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Porto Alegre, sexta-feira, 25 de outubro de 2019.

Jornal do Comércio

Notícia da edição impressa de 25/10/2019.
Alterada em 25/10 às 03h00min
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Espetáculos nem tão casuais na sua coincidência

Como não acredito em casualidades, não creio que as temporadas simultâneas de Peccátu, no Teatro Bruno Kiefer, e de Um dia Sodoma, no outro Gomorra, no Museu do Trabalho, sejam apenas coincidência. Ambas as peças, embora com enredos aparentemente bastante distantes, acabam por revelar perspectivas semelhantes: a discussão sobre a contemporaneidade, em especial a questão da fragmentação e a dificuldade para se assumir uma certa identidade.
Como não acredito em casualidades, não creio que as temporadas simultâneas de Peccátu, no Teatro Bruno Kiefer, e de Um dia Sodoma, no outro Gomorra, no Museu do Trabalho, sejam apenas coincidência. Ambas as peças, embora com enredos aparentemente bastante distantes, acabam por revelar perspectivas semelhantes: a discussão sobre a contemporaneidade, em especial a questão da fragmentação e a dificuldade para se assumir uma certa identidade.
Começo pelo espetáculo que está há mais tempo em cartaz, Peccátu, trabalho de Ernani Poeta, que assina a dramaturgia e a direção, com direção musical de Alexandre Ales, coreografias de João Lima e um elenco diversificado, que inclui músicos - aliás, de excelente qualificação - bailarinos e atores propriamente ditos, num total de 14 figuras em cena, o que não é pouco. Em quase hora e meia de espetáculo, uma banda que inclui de teclados a violoncelo, contrabaixo e guitarra, além de percussão, organiza-se enquanto uma delimitação espacial e sonora para os bailarinos e atores que atuam mais à frente, no espaço cênico, numa cenografia feita de panos espalhados pelo chão e correntes que caem do alto do palco até o chão.
A referência é o Marquês de Sade e sua filosofia, mas também de Antonin Artaud, Ferreira Gullar, Cassandra Rios e José Régio, além de composições de A ópera dos 3 vinténs, de Bertolt Brecht-Kurt Weill. Trata-se de um conjunto de reflexões a respeito da condição contemporânea, marcada especialmente pela dificuldade de que cada um possa se reconhecer como uma identidade diversa frente ao outro. Contudo, é difícil compreender-se todo o texto, sobretudo na primeira meia hora, na medida em que o ator escalado não tem maior projeção de voz e é engolfado pelo som dos instrumentos musicais. Nem a ajuda do microfone auxilia; pelo contrário, muito próximo da boca, reverbera e impede a compreensão das frases. Isso se resolve com o correr do espetáculo.
Peccátu se constitui como uma espécie de ritual que pretende chegar à essência do ser humano. Assim, na medida em que se propõe uma desconstrução da aparência, quase todos os intérpretes em cena estão seminus, tanto músicos quanto atores. Aliás, é impressionante a homogeneidade de trabalho alcançada pela direção de Ernani Poeta, com os músicos Carol Kopacek, Fábio Petry, Flávio Francisco, Marcelle Lucena, Ricardo Lannes, Matheu Lima (empolgado e empolgante percussionista) e Talita Tomazo (excelente celista) e os atores-bailarinos Eric Nelsis, Diego Freitas, Antonio Figueiredo, Ighor Pozzer, João Xavier, Letícia Kleemann, Roberta Turski e Tom Weissheimer, todos com dedicação e empolgamento verdadeiramente admiráveis. O resultado é um trabalho que, mesmo com um ritmo bastante irregular, prende a atenção e fascina o espectador.
No caso do texto de Júlio Zanotta Vieira, ele assina o texto e também a direção do espetáculo, com as interpretações de Pablo Parra e Iza Meza Tzin. Os dois personagens acham-se trancafiados numa grande jaula, onde se digladiam sobretudo verbalmente. Uma vez mais, a busca de sentido para as suas vidas e o significado de suas ações é o que marca a ação dramática, desenvolvida em cerca de uma hora de espetáculo.
Como fui na noite de estreia, o trabalho ainda carecia de certo ritmo, o que deverá ser bastante melhorado ao longo da temporada. De qualquer modo, é surpreendente e fascinante, igualmente, a ambientação cênica desenvolvida com inúmeros e diferenciados artefatos, dentre os quais as máscaras de Elias Kalhil Chidia e a iluminação de Patrick Simões. À composição musical de abertura de György Ligetti, seguem-se canções com letras de Zanotta e musicalização do próprio Parra, que também as interpreta ao violão.
É outro espetáculo que quebra a linearidade e, se nos perguntarmos: o que acontece? Deveremos admitir que nada ocorre à nossa frente. Contudo, no período decorrido entre a abertura e o encerramento da encenação, por certo fomos modificados em nossas percepções e reflexões a respeito do momento presente.
Em síntese, dois espetáculos que fogem radicalmente dos padrões das encenações mais tradicionais da cidade e que, por isso mesmo, colocam-se como propostas ousadas, inovadoras e importantes na cena da cidade.
Ah, sim, achei: ambos os espetáculos são divulgados pela Entreatos, o que comprova, enfim, não ser uma mera coincidência ambos cumprirem carreira simultaneamente na cidade...
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