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Porto Alegre, sábado, 25 de julho de 2020.
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Porto Alegre,
sábado, 25 de julho de 2020.
Notícia da edição impressa de 27/09/2019.
Alterada em 27/09 às 10h09min

POA em cena: muitos acertos e alguns equívocos

Gota D'água {preta}, um dos grandes momentos do festival deste ano

Gota D'água {preta}, um dos grandes momentos do festival deste ano


SERGIO SILVA/DIVULGAÇÃO/JC
A segunda e última semana do Porto Alegre em Cena trouxe algumas atrações notáveis e outras que se tornaram decepções. Da França, veio um espetáculo de dança importante e provocador, de certo modo: Happi - A tristeza do rei, um solo do camaronês James Carlès, a partir de criação e coreografia de Heddy Masalem, por sua vez, algeriano. Ambos estão radicados na França e evidenciam a importância que gerações de imigrantes africanos apresentam hoje em dia na Europa.
A segunda e última semana do Porto Alegre em Cena trouxe algumas atrações notáveis e outras que se tornaram decepções. Da França, veio um espetáculo de dança importante e provocador, de certo modo: Happi - A tristeza do rei, um solo do camaronês James Carlès, a partir de criação e coreografia de Heddy Masalem, por sua vez, algeriano. Ambos estão radicados na França e evidenciam a importância que gerações de imigrantes africanos apresentam hoje em dia na Europa.
Do mesmo modo, um dos mais aplaudidos espetáculos, e que veio da Bélgica, é, na verdade, criação mestiça de outros imigrantes: o performer Dorcy Rugamba, da Etiópia, e o belga Vincent Hennebicq, que mostraram Going home, mesclando interpretação teatral, música e projeções variadas.
Ao longo da semana, assistimos, entre outros, a Lobo, espetáculo vindo de São Paulo, assinado e interpretado centralmente por Carolina Bianchi, ao que se sabe, oriunda do Rio Grande do Sul. Reunindo performers masculinos nus, que ocupam todo o espaço do palco ao longo dos cem minutos de duração do espetáculo, a atriz e dramaturga propõe uma reflexão a respeito do simbólico, através dos corpos humanos. A ideia, em princípio, é interessante, mas, na prática, resultou em muito pouco. De um lado, uma pretensão demasiada, ao menos nas palavras, e que não se refletiu no espetáculo a que assisti. Isso fica evidenciado quando, mais ao final da performance, a atriz tem a oportunidade de um solilóquio em meio aos atores que formam como que uma moldura para a sua atuação. Pensei que ali teríamos uma colocação mais clara sobre o que ela queria dizer com todo aquele trabalho. Frustração total: além de a intérprete perder o texto em algumas vezes (nervosismo?), não me pareceu nada claro o que pretendeu dizer: parecia estar buscando algo, sem alcançar se expressar. A impressão que me ficou é de vaidade adolescente de artista, de um lado e, de outro, linguagem antiga e ultrapassada: lembrou-me dadaísmo e surrealismo (como aquela coisa de comer o fígado do figurante), ou as experimentações nudistas e provocadores do velho e bom José Celso Martinez Correa dos anos 1970, de um Gracias, Señor, por exemplo. Tudo dejà dit, para resumir, lamentavelmente.
Encerrando o festival, tivemos Gota d'água {preta}, do grupo Coletivo Negro, sob a direção de Jé Oliveira. A pretendida releitura do clássico de Paulo Pontes e de Chico Buarque veio com enorme oportunidade: não só pelo contexto político-social-ideológico que atravessamos, quanto pelo fato de Chico Buarque ter sido consagrado com o Prêmio Camões, recentemente, numa decisão de júri do qual tive a alegria de participar.
Não tenho a menor dúvida em reconhecer e valorizar a triste atualidade do espetáculo, estreado em 1975 e agora recriado. Para a infelicidade da nação. Não é só o machismo evidente no personagem Jasão, explicitamente revelado num quase monólogo que mereceu vaias indignadas do público, quanto nas questões que envolvem a miséria nacional e os preconceitos contra os negros e/ou contra os pobres. Quando junta preto e pobre, então, o preconceito vira violência, desrespeito e desqualificação. Gota d'água {preta}, além do mais, busca, em sua releitura, integrar diferentes aspectos históricos da própria obra, constituindo umas espécie de interescritura, na medida em que registra, através de uma plaqueta dependurada no cenário, a época de criação do espetáculo; por vezes utiliza backs com a voz de Bibi Ferreira, que consagrou a obra (ela era, na ocasião, a companheira de Paulo Pontres), backs de Chico Buarque, entoando a canção tema, ou versos retirados de outras composições do reconhecido poeta.
