Corrigir texto

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Porto Alegre, domingo, 19 de julho de 2020.
Nelson Mandela Day.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
domingo, 19 de julho de 2020.
Notícia da edição impressa de 12/06/2020.
Alterada em 12/06 às 03h00min

A vitalidade do melodrama

Pode-se dizer que as origens mais remotas do gênero dramático chamado melodrama residem na comédia nova grega, que passou a abordar enredos que se desenvolviam no interior das casas de família e envolviam seus integrantes: ciúmes, amores traídos, ambições frustradas etc. O fato de se denominar comédia não queria dizer, necessariamente, como entendemos hoje, que fosse obra para rir. Mas a comédia nova grega deixava de se preocupar com deuses e semi-heróis para assestar suas atenções dos pequenos eventos cotidianos.
Pode-se dizer que as origens mais remotas do gênero dramático chamado melodrama residem na comédia nova grega, que passou a abordar enredos que se desenvolviam no interior das casas de família e envolviam seus integrantes: ciúmes, amores traídos, ambições frustradas etc. O fato de se denominar comédia não queria dizer, necessariamente, como entendemos hoje, que fosse obra para rir. Mas a comédia nova grega deixava de se preocupar com deuses e semi-heróis para assestar suas atenções dos pequenos eventos cotidianos.
Essa tendência vai perdurar ao longo da comédia latina, em autores como Terêncio, por exemplo, que, por isso mesmo, foi preferido a Plauto, pelos homens da igreja. Porque este tipo de peça acabava por se tornar também uma crítica de costumes, indicando, de certo modo, como se devia comportar e os castigos advindos de quem não respeitasse tais regras.
Por isso mesmo, o gênero, em sua evolução histórica, torna-se preferido ao longo da Idade Média, convivendo com a farsas e os autos religiosos, atravessa o classicismo francês, em que perde novamente espaço para os emperucados personagens de Racine e Corneille, mas ganha vitalidade na comédia de Molière.
É o Romantismo, contudo, que vai consagrar o gênero, e com inteira lógica: a ascensão da nova classe social vai-se encontrar, como que num espelho, nas cenas do melodrama, que reflete novas relações sociais e novas preocupações do cotidiano. Schiller se preocupa com o tema; Goethe chega a indicar o modo de se comportar - fisicamente - dos atores em cena; e Victor Hugo, no seu prefácio a Hernani, quando defende o grotesco, indica exatamente o que caracteriza o ser humano: ele é um listo de bondade e maldade, de alegria e de tristeza, de beleza e de grotesco. Eis o drama.
Na Paris do século XIX, o melodrama ganha popularidade sobretudo nos teatros de arrabalde, cujas sessões por vezes chegam a se suceder, ininterruptamente, a partir das 14h, até a última, às 20h. Autores, diretores, atrizes encontram, nestes espetáculos, o modo de se tornarem conhecidos e reconhecidos, consagrando-se.
Alexandre Dumas Filho recria o que talvez seja o conjunto mais efetivo de textos a respeito do chamado "grand monde" e o "demi monde", em que, sob a égide de Luiz Felipe, o dinheiro e a aparência comandam a vida cotidiana. A dama das camélias é a obra de referência (em 2019, tivemos uma encenação no Theatro São Pedro que relembrava este texto). A ópera italiana, como evidenciou Antonio Gramsci, levou o melodrama falado de Paris para os teatros cantados de Roma: nascia a ópera italiana e muitos destes melodramas, inclusive A dama das camélias, receberiam novas roupagens para a interpretação orquestral e das primas donas.
O melodrama simplificou-se através da comédia de costumes, e foi assim que, através de Portugal, chegou ao Brasil. No final do século XIX e nas três primeiras décadas do século XX a comédia de costumes foi gênero amplamente encontrável nos teatros da capital federal, o Rio de Janeiro, com a vantagem que, ainda hoje, nos permite conhecer os meandros da vida citadina da nascente república. Depois, o modernismo acabou por destruí-lo e hoje pouco resta deste gênero que, quando retorna, o faz sob a perspectiva do pastiche ou da paródia, como no caso de textos de Luiz Arthur Nunes/Caio Fernando Abreu (A maldição do vale negro), ou a peça O mistério de Irma Vap, que também revimos em 2019.
Em português, conheço dois bons trabalhos, Melodrama - O gênero e sua permanência, de Ivete Huppes, excelente (Ateliê, 2000), e o português O melodrama - Temas - I (Centro de Literatura Portuguesa, 2006). Em francês, temos o clássico Le mélodrame, de Jean-Marie Thomasseau, já traduzido ao espanhol e ao português (Perspectiva).
Pois é a este gênero, suas experiências dramáticas, reflexões teóricas e atualizações, que se dedica o livro organizado por Paulo Merisio, a quem encontrei numa banca de doutorado, no ano passado. Merisio vem fazendo pesquisas a respeito do tema, ligado à Escola de Teatro da Unirio, coordenando o grupo Sentidos do melodrama. Sua obra - Sentidos do melodrama (7 Letras, 2017) - é extremamente interessante e me valeu ótimas horas de leitura e aprendizado, que repasso ao leitor desta coluna. Enquanto estamos presos em casa, durante a pandemia, podemos aproveitar as horas em que assistiríamos a um espetáculo num de nossos teatros para ler a respeito de gêneros, autores e grupos, garantindo melhor aproveitamento e compreensão. Depois, nos encontramos com as trupes e seus espetáculos, o que, evidentemente, com maior ou menor dificuldade, vai acabar acontecendo.
 
Comentários CORRIGIR TEXTO