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Porto Alegre, sexta-feira, 24 de agosto de 2018.
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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Edição impressa de 24/08/2018. Alterada em 24/08 às 01h00min

Um quatrilho bem resolvido

Ópera de Vagner Cunha teve libreto de José Clemente Pozenato

Ópera de Vagner Cunha teve libreto de José Clemente Pozenato


GILBERTO PERIN/DIVULGAÇÃO/JC
Terminou no último domingo (19), com récita no Teatro Feevale, de Novo Hamburgo, a primeira temporada da ópera O Quatrilho, de Vagner Cunha, a partir do romance do mesmo título, de José Clemente Pozenato, que igualmente assina o libreto. Assisti-a no sábado último, no Teatro Murialdo, de Caxias do Sul, depois de suas primeiras récitas no Theatro São Pedro, em Porto Alegre.
A música, e em especial a composição, não é minha especialidade, mas acompanho de perto a produção operística da Capital há muitos anos, tendo inclusive integrado os corais da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, em suas mais diversas temporadas, desde aquela histórica Aída, no Auditório Araújo Vianna. Creio que posso, assim, ter uma avaliação bastante ampla desse tipo de trabalho. De qualquer modo, minhas observações quanto aos aspectos musicais são rápidas, constituindo-se especialmente, e sobretudo, de observações de um amador. A composição de Vagner Cunha chama a atenção por sua competência quanto à melodia. Ele é um criador competente de climas melódicos, como, por exemplo, na ária Chinvidia me fa, entoada por tia Gemma (contralto Luciane Bottona, de excelente voz e dramatização), ou na Ave Maria de Pierina (soprano Maíra Lautert), neste caso, em especial, porque é um tema bastante conhecido e que ele renova criativa e dramaticamente. No entanto, Cunha tem um problema: sobrecarrega a partitura com a percussão, o que interfere na própria melodia, abafada ou demasiadamente ritmada, o que lhe tiras naturalidade, porque fica pesada.
A Camerata OntoArte, regida pelo maestro Antonio Borges-Cunha, está excelente, mesmo num ambiente que, se tem boa acústica, espacialmente não era o mais recomendado para a encenação, como o foi este Teatro Murialdo, de Caxias do Sul. Uma bela surpresa foi o fato de José Clemente Pozenato evidenciar competência para não apenas ter composto um excelente romance - como já tive oportunidade de registrar, há muitos anos, quando de sua estreia -, quanto estrear-se enquanto libretista, capaz de guardar o essencial do romance, dando-lhe outra vitalidade, concentrando cenas e valorizando o drama dos dois casais que, enfim, se realizam na troca de seus integrantes. É interessante observar que Pozenato mantém-se longe da tragédia que habitualmente marca estes enredos, eis que, embora traídos, os dois casais terminam por se recompor e se realizar em suas vidas, numa espécie de final feliz que certamente deve ter escandalizado a alguns, na época.
A direção de Luiz Arthur Nunes tratou de sublinhar esta concentração, contando, para isso, com a iluminação de Cláudia de Bem, que sempre destaca os solistas e deixa as demais figuras em lusco-fusco. Não sei se a opção do diretor em congelar as cenas de segundo plano seja a melhor saída: acho que as figuras de segundo plano poderiam ter ações próprias, sem atrapalhar os solistas, na medida em que a iluminação já diminui a atenção sobre elas. Assim como está, parece-me um pouco artificial.
Se o primeiro ato está centralizado na figura de Teresa (soprano Carla Maffioletti), que puxa o enredo, revelando-se para Mássimo (barítono Daniel Germano, de bela textura vocal), o segundo ato é conduzido por Pierina que, depois de traída, aproxima-se de Ângelo (tenor Flávio Leite), com quem realiza o sonho de riquezas materiais. Aliás, é essa construção dramática, traduzida pela composição musical, que evidencia a habilidade criativa de Vagner Cunha: um soprano mais lírico e doce do primeiro ato dá lugar a um soprano mais dramático do segundo ato. Ambas as intérpretes realizam, a seu modo, e ambas com enorme qualidade, suas tarefas, de modo que ambas terminam por cativar o espectador, muito mais do que os dois integrantes masculinos que são, de fato, no enredo, figuras de menor dramaticidade.
O elenco se complementa com Luciano Bottona, a que já me referi, ao lado de Pedro Spohr e Ricardo Barpp, que representam, de certo modo, o antigo coro da tragédia grega ou as grandes massas corais das óperas italianas: antecipam fatos, comentam acontecimentos, trazem algum elemento cômico novo etc.
De qualquer modo, é altamente positivo que a cuidada produção de Cláudio Carrara, com a participação de Carlos Branco, tenha dirigido sua atenção a uma obra da literatura sul-rio-grandese que já é um clássico, revitalizando-a, valorizando-a difundindo-a ainda mais. O grupo deverá excursionar pelo País, nos próximos meses e, no ano vindouro, vamos encontrá-lo, uma vez mais, em Porto Alegre. Desde logo, reservo um lugar cativo para rever a obra.
Se a bulhenta plateia de Caxias do Sul atrasou por duas vezes o início de cada ato, diante das conversas, fazendo com que o maestro tivesse de esperar o silêncio para poder iniciar a obra, redimiu-se ao receber apoteoticamente ao escritor José Clemente Pozenato e a toda a equipe responsável pela encenação, que teve casa lotada e acompanhamento atento.
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