Porto Alegre, sexta-feira, 13 de maio de 2022.
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Teatro

- Publicada em 12/05/2022 às 18h26min.

O retorno do Corpo: lírico e épico, sempre ótimo

Antonio Hohlfeldt
Assim como, logo em março, o grupo coreográfico da carioca Deborah Colker voltou a Porto Alegre trazendo um novo espetáculo, o mineiro Grupo Corpo esteve na capital dos gaúchos para reencontrar-se com seu (extremamente) fiel público, trazendo, como faz habitualmente, uma obra nova e um remake.
Assim como, logo em março, o grupo coreográfico da carioca Deborah Colker voltou a Porto Alegre trazendo um novo espetáculo, o mineiro Grupo Corpo esteve na capital dos gaúchos para reencontrar-se com seu (extremamente) fiel público, trazendo, como faz habitualmente, uma obra nova e um remake.
A estreia foi a peça intitulada Primavera, de 2021, com trilha sonora do grupo Palavra Cantada. É uma obra que faz uma espécie de revisão e de síntese dos diferentes momentos do grupo. É evidente a preocupação de não colocar muita gente em cena. Então, temos solos, duos, às vezes 3 ou 4 bailarinos, não mais que isso. Para evitar que um eventual vazio se instalasse no palco, chegou-se a uma solução muito simples, mas efetiva: uma câmara de vídeo com lentes de aproximação colocadas ao máximo captava os movimentos dos bailarinos: na verdade, captava como que chispas ou chamas dos figurinos esvoaçantes dos intérpretes, projetando-as em seguida, através de outra câmera, numa grande tela colocada ao fundo do palco. Com isso, estava criado um contraste de enorme dinamicidade entre, digamos, um primeiro plano, com os bailarinos fisicamente presentes e, ao fundo, suas "marcas" imprecisas, mas movimentadas e dinâmicas, esvoaçando pelo espaço.
A trilha sonora que inspira a coreografia evidencia aquilo que vem se tornando uma tendência cada vez mais forte e decisiva na obra do Grupo Corpo: a miscigenação da brasilidade, que vai das sonoridades e ritmos aos movimentos propostos, aí passando pelos figurinos e especialmente pelas sapatilhas, sempre muito leves e que às vezes se tornam inclusive desapercebidas.
A esta primeira peça, leve e alegre, cujo título sugere esta espécie de compensação por todos os dois anos tenebrosos de inverno da Covid por todos enfrentados, com 36 minutos de duração, segue-se uma obra de enorme contraste pela força que evidencia, Gira, de 2017, com trilha sonora do grupo Metá Metá.
Esta segunda obra, com 40 minutos de duração, nos traz o conjunto total do grupo. Este contraste é evidente desde logo (era bem antes da Covid 19...). Aqui, todos os bailarinos do elenco (se não contei errado, são 19) estão permanentemente em cena, ainda que nem sempre em movimento. Quando fora, e para que não chamem a atenção do espectador sem necessidade, distraindo-o do principal, os bailarinos colocam véus negros sobre seus corpos. Combinando com a iluminação relativamente reservada, quase sempre em tons alaranjados, os bailarinos desaparecem até o momento de retornarem à cena. Solução técnica inteligente, é claro, é também alusão simbólica. "Gira" é referência à pomba gira da umbanda, espécie de mensageira dos deuses para os homens. Mas se caracteriza pela sensualidade e pela independência em reação às figuras femininas. Surgida nos rituais umbandistas do início do século XX, ela traduz a modernização da umbanda no país. Caracterizada pela cor vermelha, ela também veste o laranja forte, que no espetáculo aparece justamente como a cor dominante de toda a iluminação, inclusive para sugerir certa dramaticidade à coreografia.
Todos os bailarinos estão com os torsos desnudos. Vestes saiotes brancos, soltos. A coreografia quebra a linha mais ou menos tradicional das criações do grupo, porque é ligeira, muito forte e, de certo modo, se aproxima muito do movimento ritual do terreiro. Neste sentido, Gira transforma-se num ritual e imagino para aqueles seguidores das religiões de matriz africana, a obra deve ser profundamente emocionante.
Em síntese, tivemos um espetáculo contrastante e, ao mesmo tempo, complementar. Não é a primeira vez que isso acontece com o Corpo, diga-se de passagem. Mas neste caso, ficou muito evidenciado: contraste que se coloca nas características das coreografias, na linha dos temas - um mais lírico, o primeiro; o outro mais épico, o segundo. Mas sempre ótimos, em ambos os casos. E, por fim, o contraste entre a concepção das coreografias, a primeira evidenciando a contenção dos bailarinos em cena (de que o coreógrafo tira excelente proveito, contudo), e a segunda explorando ao máximo todas as potencialidades extraordinárias da ate da dança por parte dos bailarinos do Corpo.
Foi um reencontro emocionado e emocionante, creio que tanto para nós, espectadores, quanto para eles, fortemente ovacionados ao final do espetáculo. Por fim, parabéns à coragem do produtor Carlos Branco em bancar esta temporada na cidade e num teatro tão grande e em mais do que uma récita. É preciso acreditar. Ele acreditou e deu certo.
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