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Porto Alegre, quarta-feira, 15 de setembro de 2021.
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Notícia da edição impressa de 15/09/2021.
Alterada em 14/09 às 21h45min

O enigma do emprego

Cecilia Machado
De um lado, são mais de 8 milhões de americanos buscando emprego. De outro, são quase 11 milhões de vagas em aberto. Seria o fim do desemprego? Pior que não. As empresas querem contratar, mas não conseguem. Mostram-se preocupadas com a escassez de mão de obra. Os trabalhadores, por sua vez, ou não estão qualificados para as vagas disponíveis ou não se interessam por elas. Sem consenso entre as partes, a vaga segue vazia.
De um lado, são mais de 8 milhões de americanos buscando emprego. De outro, são quase 11 milhões de vagas em aberto. Seria o fim do desemprego? Pior que não. As empresas querem contratar, mas não conseguem. Mostram-se preocupadas com a escassez de mão de obra. Os trabalhadores, por sua vez, ou não estão qualificados para as vagas disponíveis ou não se interessam por elas. Sem consenso entre as partes, a vaga segue vazia.
À medida que a vacinação avança e a economia reabre, o processo de recontratação dos trabalhadores que foram dispensados durante a pandemia se mostra desafiador. É cada vez menos provável que fatores temporários estejam por trás da lenta recuperação do emprego. Por exemplo, o medo do contágio ou de novas variantes perde força agora que a vacinação é mais abrangente.
Também parece pouco aderente a associação entre as generosos transferências de renda e o desincentivo ao trabalho. Nos EUA, o montante do seguro-desemprego foi expressivo -com o suplemento de US$ 600 por semana no início da pandemia, 76% dos desempregados tiveram reposição de renda acima de seus salários-, mas os efeitos em emprego foram pequenos. Entre os estados que abandonaram o programa federal de seguro-desemprego antes do prazo, a redução do desemprego foi bastante modesta.
Uma terceira explicação está relacionada ao fechamento das escolas, que dificulta o trabalho de pais com filhos pequenos. Entretanto, apesar de a perda de emprego ter sido maior entre as mães quando comparadas aos pais, o reemprego tem se dado de forma semelhante entre mulheres com e sem filhos, indicando que a volta ao trabalho está pouco ligada à situação das escolas.
Ainda há enorme incerteza sobre as causas do descasamento entre a oferta e a demanda por trabalho, mas é razoável considerar que mudanças mais estruturais na economia tenham parte na culpa, seja através de produtos e serviços que passaram a (e deixaram de) ser demandados, seja em como e onde a atividade produtiva se organiza. No auge da pandemia, a atividade se contraiu em setores e localidade específicas, e agora, com a reabertura da economia, há dúvidas sobre o retorno da demanda aos mesmos lugares de antes e sobre a perda de mercado dos setores e das empresas mais afetados, e consequentemente, sobre a capacidade de empregar trabalhadores especializados nestas atividades.
Ao que tudo indica, o choque da Covid-19 está associado a uma realocação permanente na economia. Os custos associados à mudança no capital físico, humano e organizacional das empresas aumentam o desemprego da economia e diminuem a velocidade da recuperação. Tal qual ocorreu na grande crise de 2008-09, já é visível a mudança na relação entre as taxas de desemprego e as taxas de vagas, representada pela curva de Beveridge. O deslocamento da curva para a direita -para um dado desemprego, a taxa de vagas é maior- está em linha com uma menor eficiência nos pareamentos de emprego.
No Brasil, infelizmente, não há informações disponíveis sobre a abertura de vagas como na Job Openings and Labor Turnover Survey (Jolts) dos EUA -fica aqui uma dica para o IBGE ou Ministério do Trabalho. Ao longo das últimas décadas, parte expressiva do crescimento do mercado de trabalho no Brasil se deu em empregos de baixa remuneração e pouco produtivos, justamente os mais afetados pela pandemia e para os quais uma realocação do trabalhador é mais difícil.
Enquanto a agenda reformista segue mirando uma nova estrutura tributária com pouco ganhos de eficiência, um novo programa social marginalmente diferente do atual Bolsa Família, e uma reforma administrativa que deixa parte importante do funcionalismo de fora e economiza poucos recursos, o problema do emprego e da produtividade do trabalho permanece à deriva. Ao contrário da pandemia, não nos deixará tão cedo.
 
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Opinião Econômica
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