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Porto Alegre, quarta-feira, 28 de novembro de 2018.

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Edição impressa de 28/11/2018. Alterada em 28/11 às 01h00min

Peça Bailei na curva comemora 35 anos com sessões nesta semana em Porto Alegre

Espetáculo retrata diferentes realidades e como estudantes enfrentaram o governo militar

Espetáculo retrata diferentes realidades e como estudantes enfrentaram o governo militar


JÉSSICA BARBOSA/DIVULGAÇÃO/JC
Frederico Engel
Relatos de outra época, mas que permanecem atuais e devem - sempre - ser lembrados. Já se passaram 35 anos desde a estreia de Bailei na curva, peça clássica do teatro gaúcho que sobe ao palco para temporada comemorativa no Centro Histórico-Cultural Santa Casa, desta quarta-feira (28) a domingo (2), às 20h, com ingressos no valor de R$ 60,00.
Uma Porto Alegre diferente, que contava, ainda, com cinemas de rua e brincadeiras como trocas de figurinhas, gibis e revistas em parques e praças da cidade. Neste ambiente, a manhã de 1 de abril de 1964 mudou o panorama da cidade e do País. Pela visão de sete crianças, a plateia acompanha como aquela data influenciou na vivência e na memória das pessoas.
Embora se refira aos acontecimentos dos anos 1960, Bailei na curva é de 1983. O espetáculo retrata diferentes realidades, desde os empresários e classes humildes a estudantes, e como estes enfrentaram o governo militar. A narrativa inclui desde brincadeiras de colégio, aulas de educação sexual, matinês no cinema, reuniões dançantes nas garagens e namoros no carro. Não faltam, claro, os jovens que escolheram o caminho da guerrilha e clandestinidade em contraste à outra juventude, aquela que abraça as drogas e cai na estrada. Os adultos não são esquecidos: há aqueles que optam pelas conquistas individuais na negação do passado, em oposição com aqueles que lutam para resgatar as memórias dos anos de chumbo.
No centro deste mundo está Julio Conte. Diretor e um dos roteiristas da peça, o psicanalista conta que Bailei na curva faz uso de experiências pessoais daqueles que a conceberam. "Assisti ao meu vizinho ser preso em 1 de abril. Os colégios não tiveram aulas, e muitas pessoas andavam armadas no dia", relembra Conte.
Esses detalhes de roteiro permanecem, mas outros fatos políticos como a campanha Diretas Já foram sendo acrescidos à história, aos poucos. Ainda ocorreriam o processo de redemocratização e a morte do nunca empossado presidente Tancredo Neves. "Acrescentamos acontecimentos e não esquecemos de casos de corrupção, nem de figuras influentes dos últimos tempos, como FHC, Collor e Lula, estes incluídos posteriormente. Quem escreve a peça não sou eu, o Brasil toma conta disso por mim", relata Conte.
Com os 35 anos que distanciam a primeira apresentação até os dias de hoje, não é somente o espetáculo que mudou: a plateia também. E pode ter aumentado. "São três gerações que nos acompanham. Aqueles que levaram filhos na década de 1980 podem, agora, levar os netos, que não vivenciaram o processo da ditadura", afirma o diretor.
E como que a montagem aborda aquele período para pessoas que nem tinham nascido ainda? As cenas, por si só, como defende Conte, servem como contextualização dos anos de chumbo. "A montagem da época é sutil, não há panfletagem." Para ele, as pessoas se veem envolvidas com a peça pelo caráter divertido e ingênuo, e se comovem quando percebem que a história contada no palco, que aparenta ser ficcional, é semelhante à sua própria. "O espetáculo é uma armadilha. Penso que esta é uma função do teatro", comenta.
Nesta identificação, Conte lembra de quando Bailei passava pela vigilância de censores do governo - a estratégia era criar uma fala exagerada "forçando", assim, o corte do texto - quando, na verdade, nem estava no roteiro. Conte relembra de dois censores que, no fim, se emocionaram com a história. "Uma censora do Rio de Janeiro se enxergou em uma personagem. Ela tinha um irmão desaparecido e a mãe era costureira, semelhante a um personagem da peça."
Nesta semana, o palco escolhido para a celebração dos 35 anos é o do Centro Histórico Cultural Santa Casa. O local é especial para Conte. "Como minha formação de psicanalista, carreira que sigo, estudei na Santa Casa e usava de algumas aulas chatas para escrever parte do roteiro nelas", brinca o diretor.
Bailei na curva mudou a vida do diretor e psicanalista por completo. "É a criatura que cria o criador, e não ao contrário. Não tenho controle sobre o espetáculo: ele vai se transformando, e eu vou seguindo. Eu sou moldado e só existo em função do Bailei", completa.
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Espetáculo retrata diferentes realidades e como estudantes enfrentaram o governo militar

