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Porto Alegre, sábado, 15 de dezembro de 2018.

Jornal do Comércio

Colunas

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Edição impressa de 14/12/2018. Alterada em 14/12 às 01h00min

Imperdível e obrigatório

Bailei na curva estreou em Porto Alegre, no saudoso Teatro do Ipê, em 1 de outubro de 1983. Em 1984, comemorando os 10 anos de história da Opus, Geraldo Lopes, seu idealizador e criador, resolveu apoiar a edição do texto original da peça, o que foi concretizado pela Editora L&PM, do Lima e o Pinheiro Machado (acho que todos sabem, os L e P e M do nome da editora). Recebi um exemplar com dedicatória simpática do grupo da Opus. De lá para cá, talvez oito elencos diferentes já viveram os personagens de Bailei na curva, de certo modo, acompanhando os descompassos da história brasileira. Vejam só: alguns intérpretes já faleceram. Alguns têm hoje outras ocupações. Mas Júlio Conte, o dramaturgo e diretor, tem sido fiel a si mesmo: continua escrevendo para teatro, e vem mantendo, periodicamente, montagens deste espetáculo, como esta temporada que se iniciou dia 28 de novembro. Lá estava eu, numa sala lotada do teatro da Santa Casa. Saudosismo? Talvez, em ocasiões anteriores (já assisti a diferentes montagens - talvez três ou quatro), seria, sim, nostalgia, mas não desta vez, infelizmente. E quando o pano fechou, verdadeiramente emocionado, não pude deixar de refletir: o que fizeram/ o que fizemos de nossos sonhos e utopias que nos permitíamos construir em 1983 e com as quais nos identificávamos tão fortemente? Não sem certa ironia, perguntei a Júlio Conte se ele teria de, daqui a 10 ou 15 anos, escrever uma outra peça para contar o que poderão ser os próximos anos que vamos viver neste País, os sentimentos de frustração e de expectativa que nos envolvem, neste final de ano, com uma série de perguntas a bailarem em torno de nossas cabeças a respeito do futuro.
Na cena 18 (sigo o texto do livro, que Conte manteve intacto), Gabriela (antiga namoradinha de Pedro, ambos filhos de um líder sindical desaparecido após o golpe de 1964, sendo que o rapaz também foi morto pela ditadura), agora jornalista profissional, tenta escrever uma reportagem sobre o rapaz, sem consegui-lo: nem a mãe quer relembrar a história. Num encontro com um antigo vizinho, Paulo, eles falam a respeito do rapaz. Paulo indaga sobre Pedro. Gabriela indaga: "Não ficaste sabendo?" e Paulo, entendendo, responde: "Bailou! Bailou na curva" (p. 114), o que acabou dando título à peça. Esse título, sem dúvida, era uma metáfora em homenagem a toda uma geração que "bailou na curva", ora morta - fisicamente - ora destruída, emocional ou psicologicamente, que pagou alto preço pelos chamados anos negros, sobretudo depois de 1968. No fundo, porém, foi todo o conjunto da nação brasileira que teve seu futuro atrasado, negado e, de certo modo, travado.
Depois, vieram os anos de liberdade e de sonhos. Pensamos numa nação republicana, capaz de encaminhar soluções para as diferenças sociais do País e as indignantes injustiças. O resultado, conhecemo-lo bem, ele passa pelas salas de julgamento de Curitiba, de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, e se concretiza nas dezenas de lideranças nas quais acreditamos e que se encontram presas, sobretudo, acusadas por corrupção, quer dizer, traição àquelas nossas utopias.
Começamos um período sobre o qual pairam mais dúvidas do que esperanças. Será que, de fato, daqui a 15 anos, Júlio Conte ou quem o substituir, precisará escrever uma outra peça de teatro para refletir a respeito do nosso agora? Seja como for, e por isso mesmo, ficou mais importante e mais emocionante assistir nestes dias a Bailei na curva. Nesta nova temporada, certamente temos ao menos três gerações a sentar naquela plateia: os jovens que não viveram aqueles dias e que deles pouco ou nada sabem. Os que não viveram aqueles episódios, mas os sofreram, indiretamente. E os que foram testemunhas ou vítimas dos acontecimentos.
O novo elenco de Júlio Conte, com Ana Paula Schneider, Eduardo Mendonça, Gisela Sparremberger, Guilherme Barcelos, Laura Leão, Leonardo Barison, Manoela Wunderlich e Saulo Aquino é simplesmente brilhante. Eles incorporaram, totalmente, as personagens. Eles incorporaram aquele primeiro elenco. Eles incorporaram nossos sentimentos. Lá estava Flávio Bicca, autor da música tema, inesquecível até hoje. Lá estávamos todos nós, que assistimos àquela estreia. Todos temos cabelos brancos. Mas nos sentimos na pele daquele elenco. Simplesmente imperdível. Oportuno, obrigatório.
 
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Comentários
Roberval 15/12/2018 20h04min
AH! Nascemos para bailar. Independente das curvas (da estrada de Santos ou outras) e das trilhas sonoras (românticas ou trágicas). Peças de teatro servem para marcar bailes inesquecíveis, e permanecer na memória dos amantes da arte de viver bailando, conforme as músicas.