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Porto Alegre, domingo, 26 de julho de 2020.
Dia dos Avós.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
domingo, 26 de julho de 2020.
Notícia da edição impressa de 23/08/2019.
Alterada em 23/08 às 03h00min

Impactante e inesquecível

O espetáculo 2068 é, literalmente, impactante. Apresentado pelo grupo Máscara em Cena, no Ponto de Teatro do Instituto Ling, sua temporada termina neste fim de semana. Não sei o que mais elogiar, se a inusitada trilha sonora de Caio Amon, que sobrevive por si mesma, tal a qualidade da composição; se a criação das máscaras, por Fábio Cuelli que - como se registra no programa do espetáculo - são tão emocionantes que a gente projeta nelas movimentos e ictos que estão na nossa imaginação; se os figurinos de Liane Venturella, mais do que figurinos porque, na verdade, costuram atores e bonecos em corpos únicos, plásticos, móveis e vivos; se os bonecos de Rita Spier que, em tamanho real, são tão ou mais emocionais que os atores; se a iluminação de Fabiana Santos, sem a qual a narrativa dramática não se concretizaria tão plenamente como ocorre. Louve-se, enfim, o princípio de tudo, que é a dramaturgia de Liane Venturella, aliada à equipe do Máscara em Cena, mais a direção marcada e exata, como um relógio, mas com a emoção que o relógio não tem, e que por isso mesmo se humaniza ao extremo, de todo o espetáculo, da mesma realizadora. Trata-se, neste sentido, de um espetáculo de pesquisa séria, requintada, inteligente e sensível, matérias-primas cada vez mais escassas nos dias de hoje.
O espetáculo 2068 é, literalmente, impactante. Apresentado pelo grupo Máscara em Cena, no Ponto de Teatro do Instituto Ling, sua temporada termina neste fim de semana. Não sei o que mais elogiar, se a inusitada trilha sonora de Caio Amon, que sobrevive por si mesma, tal a qualidade da composição; se a criação das máscaras, por Fábio Cuelli que - como se registra no programa do espetáculo - são tão emocionantes que a gente projeta nelas movimentos e ictos que estão na nossa imaginação; se os figurinos de Liane Venturella, mais do que figurinos porque, na verdade, costuram atores e bonecos em corpos únicos, plásticos, móveis e vivos; se os bonecos de Rita Spier que, em tamanho real, são tão ou mais emocionais que os atores; se a iluminação de Fabiana Santos, sem a qual a narrativa dramática não se concretizaria tão plenamente como ocorre. Louve-se, enfim, o princípio de tudo, que é a dramaturgia de Liane Venturella, aliada à equipe do Máscara em Cena, mais a direção marcada e exata, como um relógio, mas com a emoção que o relógio não tem, e que por isso mesmo se humaniza ao extremo, de todo o espetáculo, da mesma realizadora. Trata-se, neste sentido, de um espetáculo de pesquisa séria, requintada, inteligente e sensível, matérias-primas cada vez mais escassas nos dias de hoje.
O grupo Máscara em Cena aprofunda, com 2068, a pesquisa apresentada com Imobilhados. Se, naquele trabalho, havia uma proposta de discussão genérica e, até certo ponto, lúdica, o novo espetáculo lembra muito as trágicas figuras de Guernica, de Picasso. Recordei, também, a encenação da Missa do orfanatório, de Mozart, pelo grupo de dança Corpo, de Belo Horizonte, há quase duas décadas: na boca de cena, um pequeno estrado quadrado, cujas bordas estão realçadas por um fio luminoso branco que reflete, de certo modo, um outro recorte que existe no teto, recebe um conjunto de pessoas vestidas com aquilo que parece ser restos de uniformes de um campo de detenção ou de execução (Auschwitz?) que, não apenas disputa entre si o pequenino espaço em que possa sobreviver, quanto precisa adaptar-se às piores condições de posicionamento, pois, de pé, não há como se mover e, raramente, quando sentadas ou agachadas, essas (ainda) pessoas certamente maltratam radicalmente suas articulações, tanto que, a todo o momento, sempre alguém tenta arranjar um espaço um pouco menos pequeno para mexer um braço, uma perna, a mão ou até mesmo o pescoço.
O espetáculo não tem palavras. E não precisa. Seu expressionismo pode ser claramente captado através dos movimentos doloridos, pesados, quase impossíveis, de cada figura em cena. Todo o trabalho está dividido em quadros, os quais se centralizam nesta sobrevivência quase impossível, até o momento em que algum acontecimento faz com que a atenção recaia sobre algumas das figuras da cena. Então, as demais imagens desaparecem e a ação ganha uma outra dinâmica, mais forte, na medida em que se desenvolvem enredos específicos em torno destas personagens. É apenas em alguns destes momentos que se permite a poesia, como na sequência com as borboletas e a criança, mas de modo geral, o espetáculo é cinzento, triste, acabrunhado, desesperançado. Em 2068, embora se referindo aos 50 anos do AI-5, e apesar de outras alusões variadas, na verdade o que temos é uma vinculação com o contexto imediato. Por isso, o espetáculo não pode acabar bem, ainda que, após a morte, ou por causa da morte, possa-se registrar, sutil e quase informe, uma nova tentativa de reação, de resistência e de oposição àquelas forças que pretendem gradualmente minar e destruir aquele grupo humano.
Pois 2068, em síntese, é um dos espetáculos mais importantes a que temos assistido nos últimos tempos, por sua qualidade estética inegável, e por sua oportunidade ética e política em colocar em cena um debate sobre o nosso tempo, sem fugir à responsabilidade que todos temos, enquanto artistas e enquanto cidadãos e seres humanos, em resistir à barbárie.
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