Comentar

Seu comentário está sujeito a moderação. Não serão aceitos comentários com ofensas pessoais, bem como usar o espaço para divulgar produtos, sites e serviços. Para sua segurança serão bloqueados comentários com números de telefone e e-mail.

500 caracteres restantes
Corrigir

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Porto Alegre, segunda-feira, 20 de maio de 2019.

Jornal do Comércio

Colunas

COMENTAR | CORRIGIR
Jaime Cimenti

Livros

Edição impressa de 17/05/2019. Alterada em 20/05 às 15h02min

Recortes da vida

Primeira Pessoa (Editora Metamorfose, 130 páginas), coletânea de 18 histórias de Luiz Paulo Faccioli, nascido em Caxias do Sul, músico, compositor, juiz internacional de gatos de raça, crítico literário colaborador do jornal Rascunho de Curitiba, contista, novelista e romancista, é sua obra mais recente. No dizer de Marcelo Moutinho, na apresentação, as narrativas de Luiz Paulo dialogam com a música brasileira e com o fazer literário e, especialmente, nos cinco textos sobre o amor, mostram que a gênese dos contos é o afeto, em suas múltiplas feições.
Faccioli, que é colunista de livros da BandNews, publicou os livros de contos Elepê (2000) e Trocando em miúdos (2008), o romance Estudo das Teclas Pretas (2004) e a novela infantojuvenil Cida, a Gata Maravilhosa (2008). Com linguagem clara, fluente, cristalina e realista, com tom intimista e bem elaboradas estruturas narrativas, o autor nos traz recortes da vida, cenas do cotidiano e retratos de pessoas, revelando personagens perplexos, lânguidos e misteriosos envolvidos por afetos e inquietações diversos.
Um pai que se assombra ao notar que a filha cresceu; moral e desejo mesclados; as visitas diárias de um solitário kafkiano ao Café Milena e cinco narrativas envolvendo aspectos do afeto e do amor, estão, entre outras, no livro, que utiliza como foco narrativo a primeira pessoa, justamente o foco que é diametralmente o oposto da neutralidade do narrador em terceira pessoa.
Escreveu Luiz Paulo na introdução: "Tudo o que conto é absolutamente autobiográfico, muito pouco do que eu conto tive o privilégio de viver. A vida é isso: uma mescla do que vivemos de fato, do que imaginamos ter vivido, do que os outros viveram por nós e do que imaginamos que os outros possam ter vivido em nosso lugar. Somando tudo, chegamos ao conhecimento pleno ou ao total desconhecimento, depende do ângulo pelo qual se vê. A ficção nada mais faz do que imitar a vida. Talvez a ficção seja mais completa do que a própria vida, pelo simples fato de que nos satisfazemos plenamente dentro de seus limites e com sua incompletude".
Olhar o mundo com nossos olhos, com os dos outros e com as lentes da imaginação e da ficção, é o que possibilitam as histórias de Primeira Pessoa. É muito.