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Frederico Engel
Relatos de outra época, mas que permanecem atuais e devem - sempre - ser lembrados. Já se passaram 35 anos desde a estreia de Bailei na curva, peça clássica do teatro gaúcho que sobe ao palco para temporada comemorativa no Centro Histórico-Cultural Santa Casa, desta quarta-feira (28) a domingo (2), às 20h, com ingressos no valor de R$ 60,00.
Uma Porto Alegre diferente, que contava, ainda, com cinemas de rua e brincadeiras como trocas de figurinhas, gibis e revistas em parques e praças da cidade. Neste ambiente, a manhã de 1 de abril de 1964 mudou o panorama da cidade e do País. Pela visão de sete crianças, a plateia acompanha como aquela data influenciou na vivência e na memória das pessoas.
Embora se refira aos acontecimentos dos anos 1960, Bailei na curva é de 1983. O espetáculo retrata diferentes realidades, desde os empresários e classes humildes a estudantes, e como estes enfrentaram o governo militar. A narrativa inclui desde brincadeiras de colégio, aulas de educação sexual, matinês no cinema, reuniões dançantes nas garagens e namoros no carro. Não faltam, claro, os jovens que escolheram o caminho da guerrilha e clandestinidade em contraste à outra juventude, aquela que abraça as drogas e cai na estrada. Os adultos não são esquecidos: há aqueles que optam pelas conquistas individuais na negação do passado, em oposição com aqueles que lutam para resgatar as memórias dos anos de chumbo.
No centro deste mundo está Julio Conte. Diretor e um dos roteiristas da peça, o psicanalista conta que Bailei na curva faz uso de experiências pessoais daqueles que a conceberam. "Assisti ao meu vizinho ser preso em 1 de abril. Os colégios não tiveram aulas, e muitas pessoas andavam armadas no dia", relembra Conte.
Esses detalhes de roteiro permanecem, mas outros fatos políticos como a campanha Diretas Já foram sendo acrescidos à história, aos poucos. Ainda ocorreriam o processo de redemocratização e a morte do nunca empossado presidente Tancredo Neves. "Acrescentamos acontecimentos e não esquecemos de casos de corrupção, nem de figuras influentes dos últimos tempos, como FHC, Collor e Lula, estes incluídos posteriormente. Quem escreve a peça não sou eu, o Brasil toma conta disso por mim", relata Conte.
Com os 35 anos que distanciam a primeira apresentação até os dias de hoje, não é somente o espetáculo que mudou: a plateia também. E pode ter aumentado. "São três gerações que nos acompanham. Aqueles que levaram filhos na década de 1980 podem, agora, levar os netos, que não vivenciaram o processo da ditadura", afirma o diretor.
E como que a montagem aborda aquele período para pessoas que nem tinham nascido ainda? As cenas, por si só, como defende Conte, servem como contextualização dos anos de chumbo. "A montagem da época é sutil, não há panfletagem." Para ele, as pessoas se veem envolvidas com a peça pelo caráter divertido e ingênuo, e se comovem quando percebem que a história contada no palco, que aparenta ser ficcional, é semelhante à sua própria. "O espetáculo é uma armadilha. Penso que esta é uma função do teatro", comenta.
Nesta identificação, Conte lembra de quando Bailei passava pela vigilância de censores do governo - a estratégia era criar uma fala exagerada "forçando", assim, o corte do texto - quando, na verdade, nem estava no roteiro. Conte relembra de dois censores que, no fim, se emocionaram com a história. "Uma censora do Rio de Janeiro se enxergou em uma personagem. Ela tinha um irmão desaparecido e a mãe era costureira, semelhante a um personagem da peça."
Nesta semana, o palco escolhido para a celebração dos 35 anos é o do Centro Histórico Cultural Santa Casa. O local é especial para Conte. "Como minha formação de psicanalista, carreira que sigo, estudei na Santa Casa e usava de algumas aulas chatas para escrever parte do roteiro nelas", brinca o diretor.
Bailei na curva mudou a vida do diretor e psicanalista por completo. "É a criatura que cria o criador, e não ao contrário. Não tenho controle sobre o espetáculo: ele vai se transformando, e eu vou seguindo. Eu sou moldado e só existo em função do Bailei", completa.
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