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Jornal do Comércio

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Edição impressa de 07/12/2018. Alterada em 07/12 às 01h00min

Renovação de ar

No final desta temporada, tive a felicíssima oportunidade de assistir a Metamorphosis, do grupo IN-Coletivo Cênico, com a direção de Camila Garcia, também responsável pela dramaturgia do espetáculo, ao lado de Carina Corá, a partir do texto ficcional de Franz Kafka.
É um desafio para qualquer artista que queira transportar a narrativa literária sobre Gregor Samsa para uma outra estrutura narrativa que não a do texto. O cineasta David Cronenberg já o tentou na grande tela. Pois este jovem coletivo enfrentou o desafio no palco, e o resultado é surpreendente e entusiasmante.
Perguntava-me, antes de assistir ao trabalho, sobre o que quereriam aqueles jovens artistas, mesclando dança, interpretação dramática, bonecos, teatro de sombras e tudo o mais que se possa imaginar. Pois não dá para imaginar. O espetáculo, de pouco menos de uma hora de duração, começa rodeando o tema, mas logo diz ao que veio, do ponto de vista da encenação. Os atores são também bailarinos, e o ritmo de instrumentos de percussão (as próprias mãos e os sapateios) logo nos leva através do palco. Gradativamente, a partir de abordagens mais genéricas e filosóficas, o drama de Samsa vai se constituindo. Num determinado momento, o ator veste um figurino todo ocre. A transformação ocorreu, e, a partir dali, vamos acompanhar o próprio personagem em sua tentativa de sobrevivência diante da família até agressiva, à exceção da irmã.
O que mais surpreende em todo o espetáculo é sua permanente e constantemente renovada criatividade. Por exemplo, a partir dos acessórios de cena, como carrinhos de madeira, uma espécie de mesa logo transformada em sofá; cabines que parecem telefônicas mas que logo viram apertados banheiros ou até quartos atopetados de objetos descartáveis da casa. Os atores não se aquietam em cena. Ali, temos a mãe, o pai, a irmã, visitantes, o próprio Gregor Samsa. Este seu intérprete, embora muito jovem, evidencia uma maturidade de interpretação que é absolutamente inesperada. Ele é preciso nos movimentos coreográficos que sugerem o inseto, mas jamais o desenham com precisão. A atriz ora é mãe, ora é irmã. Todos eles, de qualquer modo, encarnam figuras diversas, que rodeiam o personagem principal que, não obstante, subsiste na mais profunda solidão.
O próprio Kafka, tudo indica, sempre se sentiu um deslocado. Renegado, marginalizado, esquecido, desclassificado - Kafka transfere todo este conjunto de vivências para o personagem que, afinal, sucumbe. Mas enquanto o personagem cai, levanta-se, evidente, a qualidade do grupo e a sua dedicação à criação deste trabalho. Raras vezes tenho ficado tão curioso e tão em expectativa, a ver o que vai acontecer em cena, como a direção vai solucionar o problema que ela mesma se colocou, e assim por diante.
Metamorphosis, é assim que se chama o espetáculo, ao contrário do lamentável Hamlet a que assistimos também naquele fim de semana, não tem nenhuma pretensão de reescrever ou recriar o clássico de Kafka. Pelo contrário, com humildade, propõe um modo de objetivar a compreensão possível do texto do escritor polonês. E o faz com desenvoltura, propondo um espetáculo inesperado por sua flexibilidade, me levando a perguntar: como um grupo chega a tais ideias e soluções ao longo dos ensaios e dos encontros que realiza? Quem pensou os bonecos, por exemplo, dos visitantes? Quem pensou que os visitantes deveriam ser bonecos, digo? Quem idealizou os móveis que vão se transformando e encaixando uns nos outros, numa espécie de cenografia econômica que entusiasma e inova a própria concepção cenográfica?
Quando muitos grupos se apresentam com enormes pretensões, e falham e frustram ao espectador, o IN-Coletivo Cênico chegou com humildade, como quem não queria nada, e revelou-nos o mundo. Que bela revelação, através do trabalho de Clarissa Sistre, Jordan Maia e Thiago Ruffoni. O trabalho de toda esta equipe trouxe uma grande luz a todos os que amamos o teatro. Ao contrário do personagem, que vive num ambiente opressor, este espetáculo revigorou e renovou o ar já envenenado.
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Comentários
Carolina Garcia Marques 10/12/2018 15h12min
Boa tarde, Hohlfeldt ! Suas palavras muito nos motivam a continuar ... Estou a disposição para conversarmos mais sobre a processo e reflexões que levaram aos elementos de cena,cenografia e jogo dos atores nessa encenação. Por favor, gostaríamos de solicitar apenas a correção de meu nome na matéria online : Carolina Garcia (ao invés de Camila Garcia) e de Clarissa Siste (ao invés de Sistre). Agradecemos imensamente sua presença constante nas platéias da produção artística do RS.Abraço frateno