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Porto Alegre, sexta-feira, 21 de agosto de 2020.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sexta-feira, 21 de agosto de 2020.
Notícia da edição impressa de 21/08/2020.
Alterada em 21/08 às 03h00min

Oficina salvou Oswald de Andrade do ostracismo

Até o ano de 1967, Oswald de Andrade era conhecido, principalmente, como autor de romances e respeitado mais como uma das lideranças da chamada Semana de Arte Moderna, ocorrida em 1922, em São Paulo, na qual ele despontou como um poeta capaz de desafiar os cânones simbolistas e românticos.
Até o ano de 1967, Oswald de Andrade era conhecido, principalmente, como autor de romances e respeitado mais como uma das lideranças da chamada Semana de Arte Moderna, ocorrida em 1922, em São Paulo, na qual ele despontou como um poeta capaz de desafiar os cânones simbolistas e românticos.
Mas em 1967, e coincidentemente pouco antes do golpe de estado dentro do golpe de estado, com o AI-5, de dezembro de 1968, o diretor José Celso Martinez Corrêa estreou, pela troupe do Teatro Oficina, também em São Paulo, a peça O rei da vela, de Oswald de Andrade.
Foi de certo modo a partir de então que se descobriu a dramaturgia de Oswald de Andrade, composta fundamentalmente de três textos, A morta, de 1937, O rei da vela, de 1933, e O homem e o cavalo, de 1934. As peças chegaram a ser publicadas, e houve algumas tentativas de encenação dos textos, mas com péssimos resultados junto ao pequeno público que chegou a assistir a algum dos trabalhos e sobretudo junto à polícia, que sempre proibiu seus textos, considerados "pornográficos".
O Teatro Oficina já tinha certa tradição e algum renome, quando concretizou a encenação de O rei da vela. Um de seus principais referenciais era o diretor Eugênio Kusnet, que cheguei a entrevistar e de quem me tornei relativamente próximo. Ele estudara nada mais nada menos que com Constantin Stanislavski, o famoso encenador russo, criador do Teatro de Moscou. A ênfase daqueles espetáculos era o realismo, ainda que Kusnet não fosse dogmático, distanciando-se bastante daquelas obrigatoriedades a que o "realismo socialista" da década de 1935 obrigaria os artistas soviéticos, dali em diante, liderados pelo também dramaturgo Maxim Gorki. Curiosamente, foi de Gorki a peça que "revelou" o Oficina, quando estreou Pequenos burgueses (1963), apresentada no auge dos grandes debates que o Brasil viveu no início dos anos 1960. Logo depois, viria Galileu Galilei, de Bertolt Brecht, já então sob a ditadura. A encenação, mais uma vez, aproximou-se da realidade imediata brasileira, quando cortou duas falas finais do texto para ficar apenas com a referência de Galilei: "pobre do país que necessita de heróis", evidente alusão à disputa ideológica de então e que redundara na prisão de políticos, intelectuais e professores universitários.
Daí, o Oficina dá um giro de 360 graus e estreia O rei da vela, que eu acabei assistindo no Rio de Janeiro, num verão escaldante, com a presença de ninguém mais que o dramaturgo carioca Nelson Rodrigues. Não sei se combinado ou casual, Nelson, no final do segundo ato, passou a xingar os atores, em especial Ítala Nandi, que revidou, trocando ambos uma série de palavrões, até que a cortina baixou. No retorno da encenação, Nelson Rodrigues havia se retirado do teatro.
José Celso propôs uma leitura crítica da peça de Oswald de Andrade, escrita nos alvoreceres do sistema capitalista brasileiro e às vésperas do Estado Novo. Do mesmo modo, em 1967, estávamos às vésperas do AI-5, assim como o golpe de 1964 abrira caminho para uma nova etapa do desenvolvimento do capitalismo nacional.
O enredo de O rei da vela refere-se a um dono de negócios financeiros escusos, pois empresta dinheiro a juros escorchantes e logo se prepara para executar seus devedores, apropriando-se de seus bens. Seu apelido de "rei da vela" faz alusão ao final da peça quando, moribundo, Abelardo transfere seu dinheiro e sua herança - seu negócio, casando a filha com seu secretário Abelardo II. Ao invés de "passar o bastão", Abelardo entrega a Abelardo "uma vela", único objeto que ainda se consegue de graça, no entendimento do personagem.
Oswald de Andrade faz uma correta leitura crítica do sistema capitalista de exploração: por isso o mesmo nome dos dois personagens e o casamento da filha, Heloísa de Lesbos. Mais que isso, objetivou sua crítica no principal foco de desenvolvimento capitalista, que é o financeiro.
Quanto à encenação de José Celso, tornou-se um acontecimento histórico, recentemente rememorado, inclusive com a remontagem que foi apresentada aqui, durante o Porto Alegre em Cena. Jamais um dramaturgo ficou devendo tanto a um encenador quanto Oswald de Andrade a José Celso Martinez Corrêa, com toda a certeza.
 
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Antônio Hohlfeldt
Antônio Hohlfeldt
Um dos principais críticos de teatro do Brasil, Antonio Hohlfeldt comenta os espetáculos em cartaz no Rio Grande do Sul, analisando festivais e observando a evolução de grupos teatrais gaúchos e nacionais. Todas as sextas-feiras no Jornal do Comércio.