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Porto Alegre, quinta-feira, 06 de maio de 2021.
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Notícia da edição impressa de 06/05/2021.
Alterada em 05/05 às 21h53min

Inflação pode não ser tão temporária

Solange Srour
Economista-chefe do Credit Suisse Brasil
Economista-chefe do Credit Suisse Brasil
De um lado, Jerome Powell, presidente do Fed (banco central dos EUA), repete -dia sim, dia não- que a recente alta da inflação é temporária, resultado natural da recuperação da atividade e da reabertura da economia. O mesmo discurso é reiterado na Europa e em vários emergentes, inclusive no Brasil.
De outro lado, a temporada de resultados das empresas listadas nas Bolsas globais evidencia que a falta de insumos e as pressões generalizadas sobre os custos não são transitórias.
A maioria dos setores reporta produção aquém da desejada e estoques baixos, e a expectativa é que a reversão desse cenário não se dará em poucos meses. Pesquisas que captam as perspectivas de emprego, produção, custos e prazos de entrega das indústrias (conhecidas como PMIs) apresentam resultados semelhantes nos mais diversos países: preços dos insumos no maior patamar da série, atrasos nas entregas e elevadas encomendas.
Warren Buffett, um dos mais importantes investidores do mercado financeiro global, sintetizou no sábado (1º) o pensamento de grande parte dos presidentes-executivos: "Estamos vendo uma inflação muito substancial. O interessante é que aumentamos os preços, nossos fornecedores aumentam os preços, e as pessoas, que estão com dinheiro no bolso, estão aceitando pagar mais".
Preços de commodities em forte alta, custos elevados de transporte e até mesmo pressões salariais são hoje as principais fontes de pressão sobre a inflação. A extraordinária expansão fiscal e monetária global, em conjunto com o maior controle da pandemia, impulsionou a demanda por bens e, mais recentemente, por serviços. Explicam boa parte da alta dos preços dos insumos, dos produtos finais e, de forma incipiente, dos salários. O exagerado aumento dos benefícios sociais nos EUA, mesmo após a pior fase da pandemia, por exemplo, já começa a impor dificuldades para as empresas contratar mão de obra.
No entanto, essa é uma explicação parcial. Não estamos assistindo apenas a um choque de demanda, mas também a um choque de oferta: o efeito prolongado da quebra das cadeias produtivas.
A pandemia causou a interrupção de suprimento de matérias-primas relevantes (cobre, ferro, aço, madeira) no mundo inteiro, cujo efeito mal se compara aos impactos das tensões EUA-China, que eclodiram pela primeira vez em 2018 e afetaram a inflação temporariamente.
O retorno da capacidade produtiva não será imediato. Com cadeias produtivas integradas mundialmente, a diferença no ritmo de vacinação entre os países se apresenta como uma forte restrição.
Quão temporária será a inflação? A resposta depende de dois fatores cruciais: as consequências da pandemia sobre o processo de globalização e a capacidade dos bancos centrais de controlar as expectativas inflacionárias de longo prazo.
A chamada "guerra pelas vacinas e por materiais farmacêuticos" e a falta generalizada de insumos trazem repercussões geopolíticas. Os primeiros atos de Joe Biden em relação às transações com o exterior foram bastante semelhantes aos do governo Trump. Biden já propôs uma série de políticas de promoção da produção nacional, incluindo punições fiscais destinadas a empresas que terceirizam empregos, bem como incentivos fiscais para trazer empregos de volta. Seu pacote de infraestrutura tem um forte apelo ao sentimento "made in America".
A velocidade com que preços e salários sobem é extremamente sensível à forma como os trabalhadores e as companhias veem a dinâmica da inflação subjacente da economia.
A inflação de hoje é muito influenciada pelas expectativas de inflação de longo prazo. Enquanto os bancos centrais conseguirem ancorá-las, serão capazes de frear uma aceleração não temporária da inflação sem causar grandes perdas de PIB; mas, se não normalizarem as taxas de juros quando as circunstâncias assim exigirem, o custo do ajuste será bem mais significativo.
Os esforços de desinflação dos bancos centrais desde 1980 até a crise financeira de 2008 se beneficiaram enormemente da globalização e da credibilidade conquistada pelos bancos centrais. São esses dois riscos que parecem estar sendo minimizados em um momento em que o mundo sofre choques de demanda e de oferta. Ambos parecem ser menos temporários do que alardeado. Pode ser a tempestade perfeita para a volta de uma inflação mais persistente.
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Opinião Econômica
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Abre espaço para a opinião qualificada sobre temas da área econômica e política, como juros, inflação, finanças pessoais, mercado de capitais e gestão, entre outros. Entre os articulistas, estão Nizan Guanaes, Samuel Pessoa, Márcia Dessem, Solange Srour e Nelson Barbosa.