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Porto Alegre, sexta-feira, 05 de julho de 2019.

Jornal do Comércio

Colunas

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Edição impressa de 05/07/2019. Alterada em 05/07 às 03h00min

Uma leitura inovadora de Tchekhov

Mais importante dramaturgo russo, Anton Tchekhov voltou a interessar parte dos diretores teatrais de Porto Alegre. Recentemente, Dilmar Messias utilizou textos do autor de As três irmãs para um novo espetáculo, e, agora, o Coletivo Errática cumpriu temporada no Teatro Renascença com um espetáculo denominado Dispositivo-Gaivota, referência a uma das mais admiradas obras do dramaturgo (1896).
Mais importante dramaturgo russo, Anton Tchekhov voltou a interessar parte dos diretores teatrais de Porto Alegre. Recentemente, Dilmar Messias utilizou textos do autor de As três irmãs para um novo espetáculo, e, agora, o Coletivo Errática cumpriu temporada no Teatro Renascença com um espetáculo denominado Dispositivo-Gaivota, referência a uma das mais admiradas obras do dramaturgo (1896).
O conceito de "dispositivo", referido no texto, é usado por diferentes autores, em várias teorias e múltiplos campos do conhecimento. Neste caso, pode-se entender "dispositivo" como "processo", ou seja, uma reflexão sobre os modos pelos quais aquele texto se construiu.
A direção de Francisco Gick, que também assina a dramaturgia, percorre os meandros da trama da peça teatral, fragmentando-a e, ao mesmo tempo, aprofundando algumas de suas passagens, a fim de explorá-las em seus possíveis diversos sentidos.
Numa primeira relação com o espetáculo, pode-se dizer que ele nada teria a ver com Tchekhov, pois enquanto o dramaturgo russo defendia o realismo psicológico (ele chegou a dizer que se houver um prego no cenário, o mesmo deve ter uma função dramática), o que encontramos nesta montagem é uma exuberância cênica, cheia de tecnologia e de procedimentos a "encher os olhos" do espectador, sem nenhuma aparente relação com a ação dramática.
Contudo, uma observação mais atenta evidencia um aprofundamento do elemento psicológico dos personagens, justamente aquela matéria-prima que mais interessava ao escritor, de sorte que cada personagem de certo modo "abre-se" à especulação do diretor, evidenciando suas diferentes facetas.
Para o bom resultado da encenação, foram fundamentais a cenografia de Guega Peixoto (um dos intérpretes) e do próprio diretor, os figurinos vistosos de Gustavo Dienstmann e a iluminação de Carol Zimmer. A trilha sonora original de Vitório Azevedo se complementa com o sistema de sensores de iluminação de Paula Pinheiro, tudo ambientado em espaços criados por Daniel Fetter e Alex Limberger. Disso tudo resulta uma estrutura cênica e visual muito dinâmica, na medida em que, entrando o público, já encontra a cena aberta e os intérpretes sentados, nas suas bordas. A separá-los do centro do palco, espécie de praticáveis que funcionam como cercas (depois cercas luminosas), a partir dos quais - e graças às rodinhas que os tornam móveis - tais elementos percorrem todo o palco e como que criam diferentes espaços cênicos, sucessivamente.
No elenco, Cláudio Loimil, Diogo Rigo, Gustavo Dienstmann e João Pedrodecarli, mais Guega Peixoto, Jezebel de Carli, Mani Torres e Nina Picoli animam a encenação, vivendo os diferentes personagens. Para quem não conheça o texto original, o presente espetáculo se torna quase incompreensível. Ao mesmo tempo, porém, para quem conheça o texto original, é importante distanciar-se dele e concentrar-se na armação da trama tal como ela foi organizada para este espetáculo, que não busca qualquer sucessão temporal cronológica, mas sim, de livres associações, como num amplo processo de investigação psicanalítica.
O espetáculo, que chega mesmo a brincar com alguns dos símbolos mais poéticos do trabalho original, como a gaivota mencionada no título da obra, desmitifica um texto mais ou menos congelado, inclusive invertendo seus sentidos: aquilo que, em Tchecov representa a dissolução da vida, nesta encenação transforma-se uma espécie de celebração do renascimento. Negando o raciocínio e a logicidade, Dispositivo-Gaivota busca a livre associação e, consequentemente, a absoluta liberdade de interpretação do espectador diante do que tem à sua frente.
 
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