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Porto Alegre, sábado, 18 de julho de 2020.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sábado, 18 de julho de 2020.
Notícia da edição impressa de 17/07/2020.
Alterada em 17/07 às 03h00min

A nova agenda virtual das artes cênicas

A pandemia que nos invadiu e ocupou decretou a necessidade de a relação entre o artista e seu público se modificar profunda e essencialmente. Nasceram os espetáculos digitais, que expandiram as potencialidades dos vídeos e dos documentários. Hoje, proibidos que estamos de nos reunir nos chamados templos da arte, estamos condenados ou obrigados a assistir a nossos artistas mais queridos através de performances que, se estão correndo ao vivo (lives), acontecem em espaços que, na verdade, se encontram fechados e liberados apenas para tais registros, ou, pior, são performances que ocorrem em lugares os mais disparatados.
A pandemia que nos invadiu e ocupou decretou a necessidade de a relação entre o artista e seu público se modificar profunda e essencialmente. Nasceram os espetáculos digitais, que expandiram as potencialidades dos vídeos e dos documentários. Hoje, proibidos que estamos de nos reunir nos chamados templos da arte, estamos condenados ou obrigados a assistir a nossos artistas mais queridos através de performances que, se estão correndo ao vivo (lives), acontecem em espaços que, na verdade, se encontram fechados e liberados apenas para tais registros, ou, pior, são performances que ocorrem em lugares os mais disparatados.
Durante a pandemia europeia, vimos cantores líricos se apresentarem em sacadas de seus apartamentos; tecladistas e outros musicistas mostrarem sua arte a partir de terraços de seus prédios de moradia. Não se tratava exatamente de novidade: já encontrávamos vídeos de artistas que, inusitada e inesperadamente, faziam seus espetáculos em espaços de shopping centers, estações de trem ou espaços de aeroportos, sensibilizando às mais diferentes plateias.
Agora, contudo, nós não fazemos porque queremos. Fazemos porque precisamos, fazemos porque são as únicas alternativas que se nos apresentam. Na Europa, tudo começou com as grandes instituições, tipo a Filarmônica de Berlim ou a Ópera de Paris. Aqui no Brasil, não foram os teatros, mas instituições que abriram editais com a preocupação de garantirem um mínimo de sobrevivência aos artistas, mediante o pagamento de cachês reduzidos, mas minimamente suficientes, enquanto não chegava a lei Aldir Blanc (quando será, de fato, paga?). Começamos com o Itaú Cultural e logo depois o Sesc (#EmCasacomSesc), enquanto alguns teatros privados preparavam e anunciavam suas pautas.
Gradualmente, instituições locais também se mobilizaram. A Assembleia Legislativa lançou um edital, a Fundação Theatro São Pedro abriu atividades a partir de sua semana de 162 anos de aniversário, inclusive articulando programação com a Assembleia Legislativa e a Câmara de Vereadores de Porto Alegre, e o DAD - Departamento de Arte Dramática da Ufrgs, que tradicionalmente promove em julho a mostra de trabalhos de seus alunos, vem desenvolvendo o projeto em formato digital (www.ufrgs.br/teatropesquisaextensao), inclusive para o Facebook.
No Rio de Janeiro, o Teatro PetroRio das Artes promove espetáculos e debates (no Instagram, @teatropetroriodasartes) e o Teatro Petra Gold, este com ingressos pagos (www.teatropetragold.com.br), estão oferecendo uma boa agenda de espetáculos.
Aqui no Sul, o Banrisul lançou um edital para shows virtuais, que teve alguns recuos, mas deve ser confirmado. E grupos ou artistas particulares estão também tomando suas iniciativas. É o caso de Cléo de Paris (Instagram @cleodeparis), que promove espetáculos semanais que, depois, ficam disponíveis no Vimeo da atriz (https://vimeo.com/user88397140), sob a denominação geral de Desamparos.
Já a Rayuela Produtora Cultural está apresentando no Instagram a série Scary stories RS, com narrativas de terror (@ scarystoriesrs) que se desdobram a cada semana, mas que depois também ficam à disposição dos interessados. A Aliança Francesa lançou Fauno, no início deste mês de julho, do GrupoJogo. Este espetáculo já foi montado anteriormente na cidade, mas ganhou agora versão especificamente pensada para o suporte digital. Esta programação se amplia com os espetáculos de sexta-feira à noite, no Theatro São Pedro, que já passou pelo Guri de Uruguaiana, inclui dança e vai trazer mais trabalhos de artes cênicas, ao lado de shows musicais.
Do que se tem visto, se pode dizer: estamos à procura de linguagens específicas, que não sejam nem teatro filmado, nem artes visuais com algumas passagens de dramatizações, seja em espaços fechados (como no espetáculo do DAD - Sobrevivo - Antes que o baile acabe), seja em abertos, como os trabalhos de Cléo. Esta observação, diga-se de passagem, não é um juízo de valor desabonador, pelo contrário: uma constatação que evidencia o enorme caminho em aberto que temos pela frente, e que certamente a crítica que se dedica às artes deverá, de agora em diante, acompanhar com cuidado, no mínimo, por dois motivos: é o que teremos, daqui para a frente. E, enfim, se esta é uma nova realidade, ela deve ser necessariamente avaliada, discutida e compreendida.
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Antônio Hohlfeldt
Antônio Hohlfeldt
Um dos principais críticos de teatro do Brasil, Antonio Hohlfeldt comenta os espetáculos em cartaz no Rio Grande do Sul, analisando festivais e observando a evolução de grupos teatrais gaúchos e nacionais. Todas as sextas-feiras no Jornal do Comércio.