetáculo seja um manifesto ético, estético e poético. Vindo a público como montagem cênica, este manifesto pode ser entendido como uma ode aos sincretismos do próprio País, que configuraram uma das produções musicais mais ricas do planeta e, por consequência, ditando ritmos e movimentos, a forma dos corpos desse povo miscigenado se expressar. "A cultura popular brasileira não é fechada, não foi tratada em uma mesa. Ela foi forjada no trabalho do campo", comenta RosaCosta.
Perguntada sobre a cor e a luz de Sambaracotu, Carlota devolve a indagação: "Qual a cor do Brasil? Um País com 55% de pardos e negros, com a maior população negra fora da África. Como é possível que não tenhamos professores negros nas escolas e universidades? Médicos, advogados, ministras e ministros, juízes negros? Essa maioria será ainda minoria? Como falar de samba sem tratar da cor? Perpetuamos a escravidão nas nossas práticas mais triviais. O Brasil ostenta um monumento como o Cais do Valongo (sítio arqueológico no Rio de Janeiro que recebeu o título de patrimônio sensível da humanidade pela Unesco, assim como Auschwitz e Hiroshima) por ter recebido o maior número de escravos na América Latina". Dos garimpos mineiros, vieram para as charqueadas e para o Uruguai, influenciando a milonga e o candombe. "Há um grande caminho dessa música negra misturada com a música indígena, muito forte no Pampa, que permeia o Brasil inteiro", explica RosaCosta.
A temporada ainda conta com uma oficina de crítica teatral gratuita (já com vagas esgotadas), ministrada por Renato Mendonça, curador do Ponto de Teatro - projeto que proporcionou o Sambaracotu, entre outros espetáculos, com patrocínio da Crown Embalagens via financiamento do Ministério da Cidadania.

Um novo trabalho para o Canoas Coletivo de Dança

Espetáculo é o primeiro da companhia sem financiamento da cidade da Região Metropolitana

Espetáculo é o primeiro da companhia sem financiamento da cidade da Região Metropolitana


EROICA CONTEÚDO/DIVULGAÇÃO/JC
O professor, ator e músico Álvaro RosaCosta narra que a provocação e a concepção para criar Sambaracotu vieram da coreógrafa Carlota Albuquerque, que sempre quis uma direção do espetáculo compartilhada com ele e Simone Rasslan. "Não foi a primeira vez. Já trabalhamos assim antes, pois compreendemos que são vários níveis de direcionamento, de decisões estéticas, técnicas", afirma.
Essa montagem é uma consequência de um trabalho anterior que os artistas já tinham realizado com os jovens bailarinos do Canoas Coletivo de Dança, para o espetáculo da Gabrielle Fleck, Broadway em quatro tempos. Eles teriam que cantar, e nunca tinham tido a experiência, não tinham a escola do canto, esse aprendizado. "Na preparação musical, a Simone (Rasslan) sempre insere canções de raiz. Viemos, inevitavelmente, estudando isso a vida inteira. Principalmente eu, desde o IA da Ufrgs, no curso de Artes Visuais. A Simone tem um repertório próprio, vamos colhendo mais músicas e trabalhando na musicalização dos atores – neste caso, dos bailarinos."
Segundo RosaCosta, Carlota enxergou uma possibilidade de retomar o assunto dessa brasilidade: "Ela se sentiu desafiada pela música urbana, no processo de criação, de como esse corpo brasileiro se comportaria, com a referência tão forte da cultura norte-americana que há, em diálogo com a nossa música 'de raiz'. Na verdade, jongo, lundu, maxixe, isso tudo é dança urbana do início do século passado – que também era proibida, que também era massacrada".
Conforme o ator, esse projeto também é um grande motivo para manter vivo o Canoas Coletivo. "Esse é o primeiro trabalho que eles fazem que não é financiado pela prefeitura da sua cidade. É uma tentativa do grupo de andar com as próprias pernas. Lá em Canoas, os ensaios eram de manhã toda, aqui tivemos um ou dois dias para ensaiar com o grupo todo. Foi bem difícil, não ter sede, essa situação que vivemos agora", detalha RosaCosta, destacando a iniciativa.
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