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Porto Alegre, sexta-feira, 04 de janeiro de 2019.

Jornal do Comércio

Colunas

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Crítica

Edição impressa de 04/01/2019. Alterada em 04/01 às 01h00min

Apesar dos senões, há que insistir

Antonio Hohlfeldt
Nem sempre, uma ideia que parecia brilhante chega a se concretizar. Mas, de qualquer modo, no caso das artes cênicas, alguns espetáculos, mesmo quando não alcançam todos os seus objetivos, encontram oportunidade e, neste sentido, justificativa. Esta reflexão me vem a propósito de dois trabalhos absolutamente diversos entre si, com objetivos totalmente diferentes, mas que enfrentam, de certo modo, problemas semelhantes: entre a ideia (inspiração) e a realização (concretização desta ideia), acabou surgindo problemas e nem sempre as coisas ocorreram assim tão bem.
Comecemos por Olga, que a atriz Edelweiss Ramos escreveu, adaptando, para o teatro, para a sua própria interpretação, com direção de Luana Serrão. O espetáculo ocorreu no Teatro de Arena e me levou pressuroso à simpática casa da Borges de Medeiros. Na verdade, um grupo alemão, no Rio de Janeiro, no Teatro Oi Futuro, foi o primeiro a apresentar um espetáculo a partir da última carta de Olga Benário, antes de ser executada/assassinada pelos nazistas. Este trabalho contava com três intérpretes. Depois, tivemos uma montagem no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, em São Paulo, já então no formato de monólogo. Edelweiss Ramos preferiu a forma do monólogo, tendo ganho inclusive prêmios durante a recente V Maratona de Monólogos de Canela.
Que a discussão e a lembrança sobre a figura da corajosa Olga Benário sempre é oportuna, nem precisa discutir. Mas entre a oportunidade e a forma de discutir tal tema, existe, claro, uma distância. A opção dramática aqui foi a encenação, pura e simples, devidamente dramatizada, da carta. Ficamos no patamar do narrativo, sem qualquer atualização crítica, sem nenhuma reflexão que atualize aquele acontecimento, às vezes chegando perigosamente ao emocional, elemento dramático sempre condenado por Bertolt Brecht, justamente porque afasta o espectador do raciocínio. No entanto, a gente precisa sempre perguntar por que o governo brasileiro, ainda antes do golpe do Estado Novo de 1937, entregou Olga Benário para a execução nazista na Alemanha? Isso precisa ser denunciado, sim, mas uma denúncia eficiente deve ser raciocinada, não apenas emocional. O espetáculo, que tem uma boa ambientação cênica, uma interpretação segura e uma direção eficiente, emociona, mas não vai além e, neste sentido, corre o risco de se esgotar no próprio momento do espetáculo.
Caso paralelo, mas por outros e absolutamente diversos motivos, aconteceu com Broadway em 4 tempos, com interpretação central de Gabrielle Fleck. Gabrielle é uma artista excepcional, pela coragem, pela perseverança de uma carreira no exterior, pela fidelidade a uma vocação, pelo esforço simplesmente extraordinário de realizar seus sonhos artísticos, de que este trabalho é um exemplo. Ela é cantora, atriz, bailarina (aqui inclusive sapateadora) e produtora. O próprio respeito por ela, contudo, obriga a que se diga o que funciona e o que não funciona. A própria Gabrielle foi a produtora do espetáculo, e para isso, não só constituiu uma empresa própria quanto contou com a colaboração executiva de Lenira Fleck e Valéria Ellwanger e um entusiasmado exército de admiradores que garantiram o (certamente custoso) financiamento do empreendimento, inclusive com a participação de Geraldo Lopes, da Opus Produções. Mas nem tudo funcionou bem.
O novo teatro da Unisinos, na avenida Nilo Peçanha, que eu não conhecia, é um brinco. Mas o palco é muito pequeno para um espetáculo musical do tipo Broadway. Porque Broadway, ou é Broadway, ou não é Broadway. Ou tem orquestra numerosa ou não tem orquestra (por mais simpáticas que sejam as moças e o pianista do grupo musical, em si, ótimas, mas que não são uma orquestra); ou tem grandes cenários ou não acontece (por mais criativas que tenham sido as alternativas buscadas por Élcio Rossini). Certamente a direção cênica de Graça Nunes buscou a dinâmica desses grandes espetáculos. Com toda a certeza Carlota Albuquerque preocupou-se em dar a maior vivacidade a todo o conjunto de bailarinos, inclusive Gabrielle Fleck, mas falta corpo de baile para preencher o espaço do palco. E daí, o sonho do musical, que é a marca do musical, não acontece, mesmo que a plateia mais entusiasmada aplauda e se emocione.
Gabrielle Fleck, nos grandes elencos, de que tem participado nos Estados Unidos, deve ter rendimento ótimo, mas quase sozinha, como que carregando o espetáculo nas costas, perde força, às vezes perde a nota e a entonação. Foi um espetáculo bonito, foi um trabalho emocionado, mas não chegou a se concretizar totalmente.
Num e noutro caso, desistimos? Não, precisamos insistir, e por isso mesmo esta coluna comenta, registrando senão, mas reconhecendo, com respeito o esforço. Não se pode, contudo, apenas passar a mão na cabeça. A gente tem de crescer.
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