O primeiro ato, com quase duas horas de duração, e o segundo, com cerca de uma hora de duração, tivemos quase 4 horas de espetáculo, com um necessário intervalo, mas a obra passou num raio, tão bom é o espetáculo. Por isso mesmo, torna-se absolutamente desnecessário, porque cai na simples panfletagem e provocação, certos cacos introduzidos no texto, alguma dialogação que se tenta alcançar com o público, levando-o a expressar-se contrário ao contexto atual. A montagem, por si mesma, alcança com naturalidade a denúncia e mobilização da plateia, sem precisar lançar mão destes artificialismos que diminui a qualidade da encenação, o que é lamentável.
O texto de Paulo Pontes aposta na perspectiva psicológica da disputa entre Jasão e Medeia, na peça brasileira transladados para uma favela carioca e, a partir disso, reflete sobre determinado contexto sócio-político. No texto original, o final se constitui do tensionamento entre o triunfo social de Jasão, a ocupar a cadeira de Egeu, e a notícia da morte de Medeia e os filhos do casal. Na montagem de Jé Oliveira, manteve-se este mesmo desfecho mas ao substituir-se os corpos por símbolos, apenas, as vestimentas dos mortos, de certo modo perdeu-se o impacto dramático buscado pelos autores com tal desfecho.
De qualquer modo, trata-se de um espetáculo fantástico, que sequestra toda a nossa atenção e emoção, elogiável extremamente pela eficiência da encenação e, muito especialmente, graças às interpretações brilhantes de Aysha Nascimento acima de tudo, enquanto Joana (Medeia), contracenando, de um lado, com um cínico e ao mesmo tempo alienado Jasão, devidamente manipulado por um execrável e Creonte. Os músicos e os demais figurantes completam este conjunto humano que representa a comunidade da vila popular. Destaco, especialmente, para justificar o entusiasmo pelo espetáculo, a clareza e simplicidade, ao mesmo tempo, com que a simbiose texto e música, de Paulo Pontes/Chico Buarque alcança explicar o processo de cooptação que caracteriza a situação vivida por Joana: é o fidelíssimo retrato do clientelismo urbano que se completa com o coronelismo rural que marca toda a história da Velha e Nova República nacionais, ainda hoje sobrevivente.
Encerrou-se com chave de ouro o Porto Alegre em Cena deste ano, que trouxe alguns novos aspectos, altamente positivos: Fernando Zugno, o curador da mostra, não só escolheu um tema, "O corpo em cena", quanto foi absolutamente fiel ao mesmo na escolha dos espetáculos que compuseram a mostra. Neste sentido, fica menos importante se gostamos ou não de todos os espetáculos, mas sim, reconhecer que todos os espetáculos vincularam-se umbilicalmente ao tema proposto. Isso deu uma outra dimensão ao festival que, espero, será mantida nas suas próximas edições.
Por outro lado, este Porto Alegre em Cena primou por evidenciar as diferentes linguagens e concepções do espetáculo cênico. Os norte-americanos utilizam a expressão performing arts - "artes performáticas" para se referir a um conjunto de criações que no Brasil costumamos reduzir e empobrecer enquanto "artes cênicas". Mas como explicar um espetáculo tão profundamente emocionante e criativo quanto O silêncio do mundo, segundo a concepção de Andreia Duarte e de Ailton Krenak? Foi o momento máximo do festival, neste ano, aquela quinta-feira à noite. Aquele rede artesanal estendida por sobre a cabeça dos intérpretes, a simplicidade de Ailton e a dedicação de Andreia emocionaram a todos que ali estivemos. Efetivamente, foi como se, naquela noite, estivéssemos todos reunidos em torno do fogo original, a ouvir o ruído do passado que o silêncio do presente pretende destruir. Foi um momento inesquecível, um momento em que a função do curador se evidenciou e de quem somos obrigatoriamente devedores, torcendo para que outras iniciativas semelhantes venham a ocorrer.
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