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Porto Alegre, sexta-feira, 06 de julho de 2018.

Jornal do Comércio

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Notícia da edição impressa de 06/07/2018. Alterada em 06/07 às 01h00min

A presença de Ivo Bender

Sem exageros, dramaturgo recentemente falecido é um digno sucessor do pioneiro Qorpo Santo

Sem exageros, dramaturgo recentemente falecido é um digno sucessor do pioneiro Qorpo Santo


GABRIELA DI BELLA/ARQUIVO/JC
A obra dramática de Ivo Bender é múltipla, pois reúne textos para adultos e crianças. Mas, ao mesmo tempo, é extremamente uníssona, pois apresenta, com clareza, uma visão de mundo que se expressa através de uma perspectiva irônica e crítica, articulando imagens aparentemente absurdas que camuflam, na verdade, reflexões sérias a respeito da realidade imediata. Do ponto de vista de uma história da dramaturgia no Rio Grande do Sul, Bender é um digno sucessor do pioneiro Qorpo Santo: como ele, Bender trabalha com cenários de seu entorno, refere-se a um tempo semelhante ao seu (e a de seus leitores ou espectadores), apresenta-se com a aparência da descomprometida comédia para articular uma leitura profundamente arguta do contexto imediato em que encontra.
A estreia de Ivo Bender, enquanto dramaturgo, ocorreu em 1961, com As cartas marcadas ou Os assassinos. Estávamos nos loucos anos 1960, em que diferentes valores se articulavam e tensionavam. No ano seguinte, surgem Os alcatruzes e, em seguida, A terra devorada, certa alusão ao poema de T. S. Eliot. Entre 1963 e 1964, o dramaturgo lança A farsa da nurse estrangeira, escrevendo, em seguida, Corpo crescente - texto que nunca concluiu - e em 1967, A fantástica aparição de Red-Rider em Brejo Seco pondo fim a uma situação insustentável ou O Saloon da Consolação. Aqui, encontramos um primeiro conjunto de textos que articulam situações aparentemente isoladas, mas que trazem reflexos daquelas contradições que então marcavam também o Brasil, redundando no golpe de 1964.
Não por um acaso, no ano do Ato Institucional nº 5, o mais draconiano de todos os documentos produzidos pelo movimento ditatorial, Ivo Bender produz A casa sitiada, evidente metáfora da condição brasileira.
Daí para a frente, talvez buscando evitar confrontos frontais com a censura, o dramaturgo prefere escrever textos para crianças, como Auto das várias gentes no dia de Natal (1968), As aventuras do Super-espantalho contra o Dr. Corvo (1972), Auto do pastorzinho e seu rebanho (mesmo ano de 1972), O macaco e a velha (1974), A invasão das tiriricas (1974) ou A estrelinha cadente (também de 1974), em que recria contos populares ou propõe releituras de rituais tradicionais, sobretudo aqueles vinculados ao Natal.
Quando escreve para os adultos, prefere desenvolver situações aparentemente desvinculadas do aqui e agora, como em Queridíssimo canalha (1969), talvez um de seus textos mais populares, ou Quem roubou meu Anabela?, de 1971/1972, engraçadíssima cena que pode ser lida ora enquanto comédia, ora enquanto narrativa policialesca. Ivo Bender escreveria, ainda, O cabaré de Maria Elefante (publicada em 1988), Mulheres mix (editada em 2000), para chegar a sua obra-prima, a chamada Trilogia perversa (1988), formada por três textos simultaneamente independentes e articulados numa única narrativa, com textos nomeados apenas pelas datas de referência dos acontecimentos, começando pelo período mais recente, 1941, a que se seguem 1874 e 1826, que atinge o período mais distante, historicamente considerado. O contexto em que ocorre a ação dramática é o da colonização alemã - lembrando-se que Ivo Bender é de descendência alemã, tendo nascido em São Leopoldo. Através deste universo, o dramaturgo seleciona três momentos significativos: 1941 (que tem o subtítulo de Colheita das cinzas) refere-se à grande enchente de maio daquele ano, quando as águas do Rio Guaíba invadiram a cidade de Porto Alegre, assim como todos os demais rios que cortam a província sul-rio-grandense deixaram seus leitos e invadiram as cidades que banhavam, como a própria São Leopoldo. Metaforicamente, é bom lembrar que a chuva serve para lavar e purgar.
