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Porto Alegre, sexta-feira, 07 de fevereiro de 2020.
Dia do Gráfico.

Jornal do Comércio

Notícia da edição impressa de 07/02/2020.
Alterada em 07/02 às 03h00min
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Autoritarismo e fascismo do discurso de Alvim - Parte 1

Passada a tempestade provocada pelo pronunciamento do então secretário nacional da Cultura do governo federal, Roberto Alvim, centrada especialmente na eventual paráfrase a um discurso do antigo ministro da Propaganda de Adolf Hitler e ideólogo do nazismo, Joseph Goebbels, vale a pena revisitar a questão, até porque os problemas na área, ao que parece, vão continuar. A nova indicada, uma atriz, até pouco elogiada e admirada por sua carreira, revela-se, igualmente, alguém cuja perspectiva ideológica aproxima-se mais do conservadorismo do que do necessário liberalismo que uma democracia necessita para sobreviver (esqueçamos os conceitos de direita e de esquerda que, neste caso, pouco dizem, até porque, ao menos no caso da cultura, acabam por se aproximar e coincidir, em alguns casos, como quero mostrar).
Passada a tempestade provocada pelo pronunciamento do então secretário nacional da Cultura do governo federal, Roberto Alvim, centrada especialmente na eventual paráfrase a um discurso do antigo ministro da Propaganda de Adolf Hitler e ideólogo do nazismo, Joseph Goebbels, vale a pena revisitar a questão, até porque os problemas na área, ao que parece, vão continuar. A nova indicada, uma atriz, até pouco elogiada e admirada por sua carreira, revela-se, igualmente, alguém cuja perspectiva ideológica aproxima-se mais do conservadorismo do que do necessário liberalismo que uma democracia necessita para sobreviver (esqueçamos os conceitos de direita e de esquerda que, neste caso, pouco dizem, até porque, ao menos no caso da cultura, acabam por se aproximar e coincidir, em alguns casos, como quero mostrar).
Roberto Alvim foi um artista precoce, vinculado à literatura, mas especialmente à dramaturgia e ao teatro. Tem sido dramaturgo, mas sua maior contribuição às artes cênicas brasileiras, até aqui, ocorreu na direção de espetáculos, boa parte dos quais admirável, extremamente criativos e alguns poucos premiados.
Alvim não tem curso universitário propriamente dito. Formou-se pela Casa das Artes de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, chegou a dirigir o Teatro Carlos Gomes e, depois, o Teatro Ziembinski (!!!). Criou, com a atriz Juliana Galdino, com quem é casado, o grupo teatral Club Noir, em São Paulo, aconchegante espaço experimental para espetáculos de vanguarda, a alguns dos quais assisti, situado na parte baixa da Rua Augusta, próximo ao restaurante Piolin, espaço que fechou ao assumir postos de comando no governo federal. Vi, há poucos dias, o prédio fechado e todo pichado, infelizmente. Foi sempre um diretor criativo, montando textos de dramaturgos pouco conhecidos do público brasileiro, ou textos provocativos, como o asfixiante O quarto, de Harold Pinter, uma das experiências mais claustrofóbicas que já vivi num espetáculo de teatro.
Em algum momento da vida, Roberto Rêgo Pinheiro, nome verdadeiro do artista, descobriu ter um câncer no intestino, de que teria se curado por um milagre, levando-o a abraçar o catolicismo com a mesma radicalidade e meticulosidade com que os atores e criadores que com ele já trabalharam reconhecem concretizar um espetáculo seu.
Na verdade, ainda jovem, chegou a largar toda a vida urbana e seguir uma experiência agnóstica, encerrando-se no sertão do Nordeste brasileiro, sobrevivendo de alimentação frugal e mínima, experiência de que, contudo, desistiu posteriormente. Alvim teve espetáculos seus apresentados em Porto Alegre, inclusive no Porto Alegre em Cena, quando chegou a visitar a cidade.
Como um homem com toda esta bagagem cultural, tendo sido professor em cursos de dramaturgia, de que se diz tem uma visão ampla e abrangente, destacando-se por sua criatividade, em algum momento alinha-se a um movimento que inclusive contradiz toda a sua própria experiência de vida e artística?
A mídia e as redes sociais reagiram fortemente ao discurso de 16 de janeiro último, transmitido em cadeia nacional, postado em redes e imediatamente denunciado e repudiado. No dia seguinte, Alvim dava uma entrevista à Rádio Gaúcha, primeiro, negando que soubesse ter se valido de frases de Goebbels (fato que seus ex-assessores repudiam, pois dizem que ele sabia exatamente o que estava fazendo). Caía por terra, assim, uma tentativa de responsabilizar terceiros por uma eventual "traição" por ele sofrida. Repudiando teoricamente Goebbels, assumia, ao mesmo tempo, a frase a ele atribuída, pois entendia que, mesmo vinda de um nazista, sua assertiva seria correta.
Qual era esta colocação que Alvim mantinha? Era a seguinte, a passagem: "A arte brasileira da próxima década será heróica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo - ou então não será nada. Ao país a que servimos, só interessa uma arte que cria a sua própria qualidade a partir da nacionalidade plena, e que tem significado constitutivo para o povo para o qual é criada. Portanto, almejamos uma nova arte nacional, capaz de encarnar simbolicamente os anseios desta imensa maioria da população brasileira, com artistas dotados de sensibilidade e formação intelectual, capazes de olhar fundo e perceber os movimentos que brotam do coração do Brasil, transformando-os em poderosas formas estéticas".
Aqui encontramos o essencial do pensamento conservador, a defesa de uma nacionalidade da arte. Isto é conservador mas, na verdade, esta perspectiva não é exclusividade da direita, também foi defendida pela esquerda, em diferentes momentos. Efetivamente, ela traduz um pensamento autoritário e ditatorial. Por isso, no Brasil, pode ser encontrada ao tempo do Estado Novo de Getúlio Vargas, quanto naqueles que defendiam uma estética nacionalista nos anos 1960-1970, para o nosso Cinema Novo, ou participaram das marchas contra a guitarra (como se narra no admirável filme Uma noite em 67) ou entendem que o abstracionismo é uma degeneração das artes plásticas ou o dodecafonismo seria a destruição da música. Isso aconteceu na Rússia de Stálin, a partir de 1934, e na Cuba de Fidel Castro, e significa apenas e uma só coisa: censura.
Imaginemos se Carlos Gomes tivesse aceito as imposições que lhe teriam impedido de criar O Guarani, ou se Ziembinski não tivesse ousado na criação de Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues, em 1943? Ora, quando o Congresso de Escritores de 1934, na Rússia, tendo à frente, dentre outros, o romancista e dramaturgo Máximo Gorki, decide criar um regramento para a criação artística, estabelecendo os princípios do chamado realismo socialista, que acabaria por cercear e pasteurizar a arte soviética até os estertores daquele sistema, estava decidindo pela interdição de alguns dos artistas mais admiráveis e mais importantes do mundo, parte dos quais contribuiria decisivamente para a constituição da arte do século XX, abrindo-lhe perspectivas que ainda hoje não chegamos a esgotar completamente.
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Antônio Hohlfeldt
Antônio Hohlfeldt
Um dos principais críticos de teatro do Brasil, Antonio Hohlfeldt comenta os espetáculos em cartaz no Rio Grande do Sul, analisando festivais e observando a evolução de grupos teatrais gaúchos e nacionais. Todas as sextas-feiras no Jornal do Comércio.