Graça Machel

Segunda-feira, 13 de maio, como sempre o noticiário municipal, estadual e federal a milhões, como quase sempre nós, brasileiros, estamos atordoados, perplexos e enterrando os escândalos de minutos atrás com posts e jornais dos minutos seguintes.
Graça Machel às 19h45min, na Ufrgs, abriu com palestra sobre a temporada de 2019 do Fronteiras do Pensamento, evento que está completando seu glorioso 13º ano. Graça foi primeira-dama em Moçambique quando Samora Machel foi presidente e na África do Sul, quando Nelson Mandela estava na presidência. Com 29 anos, foi ministra da Educação, num país então com 97% de analfabetos.
Graça pediu para esquecerem que é negra, africana e de outras identidades suas. "Sou um ser humano como todos", disse. Contou algumas passagens de sua vida, comentou sobre os seres humanos que acumulam demais por ganância e egoísmo, deixando um mundo desigual, injusto e pessoas sem direitos essenciais.
Quando jovem, aos 25 anos, Graça juntou-se à Frente pela Libertação de Moçambique como guerrilheira, ao lado de Samora Machel, primeiro presidente de Moçambique, em 1975, que faleceu em um acidente aéreo suspeito. Hoje, experiente, aos 73 anos, depois de ter sido esposa de Nelson Mandela, segue com seu ativismo social, na defesa da dignidade humana e, em especial, na luta pelos direitos das mulheres.
Graça propõe movimentos sociais pacíficos, exercício consciente e democrático do voto e que as pessoas não se conectem demais nos meios eletrônicos, isolando-se e perdendo a oportunidade de contato humano ela. Ela propõe educação, escolas e universidades livres e democráticas e pede que os pagadores de impostos tenham o maior cuidado ao escolher seus líderes políticos, para que eles apliquem o suado dinheiro da população em investimentos com saúde, segurança, educação e outras atividades que beneficiem a população.
Com palavras simples, raciocínios claros, ideias generosas e com a serenidade e a sabedoria que só o tempo acrescenta, Graça segue passando suas inspiradoras mensagens para o mundo, depois de décadas de trabalho pelo próximo, dos merecidos reconhecimentos nacional e internacional e da crença inabalável em pessoas, mundo e futuro melhores.
É muita coisa a colaboração de Graça e o planeta necessita mesmo de líderes como ela, que propõe mudanças sociais sem violência, avanços para a dignidade humana e mais igualdade, alimentos e justiça para todos. Tolerância e respeito ao próximo devem superar as diferenças, os sentimentos nacionalistas exacerbados e a mania milenar que o ser humano tem de se achar melhor ou superior aos outros, mesmo sabendo da temporariedade da vida e do poder.
Para Graça o poder deve ser exercido com humildade, sensibilidade social e o homem público deve servir ao bem comum e à população, como, aliás, fizeram Samora Machel e Nelson Mandela, com quem ela conviveu durante muitos anos, auxiliando-os na missão de governar bem.
 

Lançamentos

  • Política da Pessoa com Deficiência no Brasil: percorrendo o labirinto (Lumens Editora), de Jorge Amaro de Souza Borges, servidor da Faders e atual secretário de Meio Ambiente de Mostardas, fala dos processos de formação da agenda da política da pessoa com deficiência no Brasil, onde temos 45 milhões com alguma deficiência. A obra resultou de pesquisa de doutorado na Ufrgs.
  • O Retorno de Bennu (Ateliê Editorial, 178 páginas), do consagrado poeta e contista cearense Majela Colares, traz poemas, aforismo e apotegmas, frutos maduros de vivências várias. Um deles: "Aqui estou em sintonia com o universo- em meu cubículo existencial- em forma de silêncio... Ah, o universo, esta noite, refugiou-se em mim, com todos os seus mistérios".
  • O Mapa da República (Libretos, 68 páginas) é o décimo livro da jornalista e escritora Susana Vernieri, Prêmio Açorianos - Conto por As grades do céu (Libretos, 2009). A partir da boêmia Cidade Baixa, a autora mescla manifestações de 2013 no Brasil, com o colorido dos personagens reais ou idealizados da ficção. Ilustrações de Pena Cabreira.

A propósito...

A visita, as palavras e o exemplo de Graça Machel têm tudo a ver com o espírito do Fronteiras do Pensamento e vêm em muito boa hora para nos inspirar nesses momentos federais cruciais pelos quais estamos passando. Não é fácil o relacionamento humano, nunca foi, mas se não entendermos que precisamos um mínimo de afinação para nossa orquestra social, aí vamos atravessar o samba de novo nesse Patropi. Voto, democracia, humildade, servir ao bem público (e não se servir dele), promover movimentos sociais ordeiros, pacíficos e consequentes, disso tudo precisamos. Graça nos relembra dessas coisas, nos lembra que somos iguais, humanos e que é melhor buscar o melhor.
COMENTAR | CORRIGIR
Comentários
Seja o primeiro a comentar esta notícia