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Porto Alegre, terça-feira, 21 de julho de 2020.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
terça-feira, 21 de julho de 2020.
Notícia da edição impressa de 28/02/2020.
Alterada em 28/02 às 03h00min

A festa do Carnaval acabou. Começam outras...

Escrevo esta coluna na segunda-feira de Carnaval. No próximo fim de semana, teremos as últimas atividades dos festejos carnavalescos e, depois, formalmente, o ano estará começando. No setor das artes cênicas, o período vivido até o momento foi de muita troca de informações, de fixação de agendas para futuras turnês, procura de patrocinadores para produções imediatas e, sobretudo, definição de programações dos teatros. Com as dificuldades surgidas com as políticas francamente negativistas do governo federal para com as artes, poucas esperanças remanescem. É para estados e municípios, aqueles cujos responsáveis entendem e reconhecem a importância da produção artística para a afirmação de uma comunidade, que se dirigem as expectativas. E é neste sentido que tanto a produção artística quanto os festejos de Carnaval têm muito em comum: são sempre festas.
Escrevo esta coluna na segunda-feira de Carnaval. No próximo fim de semana, teremos as últimas atividades dos festejos carnavalescos e, depois, formalmente, o ano estará começando. No setor das artes cênicas, o período vivido até o momento foi de muita troca de informações, de fixação de agendas para futuras turnês, procura de patrocinadores para produções imediatas e, sobretudo, definição de programações dos teatros. Com as dificuldades surgidas com as políticas francamente negativistas do governo federal para com as artes, poucas esperanças remanescem. É para estados e municípios, aqueles cujos responsáveis entendem e reconhecem a importância da produção artística para a afirmação de uma comunidade, que se dirigem as expectativas. E é neste sentido que tanto a produção artística quanto os festejos de Carnaval têm muito em comum: são sempre festas.
Antes de mais nada, é bom lembrar que a festa sempre foi uma passagem importante numa comunidade. Ela marca, em geral, a passagem de um período para outro, incluindo-se enquanto ritual social. Por exemplo, as artes cênicas nasceram exatamente dessas comemorações: nas chamadas sociedades primitivas, as danças e, com elas, a música e a cenografia, como a coreografia, surgiram para expressar alegria quanto ao sucesso de uma colheita, por exemplo. Daí existir, entre os nossos índios, a chamada arte plumária ou a pintura corporal. Aquilo que hoje em dia virou moda, como as aplicações de desenhos corporais, uso de piercings e por aí afora, na verdade, nada mais são do que manifestações milenares de quem queria manifestar alegria ou diferenciar-se do outro, para expressar seu sentimento diante dos demais.
Essa prática poderia servir, igualmente, para representar de maneira simbólica a força de um deus protetor ao qual o coletivo daquela aldeia se dirige no sentido de pedir-lhe apoio, por exemplo, para que a próxima caçada alcance bons resultados, ou que a necessária chuva possa chegar o mais breve possível.
A festa, de modo geral, está voltada para o passado - comemora algo que ocorreu e que deve ser rememorado: neste sentido, é um ritual que atualiza o acontecimento importante, a que os antropólogos denominam de mito - mas pode estar voltada para o futuro quando, por exemplo, se invoca uma determinada entidade para que a mesma proteja ou caçador ou propicie chuvas para a recente plantação. A festa, contudo, sempre tem uma certa organização, o chamado ritual. E se não se seguir uma certa sequência ou não se disserem determinadas palavras, o resultado pode ser o contrário daquilo almejado.
