Comentar

Seu comentário está sujeito a moderação. Não serão aceitos comentários com ofensas pessoais, bem como usar o espaço para divulgar produtos, sites e serviços. Para sua segurança serão bloqueados comentários com números de telefone e e-mail.

500 caracteres restantes
Corrigir

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Porto Alegre, sexta-feira, 07 de junho de 2019.
Dia da Liberdade de Imprensa.

Jornal do Comércio

Colunas

CORRIGIR
Antônio Hohlfeldt

Teatro

Edição impressa de 07/06/2019. Alterada em 07/06 às 03h00min

Divertida, inteligente e bem realizada

TOC - Uma comédia obsessiva Compulsiva, de autoria de Artur José Pinto, baseou-se no filme espanhol Toc...toc, disponível na Netflix. O texto, de Artur José Pinto, abrasileira um pouco a situação, sobretudo na linguagem e na possibilidade das piadas, de modo a alcançar uma boa dialogação com o público local. Lutti Pereira assina a direção, depois de muito tempo relativamente afastado desta função em nossos palcos. No elenco, também deve-se festejar a volta de Daniel Lion, que hoje em dia tem-se dedicado mais aos figurinos de diferentes produções locais (como o faz em relação a este espetáculo). Ele vive um diretor teatral que não consegue mentir, situação abordada há pouco tempo em outra obra, ao lado de Letícia Kleemann (uma jovem virgem extremamente metódica), Juliana Barros (que está sempre vendo conspirações em todas as situações) e Vinicius Petry (um entregador de pizzas, na verdade, um outro personagem cuja identidade se revela apenas ao final do espetáculo).
A situação de saída é a chegada sucessiva de três pacientes de um especialista em TOCs - Toques Obsessivos Compulsivos, de diferentes qualidades, que ficam numa estranha sala de espera diante do atraso do médico. Se a ideia do enredo não chega a ser original, eis que inspirada num filme espanhol, como se registrou, o desenvolvimento da trama e a agilidade dos diálogos, bem abrasileirados e muito naturais, garante a qualidade do espetáculo que diverte e prende a atenção de todos, arrancando contínuas gargalhadas, tal o inusitado das situações que culminam com o bloqueio da porta de saída.
Daniel Lion cresce em sua interpretação, chegando ao auge, mais ao final da peça, quando revela os motivos pelos quais foi obrigado, pela esposa, a procurar o especialista. Juliana Barros vive uma estapafúrdia mulher que vê conspirações em tudo, compondo enredos mirabolantes e hilários. Letícia Kleemann interpreta uma jovem virgem, extremamente metódica (e, portanto, chata e impertinente) que, no entanto, está ansiosa para encontrar seu par. Por fim, Vinicius Petry encarna um entregador de pizzas, muito atípico, que capta as simpatias do público desde logo, porque é a figura mais humilde e, ao mesmo tempo, mais humana de todos os que encontram na sala.
A direção de Lutti Pereira acerta em cheio: o espetáculo tem o ritmo certo, sem o quê uma comédia deste tipo não se sustenta. A escolha dos atores, a composição dos tipos, a rápida dialogação, as piadas e as observações inesperadas, tudo colabora para fazer deste espetáculo, de cerca de uma hora de duração, uma diversão de primeira qualidade, com uma evidente vantagem sobre o filme: o contato direto da plateia com o elenco, o que não acontece com o filme, o que faz com que o ritmo e a encenação ganhem uma versatilidade e uma dinâmica que o cinema não permite.
Juliana Barros e Daniel Lion se destacam, no quarteto, pela versatilidade e o ritmo bem marcado que cada um empresta a seu personagem. Mas Vinicius Petry é muito versátil no tipo que assumiu, e Letícia Kleemann convence enquanto a virginal mocinha que a tudo e a todos teme, sobretudo quando sua rotina possa ser quebrada.
O mais importante é que, por trás do enredo e do humor, o espetáculo aborda um dos problemas mais graves e mais presentes em boa parte das pessoas, sem que socialmente tais situações sejam assumidas pelos seus portadores. Daí a importância de, ao final dos espetáculos, haver possibilidade de breves debates, com a presença de médicos especialistas, a respeito do quê, queiramos ou não, é, de fato, uma doença com múltiplos aspectos com que se apresenta.
Com um cenário simples, a sala de espera de um consultório médico, uma poltrona e algumas cadeiras, além de uma mesinha de centro sobre a qual se colocam algumas revistas, TOC - Uma comédia Obsessiva Compulsiva faz render o tema e mantém a audiência prese à cena, divertindo todo o mundo durante todo o tempo. Fazia tempo que a gente não assistia a uma comédia divertida, inteligente e bem realizada.
 
CORRIGIR