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Porto Alegre, sexta-feira, 31 de julho de 2020.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sexta-feira, 31 de julho de 2020.
Notícia da edição impressa de 31/07/2020.
Alterada em 31/07 às 03h00min

O nascimento da dramaturgia brasileira

No dia 13 de março de 1838, Domingos José Gonçalves de Magalhães tinha sua tragédia Antonio José ou o poeta e a Inquisição estreada no Rio de Janeiro. Ele já era poeta reconhecido - depois seria conhecido como o fundador do Romantismo brasileiro - e segundo o figurino romântico, deveriam os escritores experimentar os diferentes gêneros literários, buscando a constituição da nacionalidade literária. Gonçalves de Magalhães escreveu duas tragédias, mas ficaria mais conhecido como poeta. Suas obras dramáticas, hoje, são ilegíveis e irrepresentáveis.
No dia 13 de março de 1838, Domingos José Gonçalves de Magalhães tinha sua tragédia Antonio José ou o poeta e a Inquisição estreada no Rio de Janeiro. Ele já era poeta reconhecido - depois seria conhecido como o fundador do Romantismo brasileiro - e segundo o figurino romântico, deveriam os escritores experimentar os diferentes gêneros literários, buscando a constituição da nacionalidade literária. Gonçalves de Magalhães escreveu duas tragédias, mas ficaria mais conhecido como poeta. Suas obras dramáticas, hoje, são ilegíveis e irrepresentáveis.
No mesmo ano de 1838, mas em 4 de outubro, Luís Carlos Martins Pena assistia à estreia de sua primeira comédia, O juiz de paz da roça, na mesma cidade do Rio de Janeiro. Suas curtas peças (não mais que um ato, em geral), ocorriam quase sempre no proscênio e aconteciam enquanto o público entrava e se organizava dentro do teatro: as cadeiras eram soltas, havia algazarra, pouca gente prestava atenção no que estava ocorrendo. O grande espetáculo, segundo a moda, era, enfim, o drama ou a tragédia.
Mas Martins Pena venceu, sobreviveu e suas peças anda hoje são transformadas em espetáculos que deliciam as plateias. Qual o segredo do comediógrafo?
Órfão de pai com um ano de idade; órfão de mãe aos 10 anos; criado por um tutor mas, na verdade, educado por professores contratados, Martins Pena estava fadado a ser um anônimo na Côrte: "tinha estatura baixa, compleição débil [viria a morrer aos 38 anos de idade!], o olhar observador e penetrante e uma presença vivamente simpática", segundo um sobrinho seu, retrato da época.
Suas peças foram escritas basicamente entre 1833 e 1843, quando veio a morrer, publicadas entre 1839 e 1845. As mais conhecidas e ainda hoje representadas são a citada O juiz de paz da roça (1833), Os dous ou o inglês maquinista (1842), O Judas em sábado de Aleluia (1844), Os irmãos das almas (1844), O namorador ou a noite de São João (1844), O noviço (1845), As casadas solteiras (1845), Quem casa, quer casa (1845), As desgraças de uma criança (1845) e O jogo de prendas (inédita em vida do autor).
Uma simples observação aos títulos nos indicam que os temas escolhidos pelo comediógrafo são basicamente dois: a vida cotidiana do Brasil recém-saído da condição colonial, mas ainda muito distante da vida urbana; e as novas instituições administrativa e judiciária. Isso faz uma espécie de síntese do nascente "ser brasileiro" que ainda somos hoje em dia: a corrupção (em O juiz de paz na roça), o sentimento de inferioridade (em contraste com o ufanismo nacional), o boato, as contradições sociais. Junte-se a isso um diálogo leve, ágil, situações hilárias - em situadas e bem desenvolvidas - e um linguajar eminentemente oral e brasileiro, inclusive com as expressões cotidianas, e pode-se entender porque sua obra subsistiu e a de seus contemporâneos, não, nem mesmo a do grande José de Alencar - que no romance foi um gigante - ou de outros escritores de grande envergadura, como o próprio Machado de Assis, cuja dramaturgia é, evidentemente, menor.
Em Um juiz de paz da roça, temos o tema da corrupção: o juiz "vende" suas sentenças a quem melhor lhe presentear: porcos, galinhas, farinha, etc. Em Quem casa, quer casa, a sátira às jovens solteiras ávidas por encontrarem um "bom partido" mas sem terem para onde ir, eis que na época, como hoje em dia, escasseavam as moradias disponíveis. Em O Judas em sábado de Aleluia, a partir da prática popular, discute-se o direito que os pais teriam - ou não - de decidir sobre o futuro de suas filhas, em especial seus casamentos (Martins Pena, neste sentido, se aproxima de Jean-Baptiste Poquelin e não é por um acaso que é reconhecido como o "Molière brasileiro").
O Brasil está em formação, constituindo sua identidade, e Martins Pena ao fixar e satirizar alguns tipos de então, nos ajuda a entender por que, hoje em dia, somos assim como somos. Vamos aprofundar um pouco mais esta questão na semana que vem.
 
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