Há outro aspecto importante: uma comemoração interrompe a rotina da vida cotidiana. Marca a mudança de uma para outra situação diversa. Constituem-se nos denominados ritos de passagem. Não se faz festa a toda a hora e por todo e qualquer motivo. As festas vinculadas à sociedade agrícola, por exemplo, ocorrem segundo as estações do ano e atendem às atividades vinculadas à produção rural: semeio e colheita, por exemplo. Entre os gregos, costumava-se marcar a época do plantio com uma procissão em que eram carregadas imagens do deus Príapo, a fim de propiciar a produção farta. Desta festividade, eminentemente coletiva, mas conduzida por um sacerdote, ocorreu, em algum momento, a transformação do sacerdote em um intérprete-ator. Surgia o teatro. Príapo tinha a imagem do Falo. Seus adoradores usavam máscaras que simbolizavam os diferentes humores e sentimentos. E assim o teatro grego - do mimo mais simples à complexidade das tragédias de Sófocles ou dos dramas de Eurípides - abriu o caminho para os demais tipos de espetáculos. Hoje, temos espetáculos multimídia que não fazem mais do que buscar as origens daquelas primeiras representações, verdadeiramente coletivas, muitas vezes até mesmo com a participação de centenas e de milhares de intérpretes, como os grandes mistérios medievais. Passei estes dias de Carnaval lendo e me divertindo com o velho François Rabelais de Gargantua e Pantagruel, o que me permitiu melhor entender o significado dos estudos de Bakhtine a respeito desta obra.
Por outro lado, em todas as sociedades, a saída da infância para a puberdade ou a chegada à idade adulta, tanto dos homens quanto das mulheres, são festejadas coletivamente, porque o acontecimento interessa a todo o grupo social, e seguem rituais muito rígidos, que não podem ser quebrados em hipótese alguma. O jovem que se torna adulto passa a ser responsável por suas ações e, neste sentido, integra-se ao grupo social de que faz parte, é por ele reconhecido mas também assume suas responsabilidades e deveres para com ele.
Como era sempre sob a perspectiva da alegria e da comemoração de um bom sucesso que ocorriam tais festividades, com a quebra das atividades de rotina, associou-se a festa à alegria, e eis-nos, dentre outras tantas, diante do Carnaval. O Carnaval existe em praticamente todos os quadrantes da Terra, ainda que em cada cultura ele se expresse de modo diferente. Mas há algumas práticas em comum: os desfiles, as máscaras, a alegria. No Brasil, tornou-se uma espécie de espetáculo oficial e nacional. Mas não nos esqueçamos dos bumbas - com todas as suas inúmeras variações, do Amazonas ao Rio Grande do Sul - dos reisados, dos maracatus, das festas do Divino etc.
Não esqueçamos que a festa possui também importante função política. Ela traduz o poder e a força de determinada pessoa, família ou clã. Destaca o nome de quem patrocina a comemoração ou está sendo por ela homenageado (o surgimento dos mecenas ocorreu justamente assim, ainda ao tempo do teatro grego; e quem visita Roma vai conhecer os grandes monumentos erguidos em honra dos generais vitoriosos...). Os reis ingleses e espanhóis destacavam-se por seu empenho em garantirem espetáculos suntuosos a seus cidadãos. O mecenato projetou-se na Idade Média, em especial para marcar a hierarquia eclesiástica da Igreja, tornou-se entidade civil entre os nobres da Renascença até praticamente o Romantismo, e individualizou-se através dos grandes financiadores de produções artísticas ou de museus, na contemporaneidade. Nas sociedades mais democráticas, faz parte das chamadas políticas públicas de um país ou cidade.
Para concluir, é importante lembrar, enfim, que tais festas, por serem universais (ou seja, admitirem todos os segmentos de uma determinada comunidade, sejam eles quais forem, graças às mascaras e às fantasias), são, igualmente, elementos de democratização social, pois muitos daqueles que, no decorrer do ano, não podem frequentar determinados espaços, ou, por sua posição subalterna, socialmente falando, jamais sonham com alguma melhoria de sua vida, nestes dias da festa podem fingir ser o que não são, fazer aquilo de que normalmente estão proibidos. Por isso, a festa, e em especial o Carnaval, no Brasil, tornou-se um episódio central na vida social da nacionalidade. O Carnaval deste ano está terminando, mas outras festas nos esperam, inclusive aquelas que o teatro nos propicia. Vamos a elas, pois...
 
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