1874 (As núpcias de Teodora) refere-se aos episódios sangrentos dos assassinatos dos crentes mucker, atacados e dizimados por forças policias a pedido de autoridades civis e religiosas, na medida em que a comunidade do ferrabrás crescia e ameaçava as convenções oficiais da sociedade institucionalizada. Por fim, 1826 (A ronda do lobo) recupera o período pioneiro do início da colonização germânica em terras do Rio Grande do Sul. O dramaturgo orienta sua obra, portanto, do período mais próximo para o mais antigo, evidenciando uma inversão que já é, em si mesma, uma avaliação dos acontecimentos. Para que se entenda a realidade presente, é necessário buscar os antecedentes pretéritos. É que todo este conjunto de textos está inspirado e se rege por mitos gregos, das grandes tragédias clássicas, reinterpretadas pelo dramaturgo gaúcho que, assim, cobre 115 anos de história, a partir do mito grego dos átridas, que significa o devoramento dos filhos pelos pais, que desconhecem tal condição: em última análise, o que se evidencia é que a civilização humana se erige a partir da violência e o canibalismo é a condição sine qua non a sociedade humana se constitui.
Meio que marginalmente, o volume Nove textos breves para teatro reúne alguns textos em que Ivo Bender se volta para a mitologia gauchesca do Rio Grande do Sul, satirizando valores e comportamentos valorizados por esta tradição constituída a partir do Partenon Literário, como Amor gaúcho, Casinha pequenina ou O boi dos chifres de ouro. Neste volume, encontramos também um texto que renova o mito grego de Fedra, do mesmo modo que um outro faz homenagem a Garcia Lorca (Bodas ao cair da tarde em alusão a Bodas de sangue, do poeta granadino).
Esta síntese evidencia a intensidade da produção dramática do autor. Pode-se dizer que Ivo Bender pensava e vivia dramaticamente, o que não significa que ele não desenvolvesse atividades variadas. Encontrei-me com Ivo Bender no início dos anos 1970, quando fui para a Divisão de Cultura, da Secretaria Municipal de Educação. Ali, trabalhavam Luiz Osvaldo Leite, Vaniá Brown, Rosa Maria Malheiros e Irene Brietzke, dentre outros. Aliás, foi ali que Ivo teve O auto do pastorzinho estreado, com encenação nas escadarias da própria prefeitura municipal.
Depois, reencontrei Bender enquanto aluno do Programa de Pós-Graduação em Literatura da Pucrs, no qual também estudei. Tatata Pimentel, ele e eu formávamos uma turma de estudos sobre comédia e tragédia, orientada por Regina Zilberman. Destas aulas nasceria sua tese de doutorado, publicada em livro, a respeito da comédia. Mais tarde, reencontrei-o no Departamento de Arte Dramática, o DAD, onde fui professor substituto.
Em todos esses momentos, Bender sempre foi colega e amigo, sempre pronto a ajudar, sempre atento e disponível, mas também sempre alerta para ironizar contradições ou práticas que ele considerasse irracionais. Era um observador atento e crítico, com uma perspectiva de humor cáustico, mas sempre humanizado.
Alguém já disse que se Ivo Bender tivesse nascido no Centro do País seria um dos dramaturgos mais conhecidos do Brasil. É provável que sim. Mas, ao mesmo tempo, não sei se Bender, longe do Rio Grande do Sul, teria produzido toda a obra que escreveu, pois faltar-lhe-ia a matéria-prima indispensável para isso. Felizmente, há poucos meses, o Instituto Estadual do Livro publicou na coleção Escritores gaúchos - Série digital, volume dedicado ao dramaturgo. Se pode ser verdade que o dramaturgo não chegou a se notabilizar nacionalmente por ter permanecido em Porto Alegre, não é menos verdade que seus textos sempre foram montados por grupos locais e praticamente toda a sua obra foi editada em diferentes volumes.
É evidente que agora deve haver preocupação, por parte do mesmo IEL que, na verdade, editou boa parte de seus textos em anos anteriores, reunir e organizar toda a sua obra, publicando-a num único volume a que poderá agregar avaliações e comentários de seus contemporâneos e de novas gerações. Creio que, com isso, garantir-se-ia a sobrevivência de sua obra e maior conhecimento e valorização da mesma.
De qualquer modo, é bom lembrar que, nos últimos anos, parece que insatisfeito com as possibilidades da dramaturgia, Ivo Bender vinha se dedicando mais à prosa, outra aspecto qualificado de sua obra, a ser ainda melhor analisada.
Perdemos o cidadão Ivo Bender, o que nos entristece, claro, mas não corremos o risco de perder a obra dramatúrgica do criador Ivo Bender, o que é sempre um consolo, porque isso que, no futuro, será conhecido e valorizado. É com esta produção que ele permanecerá vivo entre nós.
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