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Porto Alegre, sexta-feira, 28 de agosto de 2020.
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Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sexta-feira, 28 de agosto de 2020.
Notícia da edição impressa de 28/08/2020.
Alterada em 28/08 às 03h00min

Mais que justa homenagem a Lima Duarte

Acho que, muitas vezes, homenagear alguém já falecido é uma importante maneira de revitalizar sua herança, sobretudo se pensarmos em cientistas ou artistas. Mas mesmo nestes casos, se as homenagens puderem ocorrer ainda em vida, certamente será mais importante, ao menos, para a pessoa homenageada. É o caso de Ariclenes Venâncio Martins, celebrizado artisticamente como Lima Duarte, e que mereceu neste mês a homenagem da Pucrs, através de seu Mérito Cultural, decidida anualmente pela universidade. A primeira homenageada, mais do que justamente, foi a atriz Fernanda Montenegro, há dois anos. No ano passado, foi a vez de Maria Bethânia. Em 2020, chegou o momento de Lima Duarte.
Acho que, muitas vezes, homenagear alguém já falecido é uma importante maneira de revitalizar sua herança, sobretudo se pensarmos em cientistas ou artistas. Mas mesmo nestes casos, se as homenagens puderem ocorrer ainda em vida, certamente será mais importante, ao menos, para a pessoa homenageada. É o caso de Ariclenes Venâncio Martins, celebrizado artisticamente como Lima Duarte, e que mereceu neste mês a homenagem da Pucrs, através de seu Mérito Cultural, decidida anualmente pela universidade. A primeira homenageada, mais do que justamente, foi a atriz Fernanda Montenegro, há dois anos. No ano passado, foi a vez de Maria Bethânia. Em 2020, chegou o momento de Lima Duarte.
Devido à pandemia, não houve nenhuma atividade ao vivo. Ou melhor, houve, sim: o professor Ricardo Barberena, que coordena o projeto, foi até São Paulo, onde, com as devidas precauções (Lima Duarte tem 90 anos de idade e, ao lado de Fernanda Montenegro, deve ser dos nossos atores e atrizes mais longevos), fez uma longa e emocionada entrevista com o ator, que aproveitou mostrar alguns aspectos de sua carreira e de suas inquestionáveis qualidades como intérprete. Passei duas horas e pouco ao pé do computador, assistindo à conversa, que rememorou desde a saída do jovem interiorano (de Minas Gerais, um lugar chamado Sacramento - alguém sabe onde fica?) para São Paulo. Ouvinte de rádio, queria tornar-se locutor. Fez teste e foi um desastre. Mas acabou ficando de contrarregra e, claro, mais próximo de seu objetivo, chegou um momento em que o salto foi dado.
Lima Duarte, na televisão, teve a oportunidade de viver algumas das personagens mais marcantes da telinha, graças a uma combinação de oportunidade e competência: Sinhosinho Malta, em Roque Santeiro; Sassá Mutema, de O salvador da pátria, dentre outros. Mas muitas das figuras celebrizadas na telinha assim o foram porque Lima Duarte sempre encontrava "um modo" de individualizar sua figura, como ocorreu com o Zeca Diabo, de O bem-amado, de Dias Gomes, dando ao jagunço uma voz fininha que destoava por completo do que se esperaria de um assassino.
Ator e diretor de telenovela, Lima Duarte também fez alguns filmes memoráveis. Na entrevista, ele relembrou Sargento Getúlio, personagem do mesmo nome do romance de João Ubaldo Ribeiro, que em 1983 Hermano Penna levou para o cinema e ganhou o Festival de Gramado. Mas Lima já vivera outras figuras importantes, como em O jogo da vida (1976), baseado nos contos de João Antonio, ou a principal figura masculina - o pai - de Os sete gatinhos, baseado na peça homônima de Nelson Rodrigues. O de que mais gosto, contudo, é a figura de Osias, interpretado no filme Eu, tu, eles, de Andrucha Waddington e estrelado por Regina Casé, em que vive um homem apaixonado mas traído pela mulher, em pleno sertão, numa das narrativas mais emocionantes que o cinema brasileiro já realizou, com extraordinária trilha sonora de Gilberto Gil.
É curioso que, embora todo o trabalho extraordinário deste homem, quando vamos procurar seu nome nas redes sociais, pouco achamos. Parece que ele se apaga. Isso só faz aumentar o acerto da Pucrs e dos coordenadores do prêmio Mérito Cultural ao escolherem Lima Duarte como o destaque de 2020. Ele tem uma excelência artística, uma coerência ética, um comprometimento com a Arte e uma profunda empatia humana. Isso fica evidente nos dois momentos por ele escolhidos para ilustrar a homenagem. O primeiro foi um monólogo escrito por Chico de Assis, há muitos anos, como ele revelou, falando a respeito da atividade do ator, uma espécie de profissão de fé. O segundo foi sua participação no curta A volta para casa, a respeito de um homem velho, que vive num asilo, mas que em toda Páscoa faz uma re-visita à antiga casa em que viveu, como uma espécie de paixão às avessas, acompanhado de um jovem companheiro que, depois, o leva a almoçar em sua casa. Aqui, é bonito ver que o consagrado Lima Duarte aceita integrar a equipe quase anônima de um curta. Mais, ele participa de uma história sobre velhice, desafio cada vez mais presente na sociedade brasileira.
Por tudo isso, em 19 de agosto, nos trouxe uma noite ímpar. Quem quiser conhecer o material, pode visitá-lo na página da Pucrs ou no link do YouTube. Vale a pena.
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Antônio Hohlfeldt
Antônio Hohlfeldt
Um dos principais críticos de teatro do Brasil, Antonio Hohlfeldt comenta os espetáculos em cartaz no Rio Grande do Sul, analisando festivais e observando a evolução de grupos teatrais gaúchos e nacionais. Todas as sextas-feiras no Jornal do Comércio.